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Copa do Mundo 2026: Ele é a esperança de nossa gente

Redação Online

Publicado em 28 de junho de 2026 às 19:32 | Atualizado há 42 minutos

Como “O Homem Vitruviano”, do artista plástico Leonardo da Vinci: polímata do futebol - Foto: FIFA
Como “O Homem Vitruviano”, do artista plástico Leonardo da Vinci: polímata do futebol - Foto: FIFA

Marcus Vinícius Beck

Vini Jr. quer um baile na defesa japonesa. Anda sorrindo. Como o homem-gol de Jorge Ben Jor, o camisa 7 brasileiro sobe, desce, corre, chuta, abre espaço. Vibra e agradece. É, meu caro Ben Jor, a cidade toda vai ficar vazia nesta segunda-feira (29/6) bonita só pra apreciá-lo jogar.

Só faltam, agora, os carregadores de piano levarem o meio-campo nas costas, nobre ação dos proletários da bola. A despeito desse samba esquema novo, é preciso apostar na cautela e no sangue-frio: avançaremos, corocondô, e avançaremos, sobretudo, mais confiantes, decididos.

Sim, Vini, é a África Brasil. E lá vem você, vixe, desfilando pela cancha, coberto de glórias e gols, orgulhoso de sua luta e de sua história. Essa gente, que vai te marcar, não diminuirá os espaços e eles são velozes, feito a progressão de acordes bossanovista. Um time minimalista.

Mata-mata é sublimação, talvez dissesse o cronista Armando Nogueira, mestre da lauda e do olhar. Mata-mata, digo eu, é uma ginga de sensações a delirar com dribles e gols, com faltas cometidas e ataques sofridos. Mata-mata dura 90 minutos — nem mais nem menos.

Perdoem-me a insistência que me leva a sonegar-lhes uma análise objetiva da peleja. Mas mata-mata em Copa é assim: a frieza dá lugar aos gritos do coração. Na tabelinha textual, Nogueira afirma que o homem ilumina um universo com a bola, seu fascinante brinquedo.

Você aí, veja só a poesia ludopédica: “Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver.” Tudo bem que essa lírica foi redigida no Azteca após o tri, em 70.

Vini Jr. finta a estatística. Chora e sonha: “De onde eu vim, ou você vira bandido, ou você tem de trabalhar muito para…” O documentário “Baila, Vini”, disponível na Netflix, revela-o em meio à luta antirracista. Não é só um jogador, é um menino que superou as barreiras.

No filme, o cineasta Andrucha Waddington registra a insatisfação do atacante após o revés na Copa de 2022. Vini conversa com amigos e, de repente, fala sobre as escolhas do técnico Tite contra a Croácia, pelas quartas. O Brasil, naquele jogo, acabou eliminado nos pênaltis.

Vini Jr. brilhou com a camisa amarela contra a Escócia, pela fase de grupos da Copa – Foto: Rafael Ribeiro/ CBF

“Tem que sofrer uma falta ali. Se para, acaba o jogo. Substituição, demora dois minutos para substituir. Até todo mundo sair. O cara tem de dar o chutão”, reclama Vini. “No final, tira o Ney, bota o Bremer. Acabou o jogo, não tem mais jogo. Os caras chutaram uma vez no gol.”

Que tristeza, senão dor, tragédia e drama, do tipo que deixa o craque sem rumo. Aquele 9 de dezembro de 2022 não foi fácil. Vini chorou, lágrimas a lhe afogar o sorriso, matando a razão de ser do camisa 7. Levaram-lhe o gosto pelo baile e pela dança, tiraram-lhe a picardia. 

Até que, em maio de 2025, o italiano Carlo Ancelotti assumiu o comando técnico da Seleção. Havia conduzido o Real Madrid, time de Vini Jr., ao título da Liga dos Campeões da Europa em 2024. Era a redenção do jogador, assolado pela recente derrota brasileira numa Copa.

Para Ancelotti, é satisfatório ver Vini bem. “Não tinha dúvida de como ele poderia chegar a essa Copa. Para ele, é uma honra jogar com a Seleção. Ele está indo muito bem, também fez gol de cabeça, o que é muito raro para ele. Não sou eu que vou descobrir o Vini”, endossa.

Joga bola, joga bola, jogador: Vini Jr., nesse momento, é a esperança. Pelo direito de sonhar como o craque umbabarauma e sua sabedoria das pernas habilidosas, lance a lance, drible a drible, brecando o corpo no espaço, zagueiro deitado, tererê, tererê homem-gol, caro Ben Jor.

Eis a esperança brasileira, agora dona absoluta da palavra: “É o momento mais especial e importante da minha carreira. Tenho meu nível físico e técnico como sempre sonhei. Não tive nenhuma lesão na temporada. Me preparei muito bem para chegar a esse momento.”

De Neymar (o ídolo fracassado) a Vini Jr. (o herói de nossa gente), temos esperança. O jogo, como se diz entre os especialistas, muda em poucos anos. Se aquele jogador foi preterido em 2010, agredido em 2014, zombado em 2018 e derrotado em 2022, agora Vini é a redenção.

Vai bem, diga-se: o atacante, ao marcar gols em todas as partidas da primeira fase, iguala-se a Jairzinho na Copa de 70, Romário em 94, Rivaldo e Ronaldo em 2002. Passo a bola para Wisnik: “passam pelo futebol brasileiro linhas incontornáveis de interpretações do Brasil.”


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