Messi, ídolo calado, joga contra Inglaterra clássico que vai além dos campos
Redação Online
Publicado em 14 de julho de 2026 às 20:38 | Atualizado há 20 minutos
Gênio: camisa 10 encara English Team pela primeira vez - Foto: Fifa
Marcus Vinícius Beck
Embora tenha vestido a camisa alviceleste em 204 jogos, Lionel Messi jamais enfrentou a Inglaterra. Quer dizer, isso foi até esta quarta-feira (15), quando a Argentina, às 16h, decide a 2ª semifinal da Copa do Mundo, em Atlanta, nos Estados Unidos, contra os tais Três Leões.
O time argentino, apesar das adversidades, não se afoba no Mundial. Controla o ritmo, faz a bola andar no meio e, de repente, Messi aniquila a sua presa. Assim aconteceu nas oitavas de final, no Mercedes-Benz Stadium, com uma virada heroica e triunfal por 3 a 2 sobre o Egito.
A rivalidade, nesta quarta, ganha mais uma página. Argentinos e ingleses criaram epopeias, como na Copa de 1966 — vitória europeia, nas quartas, por 1 a 0. Aquele 23 de julho ainda passou à história pelo dramalhão que se viu na duvidosa expulsão do meia Antonio Rattín.
Campeã daquela edição, a Inglaterra amarga maus resultados desde 66. Fora de campo, em um episódio ainda vivo entre os argentinos, o país guerreou no Atlântico Sul pela posse das Ilhas Malvinas, a 500 km da costa patagônica. Foi um massacre: 649 hermanos mortos.
A primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, encarava níveis altos de impopularidade. Por isso, a dama de ferro ordenou às suas tropas uma ação militar. O conflito, deflagrado em 1982, durou 74 dias. Até hoje, o Reino Unido controla as Malvinas à revelia dos argentinos.
“Quando chegamos à Espanha, vimos todos aqueles garotos argentinos destroçados pela Guerra das Malvinas, uma carnificina de pernas e braços, enquanto militares filhos da puta nos diziam que estávamos ganhando a guerra”, disse Diego Armando Maradona, em 2000.
Algoz e vítima
Na Copa de 1986, o estádio Azteca recebeu a inesquecível peleja entre o algoz e a vítima. Maradona, um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, não possui outra alternativa senão pular e esticar o braço. Suspenso no ar, as pernas ajudaram-no a decolar ainda mais.
O relógio marca 6 minutos do 2º tempo. Chegará antes de Shilton? Se o pegarem, faz parte e, bem, Maradona pelo menos tentou. O goleiro inglês está em desvantagem. Fitando a pelota, ele projeta um choque pelo alto com o argentino, que vai dividir sem medir sua força.
Eis que Shilton pensa. Escolhe socá-la, de modo a afastar logo o perigo a lhe rondar a meta. Simples, só necessita afastá-la, não é difícil. Dizem que, uma vez fora do gol, a área é do camisa 1. Mas, lá em cima, Maradona ajeita o corpo. Vai cabecear? Não, ele fecha o punho.
El Pibe de Oro pula com os dois braços erguidos. Ao mesmo tempo, ele olha para o árbitro e, então, começa a correr em direção à linha lateral. Na “Radio Argentina”, o narrador Víctor Hugo Morales, que é uruguaio, solta um grito na cabine: “Gooooool! Gooooool argentino!”.
Em seguida, Hugo Morales ainda constata: “O bandeirinha não viu, o árbitro deu uma olhadinha, enquanto os ingleses seguem protestando, com toda a razão, de todas as formas.” Essa história foi dissecada por Juan Cabral e Santiago Franco no documentário “El Partido”.
‘La Mano de Dios’ redimiu sociedade após Malvinas

Para os ingleses, “La Mano de Dios” foi, na verdade, o dedo do coisa-ruim. O jornalista Adwaidh Rajan, em reportagem na BBC Sport, classificou a trapaça maradoniana como “infame”. Trata-se de artimanha que, dado o contexto, virou uma forma de revanche.
Carlos Bilardo, treinador da Argentina, afirmou ao El País que a rivalidade com os Três Leões é antiga. “Na escola, nos ensinavam sobre as invasões britânicas [1806-1807] e sobre o que aconteceu quando eles desfilaram pelas ruas — jogamos óleo fervendo neles”, lembrou.
Dez minutos do 2º tempo. Do banco de reservas, Bilardo vê a Argentina vencendo por 1 a 0. Lá vem Cuciuffo, que passa para Enrique. De costas para o gol, Maradona domina uma bola difícil. Hugo Morales, na transmissão, narra: “Marcado por dois. Maradona pisa na pelota.”
Dieguito deixa Beardsley para trás, aí traz a bola junto de sua chuteira, livrando-se de Reid e arrancando a caminho do gol inglês. Maradona está correndo, como uma música do corpo. O camisa 10 apressa-se e chega próximo da área, fitando os zagueiros e até mesmo o goleiro.

‘Soma do talento’
Segundo o jornalista Guillem Balagué, autor da obra “Maradona: De Diego a D10S”, essa jogada “é a soma do talento de Maradona: o domínio da bola, os dribles, as mudanças de direção e o ritmo”. Olha de relance para Valdano. Falta só o goleiro, esse pobre infeliz.
Doze anos depois, Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar na Copa do Mundo. Em 1998, as seleções empataram no mata-mata. David Beckham foi expulso num lance com Diego Simeone, que provocou o cartão vermelho. Nos pênaltis, vitória portenha por 4 a 3.
Beckham assinalou à Fifa o peso daquele cartão. “Aquela expulsão, e tudo o que aconteceu nos anos seguintes, marcou o período mais difícil da minha carreira”, sublinhou o meia, que obteve a sua redenção quatro anos depois, em 2002, no Japão. Os ingleses fizeram 1 a 0.
Nesta quarta, às 16h, Lionel Messi caminha para o seu 205º jogo com a camisa alviceleste. Ele carrega nas costas o óleo fervendo de 1806, a guerra de 1982 e a genialidade minimalista. Será mais do que uma partida de futebol, mesmo que Lionel Scaloni diga o contrário.