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Índia precisa criar 7,8 milhões de empregos anuais para jovens

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 10 de outubro de 2026 às 08:14 | Atualizado há 45 minutos

A Índia enfrenta o desafio de gerar empregos e qualificar milhões de jovens diante do crescimento da população em idade produtiva | Foto:  Folhapress
A Índia enfrenta o desafio de gerar empregos e qualificar milhões de jovens diante do crescimento da população em idade produtiva | Foto: Folhapress

Nande Kumar não sabe o que é folgar. De segunda a sexta-feira, passa o dia enfurnado em uma das milhares de baias de uma multinacional de serviços financeiros, onde trabalha há 11 anos. Nos sábados e domingos, troca o escritório pelo volante e vira motorista de Uber no trânsito caótico de Nova Déli, onde buzinas parecem ser usadas até para afastar mosquitos.

Aos 32 anos, casado e pai de dois filhos, Kumar diz que seu descanso virou sinônimo de desperdício, porque precisa complementar a renda. “Déli tem muita oportunidade para ganhar dinheiro e eu tenho de aproveitar, já que meu trabalho semanal não fecha a conta.”

A labuta diária de Nande Kumar ajuda a traçar o cenário daquele que é hoje um dos maiores desafios da Índia. O país que nos últimos anos se tornou símbolo mundial de tecnologia e de serviços à distância precisa, imediatamente, encontrar trabalho e renda para acomodar a maior população jovem do planeta.

A Índia diante do desafio demográfico

É gente que não acaba mais. A Índia é dona de um território que equivale a apenas 38% da dimensão do Brasil. Dentro de suas fronteiras, porém, habita uma multidão de quase 1,5 bilhão de pessoas, praticamente sete vezes a população brasileira.

Nesse mar de indianos estão cerca de 370 milhões de jovens com idade entre 15 e 29 anos, uma população equivalente a quase dois Brasis.

Por décadas, esses números foram apresentados como uma vantagem indiana. Enquanto China, Japão e países europeus envelhecem mais rápido, com menos gente em fase produtiva e mais aposentadoria para pagar, a Índia tem centenas de milhões de pessoas em plena capacidade de trabalho.

A isso deu-se o nome de “dividendo demográfico”, um trunfo humano para acelerar o crescimento econômico do país. Noves fora, porém, a Índia sabe que ter uma nação mais jovem não é solução para tudo. Sem qualificação e treinamento em larga escala, além da criação de milhares de empresas, esse bônus vira problema.

O Ministério das Finanças da Índia chamou a responsabilidade sobre o assunto e reconhece que seu “principal desafio é lidar com esses números”.

Nas contas do governo, o país precisa criar 7,8 milhões de empregos por ano, e fora da área da agricultura, até 2030, se quiser absorver a massa de trabalhadores que vem aí -além daqueles que precisam trocar a pá e a enxada por atividades mais produtivas.

Para dar uma ideia do que isso significa, o Brasil, que vive uma situação próxima do pleno emprego, criou uma média de 1,6 milhão de vagas de trabalho anuais nos últimos quatro anos.

Economia cresce, mas precisa ampliar a indústria

O desafio fica ainda mais complexo quando se vê que o país que produz ícones globais da tecnologia, como as gigantes Tata e Infosys, ainda tem quase metade de seus trabalhadores tirando seu sustento da agricultura.

É na lavoura que está concentrada 46% da força de trabalho da Índia, apesar de o setor responder por menos de 20% da renda nacional. É justamente essa enorme reserva de mão de obra que o país tenta deslocar gradualmente para indústria e serviços.

De maneira geral, a economia tem respondido à altura do desafio. As tabelas macroeconômicas exibem uma Índia que cresce acima de 7% ao ano e que tem reduzido a pobreza nas últimas décadas. O PIB indiano praticamente dobrou em pouco mais de dez anos, saltando de US$ 2 trilhões em 2014 para US$ 3,9 trilhões em 2025. A renda por habitante avançou 74% no período.

O problema é que só empresas de software não darão conta do recado. A Índia precisa, hoje, construir seu chão de fábrica.

A desigualdade entre homens e mulheres é outra barreira. Embora sejam praticamente metade da população nacional, as mulheres respondem por apenas 30% das 562,1 milhões de pessoas ocupadas no país.

Formação profissional é gargalo para os jovens

Especialistas reconhecem o tamanho do problema. O professor V. Kamakoti, diretor do IIT (Instituto Indiano de Tecnologia) Madras, eleita a instituição de ensino número um da Índia por dez anos consecutivos, diz que o país precisa ir além das linhas de código.

“Até o momento, sim, somos uma superpotência de software. Temos engenheiros excelentes. Mas é necessário fechar toda a cadeia de manufatura aqui com semicondutores, precisamos ter fábricas”, diz Kamakoti.

O acesso à educação de ponta ainda é um funil estreito. Anualmente, cerca de 1,5 milhão de jovens disputam apenas 20 mil vagas para entrar nos institutos de tecnologia. Quem fica de fora muitas vezes é empurrado para a informalidade ou subemprego por falta de qualificação técnica e de domínio do inglês.

Ciente desse abismo, o IIT Madras criou um programa de bacharelado online focado em tecnologia. Sem vestibular tradicional, o programa já atendeu 50 mil estudantes. “Desses, mais de 10 mil estudantes estão quase na linha da pobreza extrema, mas têm a oportunidade de estudar na instituição número um do país”, diz Kamakoti.

Desemprego juvenil e desigualdade de gênero

O desemprego não é exatamente um pesadelo que tire o sono do primeiro-ministro Narendra Modi. O dado oficial mais recente mostra que a desocupação geral está na casa de 5,1%. O problema é a pressão crescente que se avizinha.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, a falta de trabalho chega a 9,9%. Nas cidades, onde se concentra boa parte das vagas mais disputadas, a situação é mais complicada. O desemprego urbano chega a 13,6% em 2025. Entre as mulheres, alcançou 18,9%.

Esses números não revelam toda a dimensão do desafio. Para ser considerado desempregado, é preciso estar em busca de uma vaga. Uma parcela enorme da juventude indiana, portanto, sequer aparece nesta conta.

Em 2025, mostram os números oficiais da Índia, um em cada quatro indianos de 15 a 29 anos não trabalhava, não estudava e não recebia nenhum treinamento profissional. O corte por gênero expõe uma diferença ainda mais profunda. Entre as jovens indianas, 42% estavam nessa situação.

Esse contingente ainda invisível ganha rosto e voz nas calçadas de Nova Déli. Mohd Sameer, de 18 anos, é o retrato do jovem na porta de entrada do mercado. “Não estou trabalhando agora, não tenho um emprego, mas logo sairei em busca de um lugar e sei que vou conseguir”, diz o rapaz.

Já Satyveer Yadav, de 24 anos, vive a angústia de quem já está no meio da faixa etária considerada mais produtiva, mas ainda procura uma ocupação. “Acho que o futuro vai ser melhor para mim. Eu sei que posso trabalhar duro”, diz ele.

Ter trabalho não significa ter boa ocupação. Uma parcela enorme do mercado indiano continua a ser sustentada por atividades autônomas, pequenos negócios familiares e ocupações informais.

A juventude continuará pressionando o mercado

O futuro mostra uma ligeira queda da natalidade nos próximos anos. Ainda assim, a Índia deverá ter cerca de 345 milhões de jovens em 2036, como projeta o Ministério de Estatística e Implementação de Programas. Não se trata, portanto, de uma onda demográfica passageira. O país de Mahatma Gandhi terá de educar, qualificar e incorporar centenas de milhões de jovens ao trabalho nos próximos anos.

Neste caminho, a língua é peça fundamental do quebra-cabeça. A Índia possui nada menos do que 22 idiomas reconhecidos por sua Constituição, além de centenas de dialetos. O inglês, que é uma herança do período colonial, funcionou como um tipo de ponte entre essas várias Índias e conseguiu projetar parte do trabalhador indiano na economia global. Essa conversão, porém, tem seus limites.

Entre as camadas mais pobres, muitos não falam inglês. Mesmo nas ruas e comércios de grandes cidades como Déli e Chennai, o idioma não é o forte entre boa parte dos locais.

Contrastes entre a prosperidade e a pobreza

As ruas dessas cidades expõem a Índia que cresce acima de 7% por ano, mas que divide a calçada com outra Índia que parece ter parado no tempo, em áreas precárias onde a prosperidade não chegou e que parecem transformar os indicadores oficiais em realidade paralela.

São arranha-céus, empresas de tecnologia e carros de luxo convivendo de perto com ruas onde há falta de redes de esgoto, moradias precárias e uma profusão de trabalho informal, como se vê nas ruelas da “Velha Déli”, o centro histórico da capital.

Nas contas do governo, 248 milhões de pessoas deixaram, entre 2013 e 2023, a situação de pobreza. Ainda assim, o governo estima que cerca de 11% do país, algo próximo de 160 milhões de pessoas, permanecia nessas condições em 2023.

O plano de Narendra Modi é chegar à “pobreza zero” em 20 anos e alcançar a chamada “Viksit Bharat”, ou Índia desenvolvida, em 2047, no centenário de sua independência do domínio britânico.

Para muitos trabalhadores, o futuro ainda está distante

No para-brisa de Nande Kumar, o rapaz que veste a camisa de motorista de aplicativo nos finais de semana para complementar a renda, essas duas décadas planejadas por Modi soam como uma eternidade.

Com uma tosse persistente agravada pela poluição de Nova Déli, Kumar diz que vai manter sua jornada de sete dias por semana até quando puder, para guardar dinheiro e pagar dívidas.

Perguntado sobre um sonho profissional, diz que gostaria de passar um tempo em Nova York. “Gosto de cinema. É um desejo dos tempos de faculdade”.

Antes de ir aos EUA, tem um objetivo mais pragmático, de voltar a viver em sua cidade natal, fora da agitação de Déli. “Lá é muito bonito, tem plantações, frutas, e o clima é limpo. Gosto de trabalhar aqui, mas preciso de ar fresco.” (André Borges/FOLHAPRESS)


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