Esportes

Times brasileiros nivelados por baixo

Redação DM

Publicado em 10 de novembro de 2015 às 21:48 | Atualizado há 11 anos

Certa vez, em 1965, na saída do Estádio Olímpico Pedro Ludovico – na época ainda o único estádio de Goiânia para a realização dos jogos de futebol (o Serra Dourada viria a ser inaugurado ainda naquele ano), Waldyr Castro Quinta, desde 1963 ex-deputado estadual e já Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, me fez este comentário:

“Dá prazer ser aficionado do futebol. Porque é uma das atividades em que não há desonestidade, os resultados são totalmente isentos de qualquer corrupção. A gente acompanha os jogos com a certeza de que os resultados não estão sujeitos a maquinação alguma.”

Eu, torcedor entusiasta desde os meus 12 anos, concordei inteiramente. Nunca havia sido, na imprensa e entre torcedores, objeto do noticiário da imprensa ou entre os acompanhantes do chamado do esporte bretão (expressão muito usada antigamente) levantada mínima suspeita contra a lisura das disputas futebolísticas.

Na atualidade o quadro é o contrário. Para começar, lembremos o caso de José Maria Marin, ex-presidente da entidade máxima que comanda o futebol brasileiro – a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Está preso nos Estados Unidos, para onde foi extraditado após seis meses de prisão na Suíça. A fim de poder acompanhar o processo que lhe é movido sob o fundamento de prática de grossa corrupção no exercício daquele cargo, numa espécie de prisão domiciliar em luxuosíssimo apartamento do edifício Trump Tower, de propriedade – como está no nome do próprio prédio, de um dos homens mais ricos dos Estados Unidos e hoje candidato à Presidência da República surpreendentemente bem situado nas pesquisas – foi condenado a uma fiança de 57 milhões de dólares. Apesar do vulto da obrigação – cerca de 190 milhões em reais, José Maria Marin a aceitou e vai pagá-la – se é que ainda não pagou.

Basta esse fato para evidenciar a fortuna de que dispõe o ex-presidente da CBF. É de se perguntar então a propósito: como Marin acumulou sua fortuna? Pelo que tem sido dado tomar conhecimento por meio da imensidão de notícias que hoje em dia desmoralizam o futebol em todos os continentes, as maracutaias, a ambição pelo dinheiro, a quase inacreditável inexistência absoluta de escrúpulos, não só de dirigentes, como também de quase todos os envolvidos em programações de Copas e torneios e em transações de que são principais protagonistas empresários e procuradores dos jogadores profissionais, estão a funcionar a pleno vapor. Até na Alemanha, como mostrou a televisão anteontem, o presidente da entidade que dirige o futebol teve de renunciar ao cargo sob a pressão de fatos apurados reveladores da sua desonestidade. Registre-se que esse fato constitui-se apenas em uma adição aos escabrosos investigados e confirmados em Zurique. Logo na Suíça, modelo perante o mundo de austeridade.

Enquanto acontece toda essa imoralidade nas cúpulas brasileira, latino-americana, europeia, africana e asiática, o torcedor comum, como se nada disso estivesse acontecendo, continua a ter no futebol o seu maior derivativo e até mesmo a sua maior paixão. Os campeonatos nacionais e regionais levam para os estádios milhares de torcedores, que vibram e brigam como se nada estivesse a acontecer para subtrair a autenticidade das competições, indiferentes à crescente perda de qualidade dos campeonatos. Há um inegável nivelamento por baixo, de tal forma que num certame de 20 clubes como o Campeonato Brasileiro, apenas um pode ser qualificado razoável (mais não excelente ou ótimo), 50% de sofríveis e os demais de medíocres. Uma das provas dessa verdade atualmente chocante é a de que na última Libertadores todos os seis clubes brasileiros se viram desclassificados e de que na derradeira Sul-Americana aconteceu a mesma coisa: não sobrou uma só agremiação brasileira nem mesmo para as semifinais.

 

(Eurico Barbosa é escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feiras)

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