Esportes

Hit dos argentinos na Copa do Mundo vira tema acadêmico

Redação DM

Publicado em 5 de outubro de 2015 às 08:37 | Atualizado há 11 anos

A cada competição em que estão Brasil e Argentina, a rivalidade se renova. Não é diferente nas Eliminatórias para a Copa de 2018, que, finalmente, colocará as duas seleções frente a frente em um jogo oficial, o que não aconteceu na Copa América do Chile ou no Mundial do Brasil, quando a presença vibrante e, para muitos, perturbadora de nossos vizinhos reaqueceu uma velha rixa. As seleções só se enfrentarão na terceira rodada, uma sexta-feira 13 de novembro, no Monumental de Nuñez, mas a disputa já começou.

– O velho ditado diz que os argentinos odeiam amar o Brasil e os brasileiros amam odiar os argentinos. Os países têm uma relação de muita rivalidade no esporte e na política, mas também uma grande sedução cultural e musical. Os argentinos não vêm aqui só por ser perto, pelo preço ou pela natureza, é por amar o Brasil – acredita o sociólogo argentino Pablo Alabarces, com vasta produção ligada ao futebol.

O acadêmico esteve no Brasil há uma semana, quando ministrou uma palestra a pós-doutorandos de Comunicação da UFF com o tema: “Brasil, decíme qué se siente: futebol, música, narcisismo e Estado na Copa de 2014.” Adaptação de “Bad moon rising”, da banda Creedence Clearwater Revival, o hit argentino não agrada a Alabarces.

– Essa rivalidade (durante a Copa) de uma maneira tão grosseira me perturbou, mas temos que concordar, quando a Alemanha fez o terceiro gol no Brasil, começaram-se a ouvir buzinas em Buenos Aires. Quando fez o sétimo, então… – recorda Alabarces.

Autor de “A pergunta de seus olhos”, livro no qual o vencedor do Oscar “O segredo dos seus olhos” se baseou, o escritor Eduardo Sacheri vai na mesma linha. Amante de futebol, ele é roteirista da animação “Um time show de bola”.

– Esse canto foi indicativo de uma atitude soberba dos argentinos. Na sua casa, eu não posso cantar essa música todas as horas e em todos os lados, não estarei respeitando a sua hospitalidade. Por sorte, não aconteceu nada grave, mas, em vários momentos, esteve próximo. Me deu muita vergonha – confessa Sacheri, que esteve no Rio durante a Bienal do Livro, no mês passado. – E resultou em uma música ainda pior na Copa América, contra os chilenos, quando nem se falava de futebol. Se limitava a ventilar xenofobia e ressentimentos.

A música lembrava a vitória argentina na Copa de 90, falava em uma freguesia brasileira no confronto e, para finalizar, dizia que Maradona é melhor do que o Pelé. Para o jornalista e escritor argentino Martín Caparrós, trata-se de uma “patética” versão da história.

– Foi uma “argentinada” maltratar os anfitriões. É uma triste fábula do argentino, que pretende ser alguma coisa melhor do que o Brasil – diz Caparrós. – A história é longa, mas, em boa parte do século XX, olhou-se para o Brasil com se fôssemos superiores, mais educados, civilizados, desenvolvidos e prósperos. Até que começamos a descobrir que não era assim, e é cada vez menos. Somos um sócio menor do Brasil. O futebol foi um dos últimos refúgios dessa patética ideia.

Curiosamente, a música feita para tirar onda dos brasileiros acabou abraçada por várias torcidas do país.

– No Brasil, meus colegas falam de “argentinização” das torcidas. Para mim, é um espanto. O que seduz é o mais negativo – avalia Alabarces.

– O que se copia é a ideia da agonia desgarrada que conduz à violência. A ideia é de paixão incondicional, mas há algo incondicional, sem limite? Tudo tem limite. Por exemplo, as regulações sociais que dizem que não se pode matar.

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