Copa do Mundo 2026: Por onde anda o camisa dez?
Redação Online
Publicado em 21 de junho de 2026 às 21:21 | Atualizado há 1 hora
Restou só ele: Neymar veste número consagrado por Rei Pelé - Foto: Lucas Figueiredo/ CBF
Marcus Vinícius Beck
Dói ver a Seleção Brasileira sem criar o jogo a partir do meio-campo, sofrendo para envolver o adversário, trocar passes e, sobretudo, entrar na área. O time pentacampeão se apequenou diante do Marrocos, em Nova Jersey, e foi dominado. Precisou de Vini Jr. Senão seria pior.
Na Filadélfia, há dois dias, a história foi outra. Houve melhora, ainda que pouca. A Seleção envolveu o adversário, os meias acertaram passes, 3 a 0. Mas o goleiro Alisson, exposto aos ataques do Haiti, trabalhou no fim da partida. Não fosse ele, os caribenhos fariam gol.
Depois da estreia, muito se debateu sobre a essência do futebol brasileiro, tema por vezes chato — como observou o jornalista Tim Vickery em uma live da “Trivela”. Ele está certo nisso. Só que, ainda assim, devemos voltar ao assunto. Sofremos de amnésia neste país.
Lá fora, contou o inglês, os comentários eram surpresos: “Marrocos parece o Brasil dos velhos tempos, fazendo triangulação.” Tim, então, disse: “O Brasil abriu mão de jogar bem no meio-campo e isso é uma questão.” Há cerca de 30 anos, o jornalista tem falado disso.
“Quando as pessoas falam em essência do futebol brasileiro, sempre falam no drible. Eu tenho outra visão. Para mim, a essência do futebol brasileiro foi ter os melhores passadores da bola na faixa central de meio-campo, gerenciando o jogo”, explanou o jornalista, na live.
Você aí, lembra de Didi, o Folha Seca? O gênio ficou na memória. Recorda-se da magia de Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e Rivelino? Aquilo era arte. Talvez não vejamos tão cedo esse tipo de jogo. Ronaldinho foi o último. Tivemos Neymar. Não cabe, portanto, comemorações.
Quer dizer, tem Matheus Pereira, armador do Cruzeiro. Canhoto e habilidoso, possui bom passe. Poderia aparecer entre os convocados de Carlo Ancelotti. O italiano, todavia, não quis chamá-lo, preferindo volantes ou pontas. De toda forma, ele se vê num deserto de ideias.
Sente falta?

Mitológico meio-campista, Zico foi perguntado por um repórter de “O Globo”: “Sente falta de um camisa 10?” O Galinho de Quintino respondeu: “Claro, de um organizador. Você não tem um jogador que vem de trás, chega na área, faz gol. Só o Neymar poderia fazer isso.”
Eis a base do problema, segundo o ídolo flamenguista: “Você não vê um garoto que faz a armação do jogo, olha, penetra, faz gol, dá assistência. Hoje, você tem muitos jogadores pelos cantos: Luiz Henrique, Estêvão, Raphinha. Aí tem um monte, dá pra escolher.”
A julgar por essa tese, o futebol brasileiro — na era do capitalismo globalizado — forma jogadores de olho no mercado europeu. Exporta mão de obra para os times de lá. A força do dinheiro ameaça a escola brasileira, de jogo pensado, espaços abertos, tabelas e improviso.
Na obra “Escola Brasileira de Futebol”, o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, oferece uma visão cultural e histórica: “Escola brasileira é o drible. É esperar que o craque defina um jogo num lance mágico, como o chapéu de Pelé em Mel Charles contra o País de Gales, em 1958, a arrancada de Ronaldinho Gaúcho no gol de Rivaldo contra a Inglaterra, em 2002.”
Seja como for, o 10 é símbolo do estilo brasileiro. Daí os torcedores, no próximo domingo (21/6), festejarem uma das datas magnas do nosso futebol, a conquista pelo Brasil em 70 do tricampeonato mundial. Foi quando o jogo-poesia da Seleção Canarinho venceu o catenaccio italiano no estádio Azteca, na Cidade do México, por 4 a 1. Noventa minutos de grande arte.
Seleção Brasileira adocicou jogo criado por ingleses

O país fundado em 1958 renascia. Pelo menos é o que escreve o cronista Joaquim Ferreira dos Santos em “O Globo”. Ou seja, fundava-se o futebol brasileiro sob a figura milagrosa de Pelé, o gênio que encantou o mundo aos 17 anos. Um adolescente prodígio assustou a todos.
Realeza do jogo, o santista congrega em suas características algo sistematizado na descrição do sociólogo Gilberto Freyre que consta do artigo “Foot-ball Mulato”, publicado no “Diário de Pernambuco” em 1938: havia algo de dança ou capoeiragem ali. Na visão freyriana, esse traço adocicava o jogo inventado pelos ingleses, aproximando-o de um balé deseuropeizado.
Na França, em 1938, Leônidas da Silva já apresentara ao mundo um certo jogo dionisíaco. O Diamante Negro — sim, o famoso chocolate é uma homenagem a ele — marcara sete gols. A Itália, com o uniforme inteiramente preto, em alusão à milícia paramilitar fascista Camisas Negras (que espalhava o terror a mando de Benito Mussolini), derrotara o Brasil por 2 a 1.
Após a semifinal do Mundial de 38, o diário “La Gazzetta Dello Sport” dera na manchete: “Saudamos aqui o triunfo da inteligência branca italiana sobre a força bruta dos negros.” Levaríamos ainda bons anos para nos libertar da fúria tosca dessa arrogância europeia.
Éramos humilhados. Talvez por isso, ao redigir a crônica-testamento da Copa do Mundo de 1958, o escritor Nelson Rodrigues tenha se dirigido ao leitor assim: “Pelé, um menor total, irremediável, que nem pode assistir a filme de Brigitte Bardot.” E, no entanto, lá veio esse menino, de Três Corações, e fez o milagre. Matou, de uma vez, o complexo de vira-latas.
Com a 10 nas costas, o jogador — riam os santistas — já era realidade. Mas o mundo não o conhecia. A partir daquela partida na Suécia, como sói acontecer aos gênios, ele inventou e eternizou um número: os dois dígitos seriam associados, para sempre, ao melhor do time.

Estética do jogo
O Rei criou uma linguagem não verbal, estética e arte populares. Por isso o futebol, na precisa definição do crítico literário e professor José Miguel Wisnik, autor do livro “Veneno Remédio”, editado pela Companhia das Letras, flutua numa zona limiar entre tempos culturais que se entremeiam. Com ginga lírica, a arte do camisa 10 açula as partidas.
Como vê Wisnik, o futebol reafirma-se ocasião pertinente para se estudar a sociedade à sua volta. Há uma relevância sociológica na sabedoria que conduz a bola nos pés, bem como “na substância não substancial que se caracteriza por ser ao mesmo tempo mortífera e salvadora, redentora e destrutiva, dividindo-se e repondo-se, sem se decidir entre essas faces opostas”.
Durante o livro “Os 11 Maiores Camisas 10 do Futebol Brasileiro”, publicado em 2010 pela Contexto, o jornalista Marcelo Barreto diz: “Pelé estreou na Seleção Brasileira — aos 16 anos, convocado pelo técnico Sylvio Pirillo por causa de suas atuações no Santos […] — justamente no lugar do jogador que vestia a 10.” Seu nome era Del Vecchio, também jogador do Peixe.
Âncora do “Redação Sportv”, Barreto lembra ainda do encontro definitivo entre o Rei e a camisa 10: “Só se daria na Copa de 58.” No país nórdico, relata, a numeração dos jogadores brasileiros foi distribuída sem planejamento por um funcionário da Fifa, pois a CBD enviara à entidade uma lista desprovida dessa informação. Gilmar, assim, recebeu a 3 e Pelé, a 10.
Voltemos, pois, a 1970. Do meio para a frente, cinco pontas de lança. Jairzinho, veja só, era 10 no Botafogo. Gérson, 10 no São Paulo. Pelé, 10 no Santos. Rivelino, 10 no Timão. E Tostão, o mineirinho, usava a 8 no Cruzeiro. No entanto, isso era um detalhe. Todos, quando dentro de campo, atuavam numa função parecida, típica do nosso futebol — eles pensavam o jogo.
Esse arquétipo driblava, fazia gol, dava lençol, carretilha, lambreta. Se o marcador vacilasse, levava logo uma meia-lua, um drible da vaca, uma chaleira. Era desmoralizado, o infeliz. E ai se o zagueiro não ficasse atento, de olho na partida — iria para o vestiário mais cedo. Seria incitado a dar botinadas no desaforado jogador. Isso se conseguisse pegá-lo e pará-lo, claro.
Desaparecimento gradativo
Mas, como numa bola enfiada entre um ferrolho, o camisa 10 sumiu. Seu desaparecimento foi gradativo: o futebol total holandês de Johan Cruyff e Rinus Michels nos tirou da final em 74. Contudo, tínhamos o 10: Rivelino. Na Argentina, quatro anos depois, ninguém explicou o que houve — o saldo de gols nos eliminou, numa partida na qual os donos da casa fizeram seis no Peru. O ditador argentino Jorge Videla visitou o vestiário andino antes do confronto. Ainda paira um certo mistério sobre esse episódio, se bem que o general curtia barbarizar.
Pois, é, fazer o quê? Ainda contávamos com o 10 — e eram dois, o experiente Riva e o novato Zico, este estreante em Mundiais. Claudinho Coutinho, o “campeão moral de 78”, deixou a Seleção. Para o seu lugar, a CBD convidou Telê Santana. Íamos para cima. O meia da Gávea, exímio cobrador de falta, trocava passes com Toninho Cerezo, Falcão e Sócrates, craques, habilidosos e elegantes na condução da partida. Só que, muitas vezes, o futebol é injusto.
Pesa sobre Zico, por exemplo, dois fracassos brasileiros em Copas: as derrotas de 82 e 86. Ainda que, evidentemente, o Galinho seja um gênio na arte de cobrar faltas, marcar gols e criar belas jogadas. Por esse motivo, o jornalista Fernando Calazans decretou: “Se Zico não ganhou a Copa, azar da Copa.” Acusá-lo de fracasso? Chamá-lo de pipoqueiro? Pense bem.
Até porque certas coisas não se explicam. Ao descrever a Tragédia de Sarriá, o jornalista Juca Kfouri examina o triunfo do futebol-força sobre o futebol-arte: “A verdade é que, se jogasse dez vezes contra aquela ótima seleção italiana, a brasileira venceria seis, empataria três e perderia uma.” Naquele dia 5 de julho, em Barcelona, na Espanha, estávamos fadados à dor.
No livro “Confesso que Perdi”, lançado pela Companhia das Letras em 2017, Kfouri se recorda de como cada um digeriu, à sua maneira, o triste revés. Nem o jornal “Corriere Della Sera” acreditava na vitória: “Ninguém se escandalizará com uma eliminação azzurra.” No entanto, quem saiu derrotado — você sabe — foi o Brasil. Três gols do atacante Paolo Rossi.
Tragédias
Difícil entender o mundo. Que tristeza, Brasil. No México, em 1986, o francês Michel Platini foi o carrasco brasileiro. Era o 10 dos Les Bleus. Quatro anos depois, na Itália, o 10 argentino — chute a quem me refiro, arrisca? — meteu uma bola para Caniggia, que saiu na cara de Taffarel e o deixou no chão. Logo depois, Maradona quase ampliou no Delle Alpi, em Turim.
Desde 1970, não ganhávamos a Copa. Obtivemos a classificação diante de 101.670 pagantes, no Maracanã, contra o Uruguai, liderado pelo meio-campista Enzo Francescoli, El Príncipe. Outro dez clássico, de visão de jogo e ótimo passe. Dessa vez, entretanto, deu Brasil: 2 a 0. Enfim, iríamos ao Mundial de 94, nos Estados Unidos. E seria um time pragmático, objetivo.
Durante os anos JK e ao ritmo da bossa nova, o Brasil ganhou sua primeira Copa. Garrincha e Pelé bateram o futebol-ciência dos europeus. Em 1962, no Chile, o Rei se machucou. Mané e Amarildo se acharam em campo. Éramos bi. O tri veio na ditadura, em pleno AI-5. Da 3ª estrela à 4ª, não só o jogo havia mudado. Vivíamos, bem ou mal, em um estado democrático.
Desde fevereiro de 1994, vigorava o Plano Real. A hiperinflação, por fim, estava controlada. Em maio, a Seleção viajou para os EUA, dando início à jornada em busca do tetra escapado da Canarinho tantas vezes. O técnico Carlos Alberto Parreira desenhou um meio de campo operário com Dunga e Mauro Silva como volantes. Zinho e Mazinho jogavam pelos lados.
Parreira preteriu craque em favor de jogador operário

Raí, o 10 do time, acabou preterido por Parreira. Era preciso marcar, reduzir os espaços, como que implantando um estilo europeu. Aliás, a liga italiana, nesta época, seria como a Premier League hoje — era onde estavam os craques. E a Itália não é exatamente ofensiva. Pragmática ou não, a Seleção voltou campeã. Detalhe: não havia nenhum pensador no time.
Em 1998 — sob o comando de Zagallo —, o papel de armador central cabia a Rivaldo. Era o cérebro, criava, pensava, fazia a bola chegar ao ataque em boas condições para Ronaldo e Bebeto. Quis o destino, no entanto, que a Seleção Brasileira chegasse à final para ser superada pela França de Zinedine Zidane. Outro requintado camisa 10 a nos punir.
A partir daí, alguns 10 nos tiraram das Copas. Zidane, em 2006, cruzou para Thierry Henry, que desviou para as redes — caímos nas quartas de final. Na África do Sul, em 2010, o vilão foi o holandês Wesley Sneijder. Luka Modrić, a lenda croata, ditou o ritmo da partida no Mundial do Catar, como um regente que comanda a orquestra sinfônica em noite de gala.
Entre 1994 e 2002, a Seleção conquistou o tetra e o penta. Período de glória, talvez apenas comparado ao domínio mundial de 1958 a 1970. O improviso, o vai pra lá, que eu vou pra cá e as triangulações, isso tudo — ainda que não mais naquele pretérito perfeito — era visto na forma com que o Brasil surpreendia seus adversários nos Estados Unidos e na Ásia.
Era o último murmúrio de um jogo que se fundamentava na ideia de ocupação do espaço. Autor do livro “Maracanã: Quando a Cidade Era Terreira”, o escritor, historiador e professor Luiz Antonio Simas explica que essa é a maneira brasileira de jogar bola. O Brasil formou gerações de jogadores a partir do que chama de “experiências que estão fora do gramado”.
Mudanças na escola brasileira
“É o futebol de rua, é o futebol de praia, é o futebol em que você jogava numa ladeira de paralelepípedo. Era um futebol em que a primeira relação que a criança tinha com a bola era uma relação lúdica”, conceitua Simas, em entrevista à Rádio Brasil de Fato, neste mês. “À medida que você vai perdendo, inclusive, as sociabilidades na rua, esse futebol vai sendo levado, basicamente, para dentro dos clubes, para as escolinhas, para as peneiras e tal.”
Isso transforma tudo, claro. E, diante dessa mudança cultural, como chegar a um menino de oito anos e dizer que ele não pode mais brincar com os amigos na rua? E que essa mesma criança, sei lá por quais motivos (vão desde a insegurança nas metrópoles às novas formas de sociabilidade), irá ser colocada numa escolinha. Lá, o técnico lhe dirá para não driblar nem passar a bola de calcanhar ou de letra, sob a ameaça de ir parar no banco de reservas.
Assim, perdemos o nosso DNA. “Isso gerou um processo de desencanto. O Neymar, talvez, tenha sido um dos últimos forjados num encanto de jogar bola”, constata Simas. “Eu vi o Neymar começar, com 16, 17 anos, no Santos. Era uma coisa impressionante. O Neymar tem tudo: tem o talento, tem o drible, tem a percepção do campo. Ele é um jogador excepcional.”
A despeito de suas notáveis qualidades ludopédicas, Neymar se revela contraditório. Os parças e seu estafe o tratam como um produto. Ele próprio, querendo ou não, virou símbolo do fracasso brasileiro dentro de campo: se machucou e a Seleção levou 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Na Copa seguinte, rolou pelo gramado contra o time belgo e — verdade seja dita — conseguiu uma façanha contra a Croácia, em 2022, tabelando, driblando e fazendo um bonito gol. Mas adiantou de quê? O Brasil foi eliminado nos pênaltis naquele ano.