Esportes

Engenheiro carioca desenvolveu tocha brasileira

Redação DM

Publicado em 2 de julho de 2015 às 23:51 | Atualizado há 11 anos

SÃO PAULO – Durante oito meses, um sobrado de 1923 na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, guardou um surpresa para o Rio de Janeiro e o mundo. O guardião, o engenheiro carioca Gustavo Chelles e sua mulher, fiel escudeira e sócia, a designer catarinense Romy Hayashi, comandaram uma equipe de criação com seis ilustradores, todos responsáveis pela idealização do desenho final da Tocha Olímpica. O projeto do escritório Chelles & Hayashi Design, que foi escolhido por unanimidade pela comissão julgadora, levou oito semanas para ter seu conceito inicial concebido. Foram mais de 200 estudos até chegar ao desenho final, em total sigilo.

– Nem meus filhos gêmeos de 10 anos sabiam disso, para termos certeza de que não vazaria por inocência – conta Chelles, que foi criado na Tijuca e se formou no Colégio de São Bento e na UFRJ. – Os arquivos são mantidos em servidor com criptografia, e as imagens, sempre criptografadas. Os itens físicos ficam em locais restritos e, como sempre acontece, o estúdio não pode ser acessado por pessoas externas. Em casos especiais, há uma preparação para que nada fique exposto.

A pesquisa antropológica começou com tochas ancestrais brasileiras e olímpicas, passou pelo estudo de ícones e padrões indígenas e folclóricos até chegar aos movimentos de atletas, congelados pelas lentes fotográficas: desde uma enterrada de basquete a uma cortada no vôlei, passando pela leveza da ginástica. As paredes do escritório são decoradas com essas fotos esportivas, rascunhos, estudos de traços, brainstorms e imagens de diversos aspectos temáticos que sugerem as curvas que desenham a tocha.

– A inspiração partiu muito da imagem congelada de um atleta, num momento de esforço para poder se superar. Fechada, a tocha é todo branca, tem uma simplicidade. O conceito da abertura veio de tentar prender esse momento do atleta no espaço ou em câmera lenta. Queremos que essa abertura seja uma coisa suave como o desabrochar de uma flor. Quando aberta, era muito importante que a tocha fosse colorida, vibrante para que houvesse uma identificação com o Brasil, e a chama fosse bem visível mesmo de longe. Na hora em que as pessoas andam em volta dela, há uma vibração de sombras e de luzes que remete um pouco à alegria que está nas festas regionais, como São João – explica o carioca.

A viagem iconográfica mergulhou nas ondas e areias dos Lençóis Maranhenses e no calçadão de Copacabana; pulou o carnaval no Rio, com as escolas de samba, e em Salvador, com o Olodum; continuou nas ondas sonoras de Tom e Vinicius, Cartola, Noel e Chico; passeou nos bondinhos do Pão de Açúcar e de Santa Teresa; passou pelas curvas dos Arcos da Lapa, do Morro Santa Marta, da Rocinha, de São Conrado e do Gávea Golf Club; rezou na Catedral e acabou abraçado pelo Cristo Redentor. Tudo isso mesclado com a arte urbana dos grafites da dupla “osgêmeos” e do colorido de Romero Britto. Essas e muitas referências estão expostas nas paredes do estúdio de design.

– Entendemos que a musicalidade é muito forte no povo brasileiro e se entrelaça com a sinuosidade das montanhas. Trazemos a diferença entre cada corte porque há muitos ritmos, muito tipos de pessoas e melodias. Se você gira, dá a volta em torno da tocha, dá um efeito de balanço, tanto de mar quanto de música. Queríamos traduzir isso: como migrar do que é o terreno para o transcendental; uma pessoa comum que faz um movimento extremo que supera todos os limites dela – poetiza Romy, nascida em Blumenau.

Para chegar ao protótipo que a presidente Dilma Roussef segurou hoje na cerimônia de lançamento, em Brasília – um pouco mais pesada do que a Tocha Olímpica, que terá entre 1 e 1,5kg -, Chelles e Romy dividiram as tarefas de direção criativa e design. A parte de modelamento e processos ficou por conta dele, e a de conceito e redação foi responsabilidade dela. A coordenação do cronograma e entregas esteve a cargo Adolfo Melero, e as ilustrações foram feitas por Kátia Numakura, Raquel Pereira e Viviane Conrado. Todos participaram da criação, incluindo Leonardo Blaich e Mateus Furtado.

Num momento inicial, a liberdade de criação foi fundamental em tempestades cerebrais que chegaram a idealizar a tocha como uma experiência sinestésica, incluindo sentidos como olfato e até paladar, ideias que ficaram apenas no papel, em folhas de cartolinas coladas na parede com a expressão de sentidos através de matérias-primas brasileiras como o café e o mato. Em algumas dessas folhas ainda estão riscados os votos que tiveram cada uma das ideias apresentadas.

– Sentava todo mundo do projeto, discutia as ideias, as rotas que podiam seguir e, quando não havia consenso, fazíamos uma votação para tentar entender o que cada um via. A opinião de cada um foi bastante importante para direcionar o resultado final. Há algumas marcações de votação: se era fosco, polido, se era branco, cinza ou prateado. Às vezes, tínhamos que trabalhar melhor dois caminhos para ver se desempatava – conta Chelles.

Empresa espanhola será responsável pelo fabrico

No antigo sobrado, há uma oficina com serra, lixadeira, uma estufa de pintura e uma máquina CNC onde usinaram em isopor as partes da tocha para testes. O fabrico, entretanto, será de responsabilidade da empresa espanhola Recam Làser S.L., a mesma envolvida na confecção da tocha das Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Participaram do edital de gestão de produção 11 empresas de vários países, todas com alguma experiência olímpica.

– No final, escolhemos a melhor proposta, não apenas em termos comerciais, mas técnicos também. Tem que ser uma combinação de qualidade e preço – diz Beth Lula, diretora de Marketing do Comitê Organizador do Rio 2016, sem revelar os valores.

Apesar de os detalhes do fabrico ainda não estarem completamente definidos, a tocha vai ser predominantemente branca, feita de alumínio reciclado. As partes coloridas serão de resina , com um processo de pintura com verniz de “baixíssimo impacto ambiental”, segundo Chelles. A preocupação ecológica também estará no combustível usado para produzir a chama. De acordo com o Comitê, a pegada de carbono do revezamento será reposta.

Muita gente confunde, mas o revezamento não é da tocha, e sim da chama. Serão 12 mil exemplares do modelo concebido pelo escritório, que serão dados ou vendidos aos condutores. Eles serão escolhidos pelos patrocinadores, como o Bradesco, que anuncia, nesta sexta-feira, a sua campanha da escolha dos clientes que conduzirão a Tocha Olímpica, e pelo Comitê Organizador, que elegerá pessoas com histórias de superação.

Como a chama percorrerá todos os estados brasileiros e mais de 500 cidades de diferentes climas, o escritório paulista trabalha em conjunto com o espanhol desde o início do ano para que o fogo jamais se apague nas mais diferentes condições climáticas, seja numa ventania ou num temporal. Eles fazem reuniões por conference call, e os brasileiros já estiveram em Barcelona em maio, e os espanhóis também já vieram aqui. Ainda não está definido se a tocha passará por algum percurso subaquático.

– O desenvolvimento da chama é o mais importante. A chama que você desenvolve para Barcelona não é a mesma para o Brasil. Você muda as condições atmosféricas. No Brasil, ela vai passar por várias lugares frios, quentes, úmidos e secos. É bem desafiador para que a chama se comporte da mesma forma em vários ambientes de clima diferente. Há uma série de testes feitos para simular as condições extremas da chama. Esses testes estressam bem o projeto para dar certeza de que não vai dar problema. As condições já são feitas pensando no pior que pode acontecer durante o revezamento. Queremos que o combustível não seja tóxico nem danoso. Existe uma preocupação da qualidade da chama – detalha Chelles.

O engenheiro e designer explica que a tocha é formada por vários segmentos com um eixo central por onde passa o gás que alimenta o queimador. Eles são montados nesse eixo e há um sistema mecânico onde se faz a abertura. Na hora em que ela libera a válvula de gás na parte de baixo, esse mecanismo é acionado, e a tocha se abre através do movimento de uma mola e um pistão de ar, que amortecem a abertura lentamente, aumentando o tamanho de 63,5cm para 69cm:

– Na hora em que é feita essa abertura para receber a chama de outra tocha, os segmentos se abrem e revela a essência de brasilidade. Estamos nos esforçando para que ela seja o mais leve possível para que a experiência de carregar a tocha seja boa. Houve uma série de ajustes em cima para dar a ideia de que as partes estão flutuando: a decisão de qual relevo íamos usar, de como iam ser as ondas e a questão da sensorialidade. Fizemos vários estudos em isopor para tentar o melhor formato e colocamos o peso mais concentrado na região em que se pega a tocha, para ficar mais confortável. Fizemos alguns testes, corremos com ela para ver se era confortável até chegar numa versão próxima do que era ideal para apresentar para Rio 2016.

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