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Xuxa se despede da nave em turnê e não quer mais voltar a cantar

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 24 de julho de 2026 às 08:55 | Atualizado há 55 minutos

Xuxa durante os ensaios da turnê “O Último Voo da Nave”, que marca a despedida da icônica nave dos programas de TV | Foto: Blad Meneghel
Xuxa durante os ensaios da turnê “O Último Voo da Nave”, que marca a despedida da icônica nave dos programas de TV | Foto: Blad Meneghel

Xuxa Meneghel não quer voar de volta à música, embora tenha encomendado uma nave imensa para fazer o show mais ambicioso de sua carreira. Para dar “beijinho, beijinho” e “tchau, tchau” a um dos seus maiores símbolos, ela mandou construir uma megarréplica do veículo espacial que, neste sábado (25), vai pousar no estádio do Palmeiras, em São Paulo, antes de ela cantar seus sucessos antigos.

“Já não tenho vontade, voz, capacidade ou tempo para isso”, diz Xuxa, em uma brecha dos ensaios. “Não estou fazendo o show para me relançar. É só para ver as pessoas felizes, emocionadas, cantando comigo. Vai ser uma troca de energia.”

A turnê “O Último Voo da Nave” pousa mais uma vez na capital paulista na sexta-feira que vem, dia 31 de julho. Nos próximos meses, faz paradas em Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Despedida da nave

“Será uma despedida dessa nave que me transporta para um espaço com coisas que já não me caem bem”, diz Xuxa, em mensagem de voz enviada à reportagem. “Se eu vier a me apresentar de novo no futuro, não gostaria de ter a nave física. Pode ser, sei lá, com imagens em telão. Mas ela física me traria de novo para os anos 1980 e 1990.”

“Entendo que o público ainda queira me ver assim”, afirma. “Entendo tanto que estou colocando músicas que acho que eles vão gostar, as roupas, as cores. Mas depois espero que me permitam não fazer mais.”

Mais do que um mero cenário nos seus programas de TV, a nave funcionava como ritual — dali surgia Xuxa, como uma figura mítica. Para fazer isso mais uma vez, ela encomendou uma nave construída em Amsterdã, um dos objetos cênicos mais caros já produzidos para um show no Brasil, segundo Kley Tarcitano, o diretor da turnê.

“O investimento na nave supera o orçamento completo de muitos shows”, diz ele, sem contar quanto. A entrevista por escrito foi mediada pela assessoria da produtora 30e. “É um projeto de muitos milhões.”

Releitura dos clássicos

Xuxa e Tarcitano imaginaram uma fantasia para o show. De dentro da astronave, a cantora parte em direção à Lua de Cristal, um mundo fictício sem guerras. No percurso, usando um arco-íris de guia, ela revisita suas principais fases.

As 31 músicas do setlist vão relembrar o programa Xou da Xuxa, dos anos 1980, o Xuxa Park, exibido na década seguinte, o Planeta Xuxa, do fim dos anos 1990, e também sua era mais recente, Xuxa Só Para Baixinhos. Vinte e nove das canções foram picotadas para caber no show. Somente duas serão apresentadas por completo.

A nostalgia vai ser embalada em arranjos novos — e às vezes inusitados. A convite de Xuxa, o DJ Dennis produziu um funk que embala o bloco dedicado ao Planeta Xuxa. Outra mudança vai aparecer na performance da canção “O Show da Xuxa”, que terá referências a “Festa do Estica e Puxa”.

Embora diga estar animada para viajar pelo espaço e tempo, Xuxa afirma que depois quer não apenas abandonar a nave, mas desacelerar a carreira musical. “Não acho que eu vá ter vontade de fazer isso depois.”

Referências internacionais

Aos 63, e longe das grandes turnês há cerca de duas décadas, ela buscou inspiração no vigor de Madonna, de 67 anos, e de Cher, que tem 80. Perguntada sobre a idolatria à juventude que permeia a cultura pop, Xuxa responde que foi cobrada demais mesmo quando mais nova, e que àquela época já não se sentia validada como parte da cultura pop nacional.

“Pessoas amarguradas não admitem eu ter 63 anos e ainda receber tanto carinho”, afirma. “Já ouvi gente dizendo ‘quando ela era jovem, eu não gostava dela; agora que é velha gosto menos ainda’. Mas faz parte, é do ser humano. A gente acorda e pode tomar dois caminhos: o de ser bom ou o de ser ruim.”

Xuxa precisou superar esses e outros demônios na elaboração do show. Sua voz, ela conta, foi o maior deles.

“Não gosto de cantar, e tive que gravar músicas no estúdio. São 20 faixas com vozes novas, e isso não me agrada”, afirma a dona do disco infantil mais vendido do mundo, segundo o Guinness Book, o livro dos recordes.

Há três anos, Xuxa vem estudando as turnês mais recentes de artistas como Beyoncé, que liderou duas maratonas grandiosas nos últimos anos, e Pink, conhecida por fazer shows pendurada de cabeça para baixo por cabos. No caso de Beyoncé, e resgatando também shows de Michael Jackson, Xuxa olhou especialmente para a dança, numa tentativa de reproduzir o balé preciso dos astros americanos.

Ela quis, então, um grupo capaz de fazer tudo. “No meu time de dançarinos tem pequenininho, grande, mais cheinho, magrinho, gente de circo, um que pula, outro que se pendura, que é bom no balé clássico, no sapateado, em dança de salão”, ela diz. Xuxa foi criticada no passado por contratar apenas mulheres magras, brancas e loiras como Paquitas, as dançarinas que a ladeavam.

E, embora use as divas de fora como fonte, Xuxa teve receio de parecer que quis copiá-las. “Vi a Beyoncé usando roupas tipo as que eu já tinha desenhado e encomendado”, ela conta. “Estou vendo agora pessoas sendo abduzidas por uma luz. No meu caso, tenho a nave. Pensei ‘ai, caramba, as pessoas vão achar que estou tirando essa ideia daí’.”

Legado da Rainha dos Baixinhos

“O Último Voo da Nave” termina de celebrar, com certo atraso, os 60 anos de Xuxa. Foram comemorações extensas. Xuxa lançou um documentário para revisitar alegrias e traumas, assoprou velinhas em um cruzeiro temático e até voltou a fazer cinema infantil.

Nesse processo, ela voltou a abraçar a persona rainha dos baixinhos, que havia deixado em segundo plano enquanto navegava por outros espaços. Após 28 anos na TV Globo, emissora que a transformou em fenômeno nacional, Xuxa foi à Record para apresentar um programa de variedades e um reality show e investiu em projetos voltados ao público adulto.

Nenhuma dessas iniciativas, porém, repetiu o impacto cultural que ela havia conseguido com as crianças — hoje os marmanjos que compraram ingressos para seus shows.

Agora, Xuxa espera conquistar também os filhos desses fãs, uma geração que não sabe o que significa “ilariê”, quem é a mascote Txutxucão, ou por que a loira que sai de uma nave é capaz de mobilizar multidões. “Espero que sejam novos baixinhos”, ela diz. “A turnê é feita para os fãs. Não tenho outro intuito.” (Guilherme Luis/FOLHAPRESS)


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