A GERAÇÃO ANSIOSA QUE QUER CHEGAR SEM APRENDER A CAMINHAR
DM Redação
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 06:28 | Atualizado há 1 hora
By Moacir de Melo
Fui convidado, por uma leitora qualificada, para ouvir e contemplar a beleza da música e letra de um sucesso internacional do momento de nome “Rise Slow” (subir devagar) de Kimo Sounds. De imediato, percebi a semelhança de conceitos e grande convergência com a filosofia de “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira, porquanto ambas inspiram uma reflexão necessária e tão fora de moda em tempos de cultura do imediatismo e de desejos de reconhecimento precoce que contempla o sucesso sem analisar os sacrifícios que o antecederam ou os caminhos percorridos.
Em função disto, . Esquecem que os degraus não existem somente para nos levar ao alto, mas também para nos preparar para a altura. Sim, cada geração enfrenta desafios próprios. Os jovens de agora dispõem de ferramentas extraordinárias para aprender, empreender e transformar realidades. Porém, têm a estranha mania em confundir rapidez com maturidade. Afinal, chegar ao topo é uma conquista; permanecer nele sem perder a própria essência exige sabedoria.
Em O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry nos oferece, no diálogo com a raposa, uma delicada lição: a felicidade do encontro começa antes da chegada. A espera não representa necessariamente um vazio entre o desejo e sua realização. Pode ser parte da própria felicidade. Talvez seja justamente isso que o imediatismo esteja nos roubando: o encantamento da expectativa. Queremos tanto antecipar as conquistas que esquecemos de saborear o caminho. Afinal, o melhor da festa é esperar por ela.
Um exemplo típico é de uma árvore que não cresce apenas para cima. Enquanto seus galhos procuram a luz, suas raízes avançam silenciosamente pela terra. Com o ser humano acontece algo semelhante: conquistas podem surgir rapidamente, mas caráter, equilíbrio, discernimento e sabedoria exigem cultivo e preparo. Afinal, a sabedoria popular já confirmou que ninguém triunfa sem méritos, porém, não permanecerá inédito sem os méritos que precisam ser construídos a longo da caminhada.
Sim, a IA torna essa reflexão ainda mais urgente. Respostas complexas surgem em segundos, a informação tornou-se abundante. Porém, a sabedoria continua dependendo de reflexão, experiência e responsabilidade. Aprender a ouvir, reconhecer erros, enfrentar frustrações e recomeçar são degraus invisíveis. Em Tocando em Frente, encontramos a sensibilidade de quem compreende que viver também significa aprender com o caminho. E a letra de Rise Slow nos permite reconhecer que subir devagar e consciente pode ser mais importante do que simplesmente subir depressa.
Importante: talvez devêssemos perguntar menos aos jovens onde pretendem chegar e mais quem desejam se tornar durante a jornada. Às gerações mais velhas cabe compartilhar experiências sem sufocar a inovação. Às mais novas, compreender que nem todo atalho representa progresso. E talvez a grande lição seja esta: não tenha medo de subir devagar. Tenha medo de chegar tão depressa que não tenha aprendido o valor da própria caminhada. Vale a pena ouvir, comparar e analisar as duas lindas e proféticas letras musicadas: Rise Slow e Tocando em frente.
