De repentina valorização ao banco no Botafogo, Luís Henrique se programa para 2016
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosRIO, 15 (AG) – Aos 17 anos, Luís Henrique teve um 2015 crucial na vida, e não foi o Enem. Atacante, que pulou do time sub-17 direto para a vaga de titular do Botafogo, foi visto como solução do ataque, marcou quatro gols em 15 partidas no ano, foi convocado para a seleção olímpica – neste domingo, do banco, viu o time de Rogério Micale vencer os EUA por 5 a 1, em Belém.
– Tudo aconteceu muito rápido nos últimos cinco meses para mim – afirma o jogador, que também assinou neste ano seu primeiro contrato de exclusividade em material esportivo, com a Puma.
O último jogo pelo alvinegro, porém, faz quase um mês, contra o Boa Esporte. Dez dias depois, juntou-se à seleção brasileira sub-17 que disputou o Mundial no Chile e foi eliminada por 3 a 0 para a Nigéria, nas quartas de final. Desde então, foi duas vezes ao banco assistir às atuações de Ronaldo, autor do gol que garantiu o acesso à Série A e a prometida nudez de Maitê Proença.
Na retrospectiva, a subida no Botafogo foi de fato muito veloz. Afinal, bastou estrear com dois gols sobre o Sampaio Corrêa, em julho, para o clube aumentar seu salário de R$ 2,5 mil em mais de 20 vezes, num contrato com prazo até o fim de 2017 e uma cláusula de rescisão de R$ 60 milhões. O motivo? Aplacar o interesse de rivais que já haviam se interessado pelo atacante, como o Corinthians, que o farejava.
– Eu sempre soube que não poderia queimar etapas. Tento absorver cada conselho que os mais experientes me passam – afirma Luís Henrique. – Estou animado com a chance de fazer minha primeira pré-temporada nos profissionais. Será um período de consolidação e afirmação. Nem estou pensando nas férias – diz o rapaz, que poderia ter se desanimado com “má” fase recente se não tivesse visto a carreira por um fio quando tinha seus 14 anos.
Nascido na pequena Itarana, município capixaba com pouco mais de 10 mil habitantes, Luís Henrique se desenvolveu em escolinhas. Primeiro, em Águas de Lindoia-SP, atuou na instituição comandada pelo ex-zagueiro Oscar. Depois, no Rio, foi pinçado por Júlio César, o Uri Geller, da escolinha do CFZ, de Zico, à equipe competitiva. Quando o Galinho se tornou diretor do Flamengo, em 2010, o menino foi aprovado para a base rubro-negra.
– No início, a ficha não estava caindo de que o futebol poderia render frutos, mas ele foi fazendo golzinhos, virou titular do sub-12 – relata a mãe Tanara Farinhas, uma comissária de bordo de 37 anos que se lembra vividamente do dia em que o sonho de Luís, então com 14, se tornou sua missão.
– No último ano no Flamengo, em 2012, ele não foi muito bem. A comissão técnica mudou, ele foi para a reserva, depois, nem viajava mais – relata ela. Um dia, depois de deixar Luís Henrique no treino do Ninho do Urubu, ela recebeu um telefonema do filho enquanto dirigia para o Galeão. Chorando, o menino de 14 anos contava que havia sido dispensado.
Naquele momento, Tanara abraçou a carreira de Luís Henrique e prometeu que o faria voltar a jogar em um grande clube. Compilou imagens de jogadas em um DVD e, com a ajuda de seu ex-empresário, Jolden Vergette, que cuida da carreira do zagueiro Dória, viu a porta se abrir no Botafogo.
A mãe hoje administra a carreira do filho, ajudada por um cunhado advogado e pela irmã, que ensina inglês a Luís.
Apesar da distância, já que mora em Itarana, onde trabalha como bancário, o pai de Luís Henrique, Evilmar Taffner, de 40 anos, é quem dá os puxões de orelha na parte técnica. Ex-jogador com passagem por times capixabas, ele teve sua carreira no futebol encerrada aos 28 anos ao romper ligamentos do joelho direito.
– Avisei a ele que estava se antecipando às jogadas, mas fora da direção do gol. Disse para ele que faça isso, mas nunca fora da linha da trave. Foi uma dicazinha e, no jogo seguinte (contra o Bahia), ele fez um gol assim – orgulha-se o pai, que fala sobre os ídolos de infância do atacante. – Pedia camisas de Ronaldo, Adriano, Ibrahimovic…
Para a mãe dele, os rumos da vida o levaram à desenvolver cedo um sentido de responsabilidade, processo que foi acelerado quando o irmão dois anos mais velho voltou para morar com ambos.
– Depois disso, ele virou o homem da casa, aos 17 anos. Se posiciona bem sobre as coisas e é ético – diz Tanara.
Quem confirma a mãe é o homem que tentou levá-lo para o Corinthians: Robson Tavares, coordenador técnico da base do Corinthians, que trabalhou com ele no CFZ:
– Desde aquele tempo (com 12 anos), ele parecia velho. Hoje, nas entrevistas, parece um adulto, na maneira de falar e nos objetivos de vida.
Entre tantos elogios, um dos mais especiais vem do técnico da base alvinegra, Felipe Conceição, que um dia foi o Tigrão e grande esperança de gols vinda dos juniores no fim da década de 90. Por uma série de lesões, Felipe não decolou e, em 2011, encerrou a carreira no Cabofriense. Aos 36 anos, ele vê no menino uma versão melhor de seu próprio roteiro.
– São muitas coisas em comum, a fase do time, a expectativa da torcida, a maneira como subi e os gols no princípio. Ele, graças a Deus, não tem histórico de lesões – diz Felipe, hoje amigo pessoal de Luís Henrique. – É um camisa 9 desses que esperamos há algum tempo. Tem bom posicionamento, finalização e, especialmente, uma explosão no trecho final do campo, que lembra Romário, Ronaldo, esses de quem sentimos saudade.