Entretenimento

‘A Saga do Tri’ esmiúça jornada da Seleção até brilho na Copa de 1970

Redação

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 21:26 | Atualizado há 3 meses

‘A Saga do Tri’ recria jogos clássicos da Seleção Brasileira na campanha pelo título
‘A Saga do Tri’ recria jogos clássicos da Seleção Brasileira na campanha pelo título

Marcus Vinícius Beck

A minissérie “Brasil 70: A Saga do Tri” chega à Netflix em maio, duas ou três semanas antes da Seleção Brasileira começar sua busca, na América do Norte, pelo hexa. Segundo a Fifa, a Copa do Mundo se iniciará no Estádio Azteca, às 16h, na Cidade do México, em 11 de junho.

Antes de o juiz assoprar o apito, no entanto, o audiovisual aquece a claque. Quem sabe “A Saga do Tri” não haverá de refrescar a memória. São tempos vividos, revividos e sonhados.

De acordo com a Netflix, o enredo se desenrola em momentos históricos, seja no futebol ou na política brasileira. Durante a fase mais brutal da ditadura militar, sob o governo Emílio Garrastazu Médici, o time brasileiro demonstra os encantos de seu belo futebol-poesia.

No livro “Um Olhar Sobre Futebol”, o tricampeão Tostão lembra que os jogadores eram criticados por não se rebelar contra o regime. “Éramos jovens, sonhadores, ambiciosos, compromissados com nossa carreira e loucos para ser campeões do mundo”, recorda-se.

Sob a direção de Pedro e Paulo Morelli, “A Saga do Tri” traz o ator Lucas Agrícola como Pelé. O comediante Marcelo Adnet vive o narrador fictício Eusébio Teixeira, ao passo que Rodrigo Santoro encarna João Saldanha. Bruno Mazzeo interpreta Jorge Lobo Zagallo.

Embora houvesse televisão ao vivo, o Brasil ainda estava no preto e branco. Sabia-se das cores por aqui, claro, mas a importância disso era pouca, quase inexistente. Segundo Ruy Castro, imaginava-se o amarelo das camisas, o verde do gramado, o azul do céu mexicano.

Jules Rimet

Foi lá que o time ergueu a Taça Jules Rimet, essa deusa ludopédica da vitória. Por todo o torneio, o escrete exibiu honra e graça, beleza e humildade, arte e raça. Pelé, o mágico, subiu. Ficou ali e, então, enfiou a bola no canto: era gol na garganta rouca. Abria-se a contagem.

Eis o placar: Brasil 4, Itália 1. E as palavras, caro Armando Nogueira, você que vivia delas, onde estariam? O campo do Azteca, após o fim da peleja, virou um manicômio: brasileiros e mexicanos, felizes e loucos, esbanjavam alegria. Quase tiraram a sunga de Tostão.

Até a glória, como mostra “A Saga do Tri”, a desconfiança mandou na canarinha. Quatro anos antes, na Copa de 1966, o Brasil vencera apenas um jogo, contra a Bulgária, na estreia, e perdera depois para Hungria e Portugal, este último uma partida decisiva e violenta cujo placar foi 3 a 1.

A pressão se revelaria intensa durante a preparação para a Copa de 70, algo reconstituído na minissérie. Afinal, a ideia é encenar não apenas o espetáculo dentro das quatro linhas, mas sobretudo a insegurança acerca do torneio, o medo de fracassar e as críticas da imprensa.

Para arrumar o time, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) anunciou João Saldanha. O jornalista, de cara, incendiou o público. Eram as “Feras do Saldanha”. A Seleção não só venceu todos os jogos durante as eliminatórias, como também encantou em campo.

Craque diz que jornalista foi importante para título mundial

João Saldanha é interpretado pelo ator Rodrigo Santoro na série ‘Brasil 70: A Saga do Tri’

“João Saldanha foi importantíssimo para a conquista do Mundial. Zagallo, um estrategista, também foi. Cada um do seu jeito. João Saldanha era uma pessoa inteligente, visionária”, diz Tostão. “Associava, com velocidade, as palavras e as ideias. Às vezes, viajava, fantasiava.”

Quem disse que isso não é importante, ora? Mas, como reconstrói a Netflix, o torcedor temia que o fiasco de 1966 se repetisse. Saldanha, que atropelara os adversários nas eliminatórias, estava em apuros. Então alijaram-no do escrete, como a canarinha era chamada à época.

Demitido, o treinador deu lugar a Zagallo. “Seremos campeões de 70, conquistaremos para sempre o caneco, porque somos melhores”, previu Nelson Rodrigues, a voz solitária a proclamar que o Brasil se daria melhor no México do que o futebol-prosa dos europeus.

Aqui está “A Saga do Tri”. Ao encenar os fracassos e as conquistas, a minissérie volta-se também aos desafios, emoções e temores enfrentados por Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres ao longo da preparação e disputa da Copa do Mundo.

Falavam, por exemplo, que Rivellino não era jogador de decisões. Já Gérson, meia, renderia em clubes. Jairzinho, o Furacão da Copa, não passaria de um finalizador rápido. E Tostão não teria condições de jogo — sofrera um descolamento de retina e fora até operado.

Bruno Mazzeo caracterizado à beira do gramado: ator interpreta técnico Zagallo

Metafísica

Longe de seu auge, Pelé chegou ao México sob suspeitas de que já não seria mais o mesmo. O homem-futebol se via em crise metafísica, mas por pouco não acertou um chute do círculo central contra a Tchecoslováquia. Desde então, os perebas fizeram “o gol que Pelé não fez”.

Na semifinal, o Rei ficaria diante do goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz. Pelé era Pelé. Estava cansado de saber que era gênio como Machado de Assis ou James Joyce. Então, ele não faria o protocolar; preferiria o sublime — gingaria na frente do arqueiro. Perderia o gol.

Completam a escalação do time que atua em “A Saga do Tri” os atores Gui Ferraz (Jairzinho), Ravel Andrade (Tostão), Caio Cabral (Carlos Alberto), Daniel Blanco (Rivellino), Fillipe Soutto (Gérson), Hugo Haddad (Félix) e Maicon Rodrigues (Paulo Cézar Caju).

Rodrigo Santoro recorre à metáfora futebolística. “Foi uma honra bater bola com esse time dentro e fora de campo”, diz o artista, que deu forma dramática ao ex-jogador Heleno de Freitas, em 2012. Bruno Mazzeo, por sua vez, brinca: “o time já está escalado (por mim).”

Na história do futebol, dizia Nelson Rodrigues, nunca uma seleção tinha feito uma jornada tão perfeita. “Ganhamos de todos os pseudocopas”, escrevia o cronista, emocionado, em 22 de junho de 1970. “Foi a mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos.” Era “A Saga do Tri”

Fotos: Alexandre Schneider/Netflix


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia