Internacional

Taleban põe grupo terrorista ligado à Al-Qaeda para dar segurança a Cabul

A informação foi confirmada pelo ex-chanceler afegão Abdullah Abdullah, que participa das negociações com os extremistas para formar um novo governo no Afeganistão

diario da manha
Por Cabul

Khalil Haqqani, membro de uma das organizações terroristas mais poderosas do mundo e um dos nomes mais procurados pelos EUA, voltou coberto de glórias ao Afeganistão. A rede Haqqani, vinculada à Al-Qaeda, foi incumbida pelo Taleban de cuidar da segurança da capital, Cabul. A informação foi confirmada pelo ex-chanceler afegão Abdullah Abdullah, que participa das negociações com os extremistas para formar um novo governo no Afeganistão.

Ontem, a maior mesquita de Cabul estava lotada para a oração desta sexta-feira quando um grupo de combatentes do Taleban entrou. Eram membros das forças especiais que faziam a escolta de Haqqani. Eles se vestiam como os comandos das Forças Armadas do agora deposto governo afegão, com uniformes e capacetes, óculos de visão noturna, e se portavam como profissionais.

O grupo abriu espaço para Haqqani na primeira fila, onde ele observou a cerimônia religiosa com um fuzil M4 de fabricação americana ao seu lado. Depois que o sermão terminou, Haqqani levantou-se para se dirigir aos presentes. “Nossa primeira prioridade para o Afeganistão é a segurança”, disse. “Se não há segurança, não há vida. Daremos segurança, depois daremos economia, comércio, educação para homens e mulheres. Não haverá discriminação.” Foi ovacionado.

A cena de ontem é um lembrete de que o Taleban conta com grande apoio em muitos lugares do Afeganistão, embora seja difícil saber o tamanho desse suporte e quanto tempo ele deve durar.

Haqqani ficou exultante com a recepção calorosa. Na longa história do envolvimento dos EUA no Afeganistão, poucos grupos desempenharam um papel tão importante quanto a rede Haqqani. Fundada pelo célebre comandante mujahedin Jalaluddin Haqqani, no final dos anos 70, ela lutou contra a ocupação soviética, de 1979 a 1989, e se uniu ao Taleban, nos anos 90.

Os EUA suspeitam que a rede Haqqani tenha ajudado na fuga de Osama bin Laden de Tora Bora, em 2001. Khalil Haqqani é irmão e tio do vice-líder do Taleban, Sirajuddin Haqqani. Após a invasão americana, o clã Haqqani executou operações que complicaram a estabilização do Afeganistão. Serviços de inteligência ocidentais estimam que o grupo tenha cerca de 10 mil combatentes

Atualmente, Khalil Haqqani integra as listas de terroristas dos EUA e das Nações Unidas. O Departamento do Tesouro dos EUA oferece uma recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem à sua captura.

Após o sermão de ontem, assim que a multidão diminuiu, Haqqani pediu para falar com um fotógrafo do New York Times que trabalha em Cabul. Ele disse que os jornalistas estariam seguros agora que o país estava em paz e garantiu que as mulheres também seriam protegidas. “Temos boas intenções”, afirmou.

Segundo um oficial da inteligência britânica ouvido sob condição de anonimato, Haqqani e a Al-Qaeda têm uma longa história juntos e “é altamente improvável que eles cortem os laços”.

O ex-diplomata britânico Ivor Roberts disse à Voz da America que designar membros da rede Haqqani para supervisionar a segurança de Cabul é como “colocar uma raposa para tomar conta de um galinheiro”. Roberts, analista do Counter Extremism Project, que pesquisa grupos extremistas, ficou surpreso com a notícia.

“Do ponto de vista de relações públicas, achei que o Taleban seria mais esperto. Em vez disso, eles estão apresentando os piores elementos de sua coalizão e enviam um sinal terrível para mulheres, meninas e sociedade civil.”

No domingo, questionado sobre um possível ressurgimento da Al-Qaeda no Afeganistão, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que seria do “interesse do próprio” Taleban não abrigar nenhum grupo terrorista que ameace prejudicar o Ocidente “Eles sabem o que aconteceu da última vez que deram proteção a um grupo terrorista que atacou os EUA. Não é do interesse deles permitir uma repetição disso”, disse Blinken ao programa Meet the Press, da TV NBC. (Com agências internacionais)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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