Papa Leão XIV diz que conflitos no Oriente Médio tensionaram diálogo entre judeus e cristãos
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 12:12 | Atualizado há 45 minutos
Papa Leão XIV durante audiência no Vaticano | Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane
Os conflitos recentes no Oriente Médio afetaram as relações entre judeus e cristãos, mas, segundo o papa Leão XIV, não foram suficientes para interromper o diálogo construído entre as duas comunidades religiosas ao longo das últimas seis décadas.
A avaliação aparece em um novo documento divulgado nesta quarta-feira (16) pelo Vaticano. O texto foi preparado por três órgãos da Santa Sé e aprovado pelo pontífice em referência aos 60 anos de esforços da Igreja Católica para ampliar o diálogo com outras religiões.
O documento reconhece que as diferentes interpretações sobre a violência no Oriente Médio provocaram tensões e dificultaram a comunicação entre judeus e cristãos. Ao mesmo tempo, sustenta que as bases estabelecidas ao longo dos anos continuam preservadas.
A publicação não cita nominalmente nenhum conflito específico da região. A mensagem central é a manutenção dos canais de diálogo mesmo diante de divergências políticas e religiosas.
Vaticano reforça combate ao antissemitismo
Um dos principais pontos do texto é a reafirmação da posição da Igreja contra o antissemitismo. A luta contra o preconceito e a discriminação contra judeus é apresentada como uma responsabilidade compartilhada por judeus e cristãos.
A orientação está ligada à trajetória iniciada com a declaração Nostra Aetate, aprovada pelo Concílio Vaticano II em 1965. O documento é considerado um marco na transformação das relações da Igreja Católica com outras religiões e, particularmente, com o judaísmo.
Ao longo dos 60 anos seguintes, a declaração passou a servir de referência para iniciativas de aproximação, cooperação e diálogo entre comunidades religiosas. Em outubro de 2025, Leão XIV já havia destacado que a Nostra Aetate representa um ponto fundamental na relação entre cristãos e judeus e reafirmado que a Igreja não tolera o antissemitismo.
Islamofobia também é condenada
O novo documento também chama atenção para a necessidade de combater a islamofobia. Segundo o texto, atitudes preconceituosas podem acabar confundindo episódios de violência praticados por grupos extremistas com a realidade cotidiana das populações muçulmanas.
A distinção é apresentada como necessária para evitar que atos de determinados grupos sejam utilizados para justificar hostilidade contra comunidades inteiras.
A posição segue a defesa mais ampla da Igreja de que o diálogo inter-religioso deve preservar a dignidade das pessoas independentemente de sua religião. Em sua reflexão sobre os 60 anos da Nostra Aetate, Leão XIV afirmou que o documento rejeita discriminação e perseguição motivadas por religião e defendeu a cooperação entre diferentes tradições religiosas.
Guerra colocou relações à prova
O posicionamento do papa ocorre em um cenário no qual os conflitos do Oriente Médio vêm repercutindo também nas relações entre comunidades religiosas. De acordo com a mensagem divulgada pelo Vaticano, alguns canais de comunicação ficaram tensionados pelas diferentes posições diante da violência.
Ainda assim, a avaliação apresentada por Leão XIV é de que os fundamentos construídos desde 1965 continuam firmes e podem servir de base para a continuidade das conversas.
A ideia de preservar o diálogo mesmo em períodos de crise também esteve presente em manifestações anteriores do pontífice. Em 2025, ao falar sobre a Nostra Aetate, Leão XIV afirmou que dificuldades e conflitos não impediram a continuidade do relacionamento entre diferentes tradições religiosas.
Um legado iniciado em 1965
A Nostra Aetate, promulgada em 28 de outubro de 1965 durante o Concílio Vaticano II, abriu uma nova etapa nas relações da Igreja Católica com religiões não cristãs. O documento reconheceu elementos de verdade e santidade presentes em outras tradições e estimulou uma postura baseada no encontro, no respeito e na cooperação.
Para Leão XIV, seis décadas depois, esse legado continua atual. O Vaticano apresenta o diálogo inter-religioso não apenas como uma ferramenta diplomática, mas como um caminho para enfrentar preconceitos, promover a convivência e buscar pontos de cooperação em meio às diferenças.
Nesse contexto, a nova mensagem procura preservar uma ponte entre comunidades religiosas justamente em um momento em que conflitos políticos e militares ameaçam ampliar divisões já existentes.
