Internacional

Trump perde força entre trabalhadores brancos nos EUA

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 7 de novembro de 2026 às 08:52 | Atualizado há 2 horas

Donald Trump enfrenta sinais de desgaste entre setores tradicionais de sua base eleitoral após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos | Foto: Kent Nishimura/AFP
Donald Trump enfrenta sinais de desgaste entre setores tradicionais de sua base eleitoral após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos | Foto: Kent Nishimura/AFP

As recentes eleições de meio de mandato nos Estados Unidos revelaram uma fragmentação na base mais fiel do presidente Donald Trump, a classe trabalhadora branca americana e os homens brancos jovens sem ensino superior.

Ainda que falar em uma perda desse pilar eleitoral dos republicanos seja, no mínimo, precipitado, o resultado das urnas nas chamadas midterms mostrou que também nesses setores até aqui tão aliados ao movimento trumpista há insatisfação com as políticas de Trump 2.0.

Nos votos para a Câmara, na qual os democratas conseguiram maioria de pelo menos 253 cadeiras em um total de 435, a base fiel de Trump constituiu o único grupo demográfico que destinou mais votos aos republicanos do que aos democratas. Ainda assim, foram menos votos do que em 2024, quando Trump se elegeu.

A média de todo o eleitorado mostra uma migração de 15 pontos percentuais para os democratas, que ficaram no final com 56% dos votos. Entre brancos sem ensino superior, ou seja, a classe trabalhadora, houve migração de 14 pontos para os democratas, ainda que republicanos tenham levado 59% do apoio.

Entre homens brancos, ainda que 56% tenham apoiado o partido de Trump, houve uma migração de 15 pontos para os democratas. E entre o eleitorado branco de 18 a 29 anos, houve uma migração de 30 pontos para os democratas, que terminaram com 60% do apoio desse subgrupo. Os dados são das projeções do jornal The New York Times.

Ou seja, esses grupos continuam sendo os mais fiéis a Trump e aos republicanos, mas estão se fragmentando. As pesquisas de intenção de voto prévias à ida dos americanos às urnas já mostravam isso. Mas Trump, do Salão Oval da Casa Branca, dizia que essa base lhe asseguraria mais uma vitória.

Economia pressiona a base eleitoral de Trump

Em outubro, às vésperas das eleições, pesquisa do NYT mostrou que 46% da classe trabalhadora branca desaprovava Trump; também entre eles, 53% diziam desaprovar a gestão do presidente na economia. É um cenário bem diferente do observado nas midterms de 2018, quando Trump estava na metade de seu primeiro mandato. À época, 65% desse grupo dizia aprovar como Trump lidava com a economia.

Não fica difícil calcular, assim, que a economia é o fator que tem fragmentado a base do Maga neste momento.

“Isso, sem dúvida, tem a ver com o preço do diesel e o efeito das tarifas comerciais”, diz Jorge Antonio Alvez, professor de ciência política na Universidade da Cidade de Nova York. “Mas mais interessante ainda é que a corrupção foi importante ou crucial para a maioria dos eleitores. Tem um efeito da percepção dos benefícios privados para o presidente e sua família que está ajudando a amolecer o apoio dessa base.”

O cenário econômico fala por si. O preço da gasolina está em alta, em grande medida devido à guerra no Irã. O valor médio do galão (cerca de 3,8 litros) saía a US$ 2,7 em janeiro, antes do começo do conflito no Oriente Médio. Em maio, ultrapassou US$ 4,3. Neste início de novembro, está em quase US$ 4, segundo os dados oficiais. Para o diesel, o salto foi ainda mais expressivo: US$ 3,6 em janeiro, US$ 5,5 em maio e, finalmente, US$ 6,2 agora.

As tarifas impostas para importações por Trump também tiveram peso, especialmente alto para estados como os que fazem parte do antigo Cinturão da Ferrugem, a histórica base da classe trabalhadora. No Michigan, as tarifas custaram US$ 27 bilhões ao estado até aqui; se dividido pelo número de lares, o peso médio para cada família é de US$ 6.480. Os dados são da Fundação Nacional da União dos Contribuintes.

Puxada pelo aumento dos combustíveis, pelas tarifas e, também, pelo boom no investimento em inteligência artificial, a inflação aumentou. O acumulado anual em setembro ficou em 3,7%, após a alta de 3,4% em agosto. Isso corrói o poder de compra das famílias, impacta a área que foi mais mencionada nos EUA nos últimos meses: o custo de vida.

Especialistas apontam cautela na análise dos resultados

Ainda assim, acadêmicos dizem que é preciso cautela ao dimensionar a ruptura dessa base. “A mudança no voto pode ser uma mescla de duas coisas: muitos republicanos insatisfeitos não terem saído para votar e um grupo, mais modesto, ter realmente mudado o seu voto”, diz Ernesto Calvo, professor de política na Universidade de Maryland.

Ou seja, em um país no qual o voto não é obrigatório e no qual boa parte do trabalho dos partidos é convencer o eleitor a sair de casa e ir às urnas, é possível que o apoio democrata tenha crescido porque eleitores não muito animados decidiram se abster, e a amostra de votantes, assim, pode ter sido dominada pelos que decidiram apoiar a oposição.

Calvo afirma, também, que é preciso considerar que muitos eleitores podem aceitar apoiar democratas para o Congresso, mas se mantêm fiéis aos republicanos para a Presidência.

Nesse cenário, a dúvida é para onde essa base migraria. “Isso revela é que a base dura do trumpismo está sim se mostrando mais diversa e menos apegada ao Partido Republicano”, diz Alvez. “O que fica difícil de dizer com certeza é se isso é uma procura de um candidato mais centrista, ou de alguém que represente o movimento de verdade.”

J.D. Vance aparece como possível herdeiro do trumpismo

O vice-presidente J.D vance | Foto: Reprodução

Se a linha escolhida for a segunda, há um nome que se destaca, o do vice-presidente J. D. Vance. Vance se tornou conhecido por um livro que escreveu, “Hillbilly Elegy” (algo como “lamento caipira”), no qual fala justamente sobre uma fatia dos EUA, o antigo Cinturão, afetada pelo desmonte de indústrias, o que empobreceu a população.

É a base de um ressentimento que colaborou para que a classe trabalhadora branca migrasse seu voto dos democratas, como o era nos anos 1970 e 1980, para os republicanos. Vance é um dos nomes mais cotados para potencialmente ser o candidato republicano à Casa Branca em 2028.

E nestas midterms, diferentemente de seu chefe, o vice-presidente ao menos demonstrou publicamente ter entendido o recado das urnas e afirmou que a culpa pela derrocada republicana nas midterms foi a guerra no Irã e a alta no custo de vida.

Questão racial também influencia o apoio a Trump

Além disso, acadêmicos apontam para o fato de que a base de apoio a Trump não esteve ao seu lado somente por promessas econômicas, mas, talvez em até maior medida, por fatores raciais.

“O acesso ao poder em detrimento de outros grupos raciais é a moeda de troca política preferida da população branca de classes mais baixas”, escreveu Saida Grundy, professora de sociologia da Universidade de Boston, em um artigo de opinião sobre o tema no jornal britânico The Guardian em junho.

Assim, é preciso considerar que o realinhamento ideológico, em grande escala pautado em um debate racial, foi o que ajudou na migração de eleitores brancos da classe trabalhadora para o Partido Republicano nas últimas décadas. A economia pode estar ajudando a fragmentar essa base, mas o cenário total é muito mais complexo. (Mayara paixão/FOLHARESS)


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