Andança: por onde anda o amor?
DM Redação
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 11:58 | Atualizado há 20 minutos
by Alberto Brito/Moacir Melo
E aqui estamos nós no reino da poesia musicada, antiga, com muita conexão em tempos atuais. A questão básica de agora é a mesma que nunca se calou: por onde anda o amor? “Andança”, (1968) poema composto por Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, conduz-nos a um tempo que não havia internet, redes sociais, aplicativos e mensagens instantâneas. Porém, havia estradas, partidas, esperas, saudades e a esperança de encontrar alguém disposto a caminhar junto. Por isso a canção permanece viva mais de meio século depois.
Sim, ela fala de caminhos, mas essencialmente fala de encontros. Sua estrada não é apenas aquela percorrida pelos pés. É a própria vida, com seus desvios, perdas, descobertas e recomeços. Porém, basta ouvir: “Cansei de ser sozinha” e imediatamente chegamos ao século XXI. Afinal, nunca estivemos tão conectados; carregamos centenas de pessoas no bolso; conversamos com quem está do outro lado do mundo, colecionamos seguidores, curtidas e contatos. Mesmo assim, a solidão permanece.
Sim, sim, multiplicamos as possibilidades de encontro sem aprender a permanecer e tornamo-nos uma sociedade marcada pela velocidade, pelo consumo e pela substituição. Neste contexto, até os relacionamentos correm o risco de obedecer à lógica do descartável: enquanto satisfazem, permanecem; quando exigem esforço, diálogo ou paciência, procura-se outra possibilidade. O poema musicado oferece uma imagem diferente. “Por onde for, quero ser seu par,” a frase, induz à continuidade. Não se trata apenas de encontrar alguém, mas de aceitar dividir o caminho.
Porém, dividir o caminho não significa desaparecer dentro do outro. A própria canção responde: “Vou, sou mesmo assim.” E aí uma de suas maiores belezas que o amor não deveria exigir que alguém abandone sua identidade para caber na vida de outra pessoa. Duas pessoas podem caminhar juntas sem que uma precise seguir exatamente as pegadas da outra. Afinal, amar não é possuir. Não é controlar. Tampouco transformar o outro em solução para nossas próprias ausências. Amar exige oferecer presença.
Porém, é preciso compreender que algumas estradas serão difíceis, que haverá discordâncias, mas que permanecer também pode ser uma escolha, não por dependência e sim porque aquela companhia tornou a caminhada mais significativa. “Andança” falava de estrada, lua e rosas. Hoje talvez falasse de telas, mensagens e algoritmos. Mudaram os canais e não mudou o coração humano. Continuamos procurando alguém que responda ao nosso desejo de companhia. A diferença é que, em tempos de tanta pressa, aprendemos a encontrar e desaprendemos de permanecer
Por isso “Andança” permanece ativa entre nós. Depois de tantas tecnologias, escolhas e atalhos, talvez a pergunta essencial continue sendo muito simples: por onde anda aquele amor que não apenas chega, mas que venha caminhar comigo? Ainda que seja à maneira do poeta Vinicius de Morais: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Enquanto isto, curta “Andança” e siga seu curso como andou Beth de Carvalho que emprestou sua voz para a linda e eterna letra e música.
