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Quando o Rio São Francisco era vivo

Alcides Alves da Cruz, meu pai, nasceu em Pandeiros, distrito de Januária, cidade a beira do Rio São Francisco. Nadava bem e nos contava que salvou um banhista de afogamento. Como era exímio mergulhador, pegava pedras no fundo do Rio. Aos 19 anos mudou-se para Montes Claros a 168 km para estudar contabilidade. Casou-se com minha mãe Milena Narciso em 1953, voltaram a sua cidade natal e adiante ficaram em Montes Claros. Seu irmão Ismar, então casado com Margarida Magalhães, continuou morando em Januária.

Devido a ter crescido consumindo peixe, meu pai manteve o costume de tê-lo à mesa. Na minha infância a oferta de peixes era farta, de boa qualidade, mas não era barata. Pelo menos duas vezes por semana, o apreciador de surubim, um peixe de couro, semelhante ao bagre, servia-se dele.

Eram relativamente frequentes os passeios a Januária, quando fazíamos visitas ao meu Tio Ismar e seus filhos: Isnard, Ivson e Ivana. Íamos à praia barranqueira e apreciávamos aquele mar de água doce, avermelhada no período de chuvas. Em estrada de terra e tendo de atravessar de balsa na altura de Pedras de Maria da Cruz – adoro esse nome -, ir à cidade que fica à margem esquerda do Velho Chico era uma gostosa aventura.

No tempo de seca, apareciam bancos de areia no meio do Rio, onde eram construídas choupanas e cultivadas melancias, que meu pai apreciava e sabia ser doce ou não dando um piparote na casca. Era quando os gaiolas podiam encalhar.

No tempo das águas, o Rio, que tinha calha profunda, chegava perto, inundava as partes baixas, mas não ameaçava a cidade, porém, após a enchente de fevereiro de 1979, foram feitos paredões de contenção. Com calha rasa, a chuva forte é certeza de inundação.

Os primos cresceram. Na adolescência ainda aparecíamos por lá. Com filhos adultos, os dois casais se separaram. Pessoas mudaram de cidade e houve um afastamento. Vez por outra, íamos à Januária, Flávio, meu então marido, eu, mãe e Carla, minha irmã. Lá encontrávamos Tia Margarida e seu marido Rui Viana, além dos filhos. Depois, em Belo Horizonte, fazendo residência médica, tive maior proximidade com esses primos de Januária.

O Rio São Francisco, tímido e sem água, estava longe da cidade, a perder de vista, com muita terra entupindo o leito do rio, quase todo coberto por vegetação. Especialistas ambientais dizem que desde a Hidrelétrica de Três Marias, a destruição se acelerou. O que é progresso, não respeita o frágil equilíbrio das margens e suas matas ciliares, berçário da fauna. O desmatamento feroz e afrontoso do cerrado foi um convite para a terra se deslocar nos períodos chuvosos e entupir tudo. Junto a isso, há o despejo do esgoto das cidades.

O Rio das Velhas, seu principal afluente, nasce em Ouro Preto, adiante recebe o Rio Arrudas com esgoto de Belo Horizonte. São despejados dejetos domiciliares e industriais que emporcalham o Rio, em especial a partir de Várzea da Palma, onde deságua.

Itamar Franco era presidente do Brasil em 1994 e, numa ida à Januária, vivíamos a transição do Cruzeiro Real para Real. Estava em cena a URV – Unidade Real de Valor, uma moeda virtual que valia 2.750 Cruzeiros Reais. Todos os valores numéricos desse dinheiro, para ser convertido em Real, precisavam ser divididos por esse número. Dentro da balsa, achamos incrível a capacidade dos meninos de cerca de dez anos, descalços, vestidos apenas de calção, venderem seus pratos de peixes fritos cobertos com um paninho branco, não titubearem em fazer de cabeça a conta certa. E alguns ainda acham que pobre não sabe pensar.

Muito dinheiro foi gasto para despoluir e recuperar o Rio São Francisco que agoniza e perdeu quase toda sua população de peixes, há décadas criados em cativeiro. Algo já foi feito, mas muito precisa acontecer. Raramente se consegue pescar um surubim grande. Os espécimes crescidos e livres são tão raros que viram filme e vê-los mortos causa mal estar. Melhor seria que estivessem vivos no fundo do Rio.

Mesmo sendo fundamental para o nordeste, em princípio parecia estupidez transpor um Rio quase morto. Disseram que a revitalização seria feita simultaneamente. Óbvio que é preciso regular a entrada de esgoto industrial, replantar a vegetação original nas margens e dragar sua calha.

Para o abastecimento da sua população, além do Sistema Verde Grande, Porcos e Pai João, Montes Claros possui a adutora do Rio Pacuí que vem de Coração de Jesus, a 56 km da cidade e que já foi ligada a adutora de 93 km do Sistema São Francisco, a partir de Ibiaí, com quatro estações de bombeamento. A água que nos chega é um respiro em nossa tradicional escassez hídrica.

O que é prático e necessário não deve afastar o bom senso, impossibilitar a vida no sertão e nem destruir lembranças da infância. Longe do litoral, Montes Claros caminha para meio milhão de habitantes. Todos precisam beber. Cuidemos dos nossos mananciais.


		Quando o Rio São Francisco era vivo
Médica e escritora. Mara Narciso

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