Internacional

Relatório aponta que governo da Hungria teria vazado dados da UE para Moscou

Giovanna Gonçalves - Estágio DM

Publicado em 23 de março de 2026 às 16:52 | Atualizado há 4 meses

Denúncia de vazamento à Rússia pressiona Orbán, primeiro-ministro da Hungria, antes de eleição decisiva | Foto: Alexander Kazakov, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Denúncia de vazamento à Rússia pressiona Orbán, primeiro-ministro da Hungria, antes de eleição decisiva | Foto: Alexander Kazakov, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

A três semanas de uma eleição com potencial para tirá-lo do poder na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán é acusado de repassar informações da União Europeia à Rússia. A revelação, feita pelo jornal americano The Washington Post, ocorre em meio a um momento delicado nas relações entre Budapeste e Bruxelas.

Acusações

Segundo reportagem publicada no sábado (21), Péter Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria, há anos repassaria ao seu homólogo russo, Sergei Lavrov, informações obtidas em reuniões do Conselho Europeu. De acordo com um integrante de um serviço de inteligência, não identificado, Szijjártó mantinha contato frequente com Lavrov, chegando a telefonar durante intervalos dos encontros, que reúnem representantes dos 27 países-membros do bloco.

O alinhamento de Budapeste com Moscou não é novidade. Registros oficiais mostram que o ministro esteve 16 vezes na Rússia desde a invasão da Ucrânia, em 2022. Na mais recente, em 4 de março, encontrou-se com Vladimir Putin. Szijjártó reagiu no X após a publicação.

“Fake news, como sempre. Vocês estão espalhando mentiras para ajudar o Partido Tisza a instalar um governo fantoche pró-guerra na Hungria”, escreveu o ministro, em referência ao principal adversário do grupo de Orbán nas eleições parlamentares de 12 de abril.

Eleição

Segundo as últimas pesquisas, o partido de Péter Magyar tem 48% de apoio, contra 39% do Fidesz, ou União Cívica Húngara, legenda de Orbán. No poder desde 2010, o premiê é acusado por críticos de enfraquecer instituições e a imprensa, sendo frequentemente associado ao avanço do autoritarismo conservador na Europa.

No episódio mais recente de tensão, na semana passada, Orbán usou o poder de veto para barrar um empréstimo de € 90 bilhões à Ucrânia. Em queda nas pesquisas, transformou um atrito com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em questão de segurança nacional, envolvendo a manutenção, em território ucraniano, de um gasoduto russo que abastece a Hungria e foi afetado pela guerra.

Daí a referência a um “governo fantoche pró-guerra” na postagem de Szijjártó. Em materiais de campanha, Zelensky e Ursula von der Leyen são alvos frequentes. Ainda assim, Bruxelas e parte da oposição têm adotado cautela nas críticas.

A estratégia busca evitar alimentar o discurso nacionalista explorado pelo Fidesz para tentar reverter a desvantagem nas pesquisas. Isso explica as reações moderadas ao veto recente, que, em outros momentos, já levaram a pedidos de sanções contra a Hungria e mudanças no processo decisório europeu, como sugerido pelo alemão Friedrich Merz em 2025.

No fim de semana, um dos poucos líderes a comentar a reportagem foi o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, crítico frequente de Orbán. “Já tínhamos nossas suspeitas sobre isso há muito tempo”, escreveu no X. Em meio à divisão política interna, o presidente polonês Karol Nawrocki está em Budapeste nesta segunda-feira (23) para participar da campanha do aliado conservador.

Apoios

Orbán também tem recebido apoio de aliados internacionais. No sábado, o presidente dos EUA Donald Trump declarou apoio ao húngaro em vídeo. No mês passado, o secretário de Estado americano Marco Rubio afirmou, durante visita a Budapeste, que o sucesso de Orbán representaria um sucesso para os Estados Unidos. Outro nome cotado para visitar o país é o vice-presidente J. D. Vance.

Citado como referência no discurso conservador internacional, Orbán enfrenta desgaste nas pesquisas principalmente por questões econômicas. Magyar, ex-aliado, adotou a bandeira anticorrupção, que reforça críticas à relação do premiê com Putin. A dependência do gás russo, usada como argumento no debate europeu, seria, segundo denúncias, resultado de interesses de pessoas próximas ao governo.

Também há registros de atuação russa no cenário político húngaro. Frequentemente acusado de interferir em eleições estrangeiras, o serviço de inteligência russo, desta vez, atuaria para manter Orbán no poder. Segundo o Post, o SVR chegou a sugerir “encenar uma tentativa de assassinato” do premiê como estratégia para influenciar o resultado eleitoral.

Procurada pelo jornal americano, a assessoria de Orbán não respondeu.

(José Henrique Mariante/Folhapress)


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia