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"Não me arrependo de nada", afirma Adriano, em rara entrevista coletiva

De substituto de Ronaldo Fenômeno a problema psicológico em decorrência de perda familiar, atacante brasileiro tem vida narrada em série documental que estreia no streaming e abre o jogo sobre carreira: ‘não era tratado como ser humano’

diario da manha
Adriano grava depoimento para série documental: vida ao lado da família e amigos - Foto: Paramount+/ Divulgação

O jogo estava difícil. Arrastando-se em campo e abatido atrás dos adversários, o Brasil perdia para a Argentina até que, aos 47 do segundo tempo, numa bola espirrada no desespero por Diego, Adriano fuzila as redes hermanas. Foi uma pancada, daquelas em que o goleiro é submetido instantaneamente à solidão do tento sofrido, suficiente para levar o jogo aos pênaltis e, de lá, colocar as mãos na taça de campeão da Copa América 2004, disputada no Peru, com o time reserva. 

No ano seguinte, já dono de um império que lhe conferia reinado absoluto no ataque da Inter de Milão, o jogador recebeu a bola na intermediária, escapou da falta, puxou para o lado e, sem piedade, emendou uma paulada de canhota, pavimentando o caminho aos próximos três gols brasileiros, na decisão da Copa das Confederações, em Frankfurt, na Alemanha. De novo contra os vizinhos do Rio da Prata. De novo com Adriano tirando o sossego dos zagueiros. Era seu auge.

A vida de Adriano Leite Ribeiro, 40, por lances como os narrados na abertura desta reportagem e pela escolha em retornar à Vila Cruzeiro, daria um filme. E não é que deu mesmo? “Adriano, Imperador”, série documental dirigida por Susanna Lira que chega nesta quinta-feira, 21, ao Paramount, não foge dos assuntos espinhosos. Em três episódios, mostra o menino que cresceu numa das comunidades mais violentas do Rio de Janeiro, virou ídolo da Inter e Flamengo, ficou milionário, bebeu além do tolerável após a morte do pai e, deprimido, retornou à sua gente. 

Adriano, como se vê, teve seus conflitos, ficou famoso, lutou contra depressão, mostrou-se humilde, envolveu-se em escândalos, comprou carros (“quando comecei a ganhar um dinheirinho comprei uns três. Minha mãe perguntava o que eu ia fazer com aquilo”), namorou quem quis e, claro, jogou muita bola. Sem ser chapa-branca, “Adriano, Imperador” aborda esses temas, com depoimentos de jogadores como Aloísio Chulapa, Dejan Petković, Javier Zanetti, Léo Moura e Ronaldo Fenômeno, de quem Adriano era considerado sucessor. 

Além desses atletas, também marcam presença na produção profissionais que ocupam outra área do esporte, como Massimo Moratti (“com quem até hoje tenho uma ótima relação”), ex-presidente da Inter de Milão, familiares de Adriano, como Rosilda Ribeiro, mãe do craque, e amigos próximos. Na visão de Xico Sá, em “Memórias de Adriano”, ele saiu cedo demais de casa e perdeu o essencial para um homem antes de conhecer direito as outras mulheres: “o carinho materno à vera.”

“Se o Adriano não estiver bem, o Imperador também não vai estar”, disse o ex-jogador em coletiva, na qual esteve presente o Diário da Manhã, na terça-feira, 19, via Zoom. Na maior parte do tempo com um sorriso no rosto e descontraído, Adriano falou com jornalistas por uma hora sobre tudo, ou melhor, quase tudo, já que ele é reservado e não curte muito dar entrevistas : experiência no Parma (“onde aprendi a virar atacante”), vivência na Inter, morte de Almir Leite, seu pai, cobranças e pressões. Só não podia mesmo questionar o ex-craque sobre sua ligação com facções criminosas e fotos em que segura simulacros de fuzis. 

Segundo Susanna Lira, que também dirigiu “Casagrande – Num Jogo Sem Regras”, a produção possui um aspecto que a define como documental, pois fala sobre o Rio de Janeiro e a vida em comunidade, além de perfilar traços da alma de Adriano. Susanna contou ainda que teve valiosa ajuda de Pedro Paula, um dos tios do ex-atacante. “Tio Papau”, como é chamado, registrou mais de 20 anos da vida de Adriano com uma câmera VHS. É dele, por exemplo, imagens do ídolo junto de familiares e amigos na Vila Cruzeiro, tesouros que recheiam a obra. 

“O tio foi um grande documentarista porque cada frame traduz o Adriano”, afirmou a diretora, que estava sentada ao lado do craque na sala de imprensa do estádio Morumbi, em São Paulo. “Eu era mal compreendido naquela época”, resumiu Adriano, a respeito dos questionamentos com os quais teve de lidar por ter pausado a sua carreira sem saber, à época, sobre a morte de seu pai, em 2004, quando estava no auge. A perda tirou a sua alegria de jogar bola. 

Sobre a decisão de abandonar o futebol, Adriano abriu o jogo e disse que as pessoas não aceitavam que ele tivesse tomado essa decisão. “Mas, para mim, não importava. Importava realmente o que eu estava sentindo. Mas eu fico triste porque eu não era tratado como um ser humano. Só viam o lado do futebol”, declarou. Embora esteja cercado de polêmicas, ninguém duvida que Adriano é boa praça e nem amado. A existência é perigosa e derrapar na curva não é nada demais.

Outros tópicos abordados na entrevista

Arrepende-se de algo?

“Não me arrependo de nada. Porque eu fiz o que quis fazer. As coisas que aconteceram na minha vida foi aquilo que eu quis fazer, não tem porque ficar me culpando pelo que aconteceu. Era para acontecer. Como sempre digo, Deus sabe de tudo na nossa vida. O que fiz foi pensado, no momento em que eu precisava, por causa de coisas tristes. Acho que não me arrependo, não. Quer dizer, tenho certeza”.

Aposentadoria

“Quando parei foi uma decisão porque não estava mais com a cabeça focada. Logo que vim da Roma para o Corinthians e meu tendão arrebentou no primeiro treino, veio a tristeza de antes e isso me abatia muito. Quando eu ficava triste me desligava, então é melhor deixar de lado, deixar o futebol. Foi uma tristeza para mim e todos os brasileiros, porque eu era considerado um dos melhores atacantes na época. Não foi fácil, mas naquele momento achei necessário”.

Camisa 9 da Seleção Brasileira

“Tem o Hulk, tem o Gabigol, depende muito da forma que a seleção joga. Tem Neymar, que joga mais fora da área do que dentro. Se eu estivesse ali com certeza dava conta (risos), mas tem jogadores que se forem convocados vão fazer por onde e dar alegria para a gente”.

Torcida pela Seleção no Catar

“Infelizmente eu não pude ganhar uma Copa, mas o coração está junto com os jogadores, torcendo. Sei da responsabilidade de jogar uma Copa do Mundo e com certeza a seleção está bem preparada para conseguir o título”. (Ricardo Magatti/ Estadão Conteúdo)

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