Opinião

Carmo Bernardes

Os cem anos do doutor do sertão

diario da manha

Bento Fleury ,Especial para Opinião Pública

Carmo Bernardes foi um dos maiores regionalistas goianos e um dos nomes mais expressivos da literatura sobre o Cerrado. Era um doutor em sertão. Contista, cronista, romancista, crítico de arte. Fez seu nome no cenário das letras de Goiás.

Carmo Bernardes nasceu em Patos de Minas, Estado de Minas Gerais em 1915 e faleceu em Goiânia em 1996, aos 81 anos de idade. Residiu em Formosa onde fez seus estudos, depois em Anápolis onde iniciou sua vida profissional como pedreiro e pintor, assim como redator de jornal. Trabalhou no serviço público. Foi contista, cronista, romancista. Membro da Academia Goiana de Letras. Recebeu prêmios internacionais de Literatura. Obras: Reçaga, Rememórias I e II, Vida mundo, Jurubatuba, Idas e vindas, Ressurreição de um caçador de gatos, Santa Rita, Nunila, Quarto crescente, Memórias do vento, Jângala: Complexo Araguaia, Força da nova. Escreveu muito e tinha amor pelas letras.

Publicou dezenas de livros, estudos, participou de tantos programas sobre o Cerrado. No programa Frutos da Terra, esteve por muitos anos ensinando sobre o mato, o cerrado, o sertão, a culinária e o receituário sertanejo, ao lado de Bariani Ortêncio e Hamilton Carneiro. Publicou textos em todos os jornais goianos, notadamente no Cinco de Março, Diário da Manhã, O Popular e Folha de Goiaz.

Ele escreveu ensinando e foi um doutor no tema sertão e cerrado. Sua obra fala, ensina, tem sabor. Ele conseguiu fazer uma literatura que não está apenas escrita, mas também vivida.

Em seu livro Quarto crescente, Bernardes (1986, p. 50) destaca sobre a macaúba: “O coco da macaúba, nesses nossos terrenos de massapé, tem uma casca pregada, a carne dele é um visgo desenxabido à toa que nem porco gosta, havia apenas a castanha do coco da guariroba, macia e gostosa e o coquinho de jerivá.”

Nesse ainda destaca sobre as poucas frutas do mato crioulo, o lugar de terra boa, fértil e de cultura: “O mato crioulo, de cultura boa, é pobre de frutas. As que existem, a guapeva, um bacuri onde é difícil se encontrar uma fruta sadia, tudo bichada”. (Bernardes, 1986, p. 50). O autor também nesse livro destaca sobre o uso medicinal de certas plantas feias e espinhentas como a jurubeba, o pé de perdiz e a lobeira. Estuda ainda a mutamba, a leiteira, a garapa que apareciam muito em terra boa. Era mesmo a mutamba uma garantia de terra boa e produtiva. Bernardes (1986).

Em muitos dos seus contos, aliás, em todos, está o Cerrado vivo e latente, com suas histórias, dramas, desacertos, conflitos, gente. Há descrições belíssimas, das matas antigas com suas árvores e suas sombras, as queimadas persistentes que a tudo destruíram, os angicos e aroeiras, os bichos e as águas. Tudo destruído. É um texto de denúncia: “Fomos seguidos, o sol pequenininho ainda, movimento colosso de pássaros cantando por toda banda. Hoje não; que está tudo demudado. Tiraram as madeiras do mato e não cuidaram de vedar o fogo, a queimada entrou anos seguidos, matou rebrotos, virou tudo um carrascal. Mas naquele tempo, a empena da serra do lado do nascente era do angical topado e arueirama fechada, fresco por baixo, de forma que agosto para setembro, aquilo virava açoito de tudo quantoera bicho existente naquele meio mundo. Acho que por conta do refrigério do mato e devido a uma aguinha clara que corria lá, por uma grota abaixo, permanente em qualquer rigorosidade de verão. (Bernardes, 1997, p. 151).”

Ambientalista e defensor do Cerrado e de nossas riquezas naturais, sua obra está voltada para a evocação a terra, ao chão. Em seu livro Força da nova, com temática telúrica, Bernardes (1982, p. 102), destaca sobre os pindaibais, veredas da região do Planalto Central, os atoleiros dos brejos, as madeiras das veredas, ilhas de verdura na imensidão planaltina.

Relata sobre as poucas árvores nessa região, geralmente entrelaçada por um emaranhado de raízes obscuras e profundas: “Aquelas veredas de mato alto dos campos de Formosa e Mestre d’Alma onde hoje é Brasília, quase todas são embrejadas. De longe a gente conhece quando a vereda é de tremedal, pela qualidade das madeiras que formam aqueles matos. Se o mato é de pindaibal, landi, fruta-de-urubu, é garantido que ali é um pantanal. Não é um brejo que atola, conforme dá de se pensar; a novidade que o pessoal moderno ainda não tirou tempo para observar, é que a vegetação não é cerrada de fora a fora no mato, como a gente julga que seja espiando cá de fora. O terreno é tudo retalhado de poços comunicantes, nesgas de águas negras, de profundidade sem fim, com as árvores compridas e linheiras ocupando as ilhas.”

Nesta mesma obra, ainda relata sobre as frutas do mato, destacando-as pelas qualidades e gostos. Assim, Bernardes (1982, p. 101) classifica alguns frutos do mato, a mangaba e um coqueirinho minúsculo, difícil de encontrar, chamado licuri: “A estrada passava bem abaixo dali, lembro de ver a certidão dela pelos escalavrados lançantes acima do campo, por onde cheguei a andar panhando fruta de magabacom minha avó Carolina, e que até uma vez ela achou uns coquinhos. Disse que chamava licuri aquela qualidade de coqueirinhos do tamanho de um caroço de milho, o cacho é apinhado, parecendo mesmo uma espiga, e só vendo o quanto cheira e é docezinho, bom de chupar.”

Também nesta obra emblemática descreve a carobinha do campo e seu uso como depurativo do sangue e outras perrengueiras: “E este ramo como se chama mestre? Ah, esse, doutor, é a carobinha do campo, mezinha especial como depurativo e nas perrenguices do fígado.” (Bernardes, 1982, p. 53). Continua a evocar nesse livro de contos sobre a quaresminha, planta do mato, com suas flores roxas: “As águas maiores, sempre verdes, uma paisagem única ao longo das distâncias, em qualquer sentido em que se lance as vistas. Até canto dos pássaros na beira dos brejos, ondeflorescem quaresminhas e a marcela cheirosa, tem a mesma plangência.” (Bernardes, 1982, p. 138).

Em sua obra Rememórias, misto de contos e crônicas, Bernardes (1968, p. 244) destaca sobre o pau d’arco roxo, nas memórias da infância e seu uso medicinal na época: “Agora está numa infância enorme é o pau d’arco roxo. Quem sou eu para intrometer! Só uma coisa posso dizer e provar: desde que me entendo por gente sei que o cerne do ipê roxo cura mal de garganta, pereba, sarna e para matar piolho de animal e gente é sem parelha.”

Ainda nesta mesma obra, ressalta sobre o fruto do pequi: “A castanha do pequi é mais fraca, meio enjoada de separar devido os espinhos. Essa daí é boa com rapadura. Aprendi a fazer uso dessas comidas selvagens desde o tempo de muito criança ainda, tempo de meu avô.” (Bernardes, 1968, p. 82).

Poeticamente, na mesma obra, anota sobre as plantas do Cerrado: “Sei que em muitos pontos a terra era branca e todas as vertentes eram de águas límpidas de doer. Gabirobas, araticum, cajuí e curriola em abundância. Apenas não era tempo de frutas, sol amarelo e doce pela manhã. Só viçavam, indiferentes à canícula perversa, a gabirobeira rasteira e o Angelim mata barata.” (Bernardes, 1968, p. 179).

Carmo Bernardes também foi um talento eclético na literatura, como romancista, contista, cronista, memorialista, poeta, contador de causos. O seu tema está no Cerrado, nas matas, nos rios, na natureza enfim. Ele foi o Doutor do Sertão.

O seu mais reconhecido romance e o mais telúrico foi Jurubatuba, publicado na década de 1970, revestiu-se de grande beleza poética e de expressividade regional. Nele, em várias passagens, há descrições sobre o Cerrado.

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E em seu romance, como descrição, mostra que no Cerrado, no sertão, nem sempre os próprios sertanejos percebem a beleza ali existente, só os forasteiros percebem, porque o sertanejo é muito machucado pela vida: “Nessas brenhas, a natureza canta, geme e suspira, faz tristeza e alegria, conforme é a disposição da gente. O povo do lugar não percebe, é calejado. Só os chegantes dão fé, enxergam que aqui tudo é estúrdio, é diferente de outros cantos.” (Bernardes, 1974, p. 103).

E poeticamente ainda no romance Bernardes (1974, p. 222) destaca a beleza das plantas nativas do Cerrado, plangentes à luz do sol: “No que a luz do sol nascente começou a derramar-se nos altos e que o nevoeiro fugia mais rápido, eu podia separar, perfeitamente, as mangabeiras das outras árvores. Eram os pés de mangabeiras e os araticunzeiros, verdes mais claros, subiam as ramagens esfalripadas.”

Sobre os cheiros do cerrado, das flores do mato, nesse romance, poetiza: “Flor do mato cheirava muito e era bom ficar enlevado no afinco de saber que espécie de ramo os que embalsamavam aquela serena boca da noite”. (Bernardes, 1974, p. 206).

Ao descrever as madeiras do Cerrado, ainda na narrativa do romance Bernardes (1974, p. 12) evoca sobre o araticum, a sua mania de ser árvore solitária e o uso de sua madeira para o eixo do carro de boi, que não desgastava por ser muxibenta: “Araticum marola, bruto e cabeça de negro, são uma fruta só. O araticunzeiro dá no mais aberto; não é essa planta muito amante de aproximar-se de outras árvores, não lhe agrada ter de disputar ares e claridade na floresta fechada. É árvore de médio porte de casca suberosa, madeira branca de que os carreiros faziam chumaço de carro. Resistindo nas cantadeiras do eixo, resistia bem ao desgaste e não aquecia. Por uma razão que é física deve explicar, a madeira muxibenta atritando na madeira fixa, produz desgaste nem numa, nem noutra.”

E, em todo momento, Bernardes (1974, p. 27) nos descreve o terreno, o lugar, os bichos e as plantas, os terrenos inférteis, tidos por “espraguejados”, dada a esterilidade do mesmo: “Anu-branco, ave não comestível que vive nos pastos, em lugares povoados. Tem porte médio, rabo comprido, pequeno topete, voo rasteiro e anda em bandos. Surge, de vez em quando, nas cidades, onde chega à tarde, pousa nas copas das mangueiras e dos abacateiros e canta um canto plangente, o qual traz nostalgia e saudades do campo. Muitos perfumes silvestres sou capaz de discernir: o da flor da erva-café, da pororoca, mais miúda ainda e nívea; do pacová, do café, da escova-de-macaco. Os terrenos ali eram espraguejados de erva braba, justamente essa erva-café, da folha ressecada, que mata até os cachorros que comem a criação ervada.”

Em muitas passagens do romance, o autor enfatiza certas espécies do cerrado, e o seu uso cotidiano, como a gameleira e a erva-tostão: “Cortaram uns galhos da gameleira ramalhuda da beira da ponte e a erva-tostão que lastrava de fora a fora indumentando o chão, dando bom coarador de roupa, já era muito por menos.” Bernardes (1974, p. 201).

Em outro trecho do romance Bernardes (1972, p. 278) evoca sobre os caminhos, as viagens, a paisagem vista pelo viajante, os ranchos, a palhada, a lembrança da queimada anterior; o vigor do mato a se refazer, os ranchos perdidos no caminho, os ninhos de animais nesses lugares abandonados: “Atravessei o vau sem lembrar de pescaria. Segui a passos reparando nas beiras, no afinco de escolher uma estrada para torcer e sair da estrada, a ladeira muito escalavrada de certidões de velhas passagens, adiante encontrei um desvio de enxurrada sulcado fundo dando para a direita. Entrei por ele e pouco andei, conheci que ali era um caminho abandonado que afundava mato adentro. Carreador de algum tiração de madeira. Estrada de alguma tapera, seja lá o que for. O mato sujou, sinal de ter sido castigado de fogo num ano passado, e dito e feito: logo descortinou-se na frente o corte de uma palhada velha, com a cerca do vedo ainda em pé, mal conservada.”.

Ainda sobre as viagens do passado, o romancista evoca os buritizais que marcavam qualquer passagem com a sua beleza e seu uso para beber água, o uso da água. Relata os caminhos, as passagens de gado nas planícies e chapadas, os entroncamentos de gado, a terra, a seca, os periquitos, a descrição dos caminhos, a beleza dos campos. Continua a ideia de imensidão sem fim. O Cerrado como algo infinito, inacabável: “Não sabia se iria encontrar outros buritizais, fiz o seguinte: enquanto abeirava aquela vereda bonita, ainda  com os pelos do nariz guardando o bálsamo dos araticuns florados, fui tirando uns brotos viçosos de buriti, determinado a parar mais adiante numa beira de aguada e urdir uma caroça. Cortei uns dez, fiz dois feixes, trelei, pus na garupa. O tempo corria firme, armando chuva só de tarde, às vezes chovia de manga adiante e atrás, e eu ia escapando. Não podia confiar, porque aquela proteção do estio seria dado à passagem da lua. Lua nova, ainda em diadema fino na boca da noite, mas quando passasse para quarto crescente, certo e esperado seria contar com invernia.”

Em seu outro romance Xambioá, paz e guerra, Bernardes (2005, p. 100) também descreve com minúcias o Cerrado, as espécies do campo, os fornos de carvão; fala da “quadra da arranca do Cerrado”, momento de mudança de foco, plantando o braquiarão: “Foi na quadra da arranca do cerrado, aumentar invernada de engorda, plantio de capim braquiária, cortar e amontoar a madeirinha torada do cerradão – muito pau-terra, Cambuí, pau-santo, jacarandazinho-canzileiro. Gente de fora, mestres de fazer forno de carvão, chegam uns quatros, daí uma ruma deles sem família, morando tudo numa tolda que fizeram. Proibido beber e bebiam, há quem possa com gente?”

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Carmo Bernardes e a capa de seu livro A Ressurreição de um caçador de gatos

 

Também em seu outro romance Jângala: Complexo Araguaia, Bernardes (1994, p. 36) descreve os solos dos varjões, as areias, os saibros, a irrigação, a paisagem chã, a vegetação, o capim mimoso dos campos, a área pisoteada, a “pradaria sem fim”, as capivaras,  cobras, terras de cultura e meia cultura, os tipos de vegetação do Cerrado, como a constituí-lo, particularizá-lo: “O solo dos varjões, compreendendo a Ilha do Bananal, divide-se em duas categorias, todas de deposição recente. Uma de areia e saibro, outra de argila maciça, terras cobiçadas pela agricultura de irrigação. Ao contrario das terras altas, essa camada argilosa parece não ser muito rica em alumínio, o que delata a luxúria da vegetação endêmica.”

Ainda com base nesse romance, Bernardes (1994, p. 12) refere-se ao pequi, suas variações de tamanho, cor e sabor e seu valor enquanto alimento para o povo do Cerrado: “Na orla do varjão com o Cerrado floresce o pequizeiro. No cerrado grosso, o pequizeiro aparece com aspecto diferente dos varjões. É fruto menor em grande parte de um caroço único e de forte coloração alaranjada. O pequi do sertão é um alimento substancial.”

Na sequência dessa importante obra, Bernardes (1994, p. 22) reflete sobre as duas espécies de mirindiba, a do mato e a do cerradão: “Tratando-se da região araguaiana, não se pode assegurar, com certeza, se a mirindiba – uma espécie da mata, outra do cerradão – é a mesma classificada nos tratados específicos da matéria. Suas frutas são ceveiros das caças e não carrega todo ano.” Destaca ainda sobre a sucupira: “De vizinhança com o baru, a sucupira está sempre presente. É uma essência vegetal típica dos campos agrestes de terra vermelha e arenosa”. (Bernardes, 1994, 21).

E segue ainda Bernardes (1994, p. 21), nesse belo romance, a descrição de outras plantas no Cerrado, as madeiras de lei que foram retiradas por séculos e usadas nas construções e nas marcenarias, com a fabricação de móveis: “É nesses matos de terra seca que aparecem as madeiras de lei do ecossistema Araguaia. O jatobazeiro é predominante. Depois vem Angelim, também chamado de Angelim pedra. Tem esse nome devido à fibra de maneira ser encaracolada, entremeada de resinas, com a aparência de pedra.”

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Em seu outro romance Perpetinha, um drama nos babaçuais, Bernardes (1991, p. 11), destaca sobre as frutas do mato, apanhadas nas beiras dos caminhos de outrora e nos varjões e brejos do Cerrado: “Outras distrações existem, a não se apanhar as frutas no campo na beira da estrada. O cajuí, o bacupari rasteiro, o puçácroado, murici, araticum da quaresma. No varjão, a pitomba e o oiti e, conforme a temporada, mangaba e cagaita. É fruita demais da conta, nem dá para relacionar uma por uma.”

E continua neste mesmo romance as descrições sobre a mirindiba, árvore do Cerrado: “Jurupa saia a correr os matos e os cerrados à procura de boas esperas. Pequizeiro florado, mirindiba, tamburi derrubando fruta, flor de puçá-croado. Tinha sempre boa espera de erva café, da florzinha vermelha, que mata até com o cheiro.” (Bernardes, 1991, p. 93).

Destaca nessa obra, sobre as mudanças no Cerrado, que vai engrossando pouco a pouco e virando mato fechado: “A mudança de natureza do chão faz-se aos poucos numa transição demorada. Com vagar o cerrado vai engrossando, virando mato. Os coqueiros vão tomando o lugar de outras espécies.” (Bernardes, 1991, P. 12).

No romance Nunila, Bernardes (1989, p. 10) destaca sobre a natureza das plantas do Cerrado conforme o solo, as pedras, o que gera misturas interessantes feitas pela própria natureza: “Cada pedaço deo solo conserva a sua composição geológica original, determinando assim a natureza das plantas de sua cobertura. Que não seja surpresa ao naturalita incauto, topar de chofre com a associação arbitrária de árvores de ipê com emburiçu e pau terra.” Realmente um Doutor do Sertão.

Nesse mesmo romance, descreve o barbatimão: “O fruto é uma fava sem nenhum préstimo e é do barbatimão que os curtidores de couro fazem o infuso para a sua indústria de curtume. De seu licor se cura feridas e perebas.” (Bernardes, 1989, p. 24). E destaca também sobre o muricizeiro nesse romance, em que expõe ser sua cinza usada para polir ouro nos tempos passados. Bernardes (1989).

Ainda nessa obra descreve a destruição do cerrado e o tratar arrancando as árvores desprotegidas que levaram séculos para existirem daquela maneira: “A máquina chega ao pé de um pequizeiro, muito rodudo, cabouca em roda, descobre a raizama. Com duas narigadas que derrubam cascas e galhos secos, a árvore enorme, já carregadinha de botões, geme e tomba desalentada.” (Bernardes, 1989, p. 59).

Telúrico e inspirado, Carmo Bernardes, também na modalidade crônica, foi um exponencial escritor. Dedicou-se por muitos anos como cronista do Jornal O Popular, em Goiâni,a e participou do programa Frutos da Terra, retratando sobre o Cerrado, o folclore, a literatura, os usos e costumes de nossa gente.

Estudioso do Cerrado, em todas as suas produções buscava conhecer o Bioma, reconhecer seu valor e lutar por sua preservação. Foi antes de tudo um ambientalista. Relata o mesmo sobre os remédios do campo e do Cerrado: “Urucum e flor de sabugueiro combatem o defluxo, a tosse seca e o chio dos peitos. Não tem mal que põe pessoa pampa que as mãos e as pernas pintam de branco feito leitoa escaldada? A pois, se o inharé, que uns conhecem por mama-cadela ou fruta de cera, curam.” (Bernardes, 1970, p. 13)

Em suas crônicas, há trechos e trechos em que, ao falar sobre o Cerrado, ensinava: “Açoita cavalo é árvore cujos ramos muxibentos servem de açoite, sem que se quebrem, e cujo cerne é apropriado para fabricar coronhas de espingardas, pois é leve e forte. Tive que cortar para ele uma guaspa de açoita-cavalo e dar-lhe um pé de espora dos meus.” Bernardes (1973, p. 12). Sobre o angá-rosário, também espécie nativa do Cerrado: “Mato de cultura boa é de pouca fruta. Pode reparar: a guapeva, o angá-rosário, nas beiras de rio, o jaracatiá, e mais o quê?” Bernardes (1983, p. 11). Ainda sobre o anil, que é arbusto também chamado anileira, cujos ramos fornecem o anil de tingir roupa: “…e fazia dois feixes morrudos de rama de anil, desse anil da folha miudinha e da semente no feitio de unha-de-gato.” (Bernardes, 1972, p. 15).

Sobre as madeiras, em suas crônicas, Bernardes (1970, p. 13) destaca sobre a aroeira: “E esse dito toco é de aroeira, pau durável que nunca acaba.” Também sobre outras espécies: “O angico, a canela, a sucupira, o óleo, a garapa, a aroeira, etc. são os vegetais mais comuns que entram na composição dessa mata secundária ou mato seco.” Bernardes (1983, p. 4). Também sobre as frutinhas dos campos, como a azedinha-do-campo fruta silvestre, conceituada em seu livro Reçaga: “O cerrado em redor era quase que só de mangabeiras, panhei e pus na boca para mascar uma folha viçosa de azedinha-do-campo, que também era muita ali.” (Bernardes, 1974, p. 16).

Continua ainda o cronista a revisar a importância e beleza do Cerrado ao falar de suas plantas, como a narrar sobre os cipós, tão vastos no cerrado,  como o cipó-tripa-de-galinha: “E na primeira viagem de folhas que Olimpão trouxe vieram umas rodilhas de cipó-tripa-de-galinha, e ele falou para mim assim que cipó é melhor do que embira para amarrar os caibros.” Bernardes (1984, p.12). Também as plantas medicinais como a erva-tostão, em seu livro Reçaga: “A graminha mais rasteira e uns pés de erva-tostão de mais perto da beira d’água hora cobriam-se de orvalho.” Bernardes (1974, p. 84). A conhecida Erva de macaco também foi relembrada como fruto do Cerrado, não comestível, em seu livro Força da nova: “Vinha do mato o ar balsâmico dos ramos e das flores com o zumbido do abelhame enxameado nas árvores de escova-de-macaco.” Bernardes (1983, p. 18).

Numa análise das muitas obras em crônica do autor é importante destacar o ideário geográfico de distância daqueles ermos cerradeiros: “Não sei se esse garrote corria em despropósito, ou se estirão da chapada de cerrado baixo era mesmo que não deu distância que se permitisse rabejar.” Bernardes (1986, p. 43). Descreve a espécie cerradeira alcunhada de Faveira: “Já se acentuava a predominância de árvores de porte elevado, como os jatobás (Hymenaea sp.), as faveiras (Pterodon sp.) e sucupira de grande copa, o capitão-do-campo (Cordia obscura). Espojador de anta, paca assistindo nas mirindibas, bandos de arara esparramando alegria no Cerrado é com abundância, principalmente o verão em meio, quando a faveira está madura.” (Bernardes, 1977, p. 84).

Sobre o uso do Cerrado como remédios, em crônica, Bernardes (1970, p. 11) argumenta: “Queimar de febre, tremer e ringir os dentes, beber tisana de fedegoso e melão-de-são-caetano.” Sobre as gabirobas amadurecidas: “E por que é que a gabiroba (nos dicionários está guabiroba) acha de amadurecer é assim, nas quadras de veranico?” Bernardes (1970, p. 14). Também relata sobre as lembranças das surras com guatambu: “Não gosto de espiar minhas mãos, meus dedos chatos, grandes, em visível descompetência ao meu corpo franzino, resultado dos esbrugos que a ferramenta me fez. Minhas costas enchouriçaram, arrepio-me todo quando vejo esse pau chamado guatambu.” (Bernardes, 1970, p. 3).

Sobre outras plantas cerradeiras, em seu livro Força da nova, destaca o ingá, que é o ingá-d’água, ingá de vagem redonda sem os gominhos dos caroços, ingá-rabo-de-mico, variedade de fruta da ingazeira, dos caroços pequenos • ingá-rosário Espécie de ingá: “E vez ou outra ia com a avó Carolina buscar fruta no campo; num tempo a mangaba, o cajuí, o ingá-rosário.” (Bernardes, 1974, p. 110). Não se esquece também dos bichos do Cerrado em seu livro Reçaga: “O chiado das cantadeiras com o rascar dos bandos de arara, o pio do quero-quero com o ruído plangente do jaburu-moleque e, talvez, para intimidar um ou outro peão mofino, interferia o esturro do cangaçu-do-cerrado.” (Bernardes, 1968, p. 67).

Ainda no estudo dos frutos do Cerrado, em suas crônicas, Bernardes (1970, p. 13) evoca a fruta do jatobazeiro: “E num jatobazeiro mais adiante, os macacos espancavam frutas de jatobá, dava de se escutar as pancadas no chão das cascas e dos caroços que continuamente caíam” e ainda o jaú, pequeno arbusto, também conhecido por folha-de-bolo ou rasteiro, e cujas folhas são bem grandes: “Há uma espécie de árvore nos matos de beira-rio, que é dependente de uma formiga: não vive sem elas. O Araguaia é cheio desse pau. E agora o vi também em Cuiabá. Não lembrei foi de indagar dos cuiabanos como é que eles o tratam lá. No Araguaia é jaú; e como nós, roceiros, achamos bom clamar as coisas por apelidos bem assentados, usamos chamar o jaú de pau-de-formiga.” (Bernardes, 1983, p. 14).

E das pragas do Cerrado, destaca o juçá, que é uma penugem de espinhos, como os da palha de cana, do pequi e de outras plantas, que gruda à pele: “Colher os brotos da abobrinha, raspar bem para tirar o juçá, lavar e aferventar. É mesmo que tomar banho numa água de verdade, bem limpinha, a gente com o corpo pegando fogo de juçá…” (Bernardes, 1970, p. 12).

Sobre outras espécies destaca o “Doutor do sertão e do Cerrado” Bernardes (1991, p. 3) continua evocando, a relembrar a mamacadela, que é uma frutinha amarela, silvestre, também conhecida por fruta-cera, cuja raiz é diurética e com a qual se faz um preparado terapêutico contra vitiligo: “Apois si é o inharé, que uns conhecem por mama-de-cadela ou fruta de cera. A mama-cadela também é conhecida como fruta-de-cera e inharé e tem de duas espécies: uma que dá pau alto e outra mais ou menos rasteira que dá de vergônteas. Bacupari, gravatá, marmelada-de-cachorro… enfim, quando ando no mato vou levando de eito toda fruta que encontro.”

Vai narrando ainda sobre outras plantas, em que Bernardes (1974, p. 17) em seu livro Força da nova evoca a mata-cura, uma erva medicinal, de cujas folhas moídas fazem-se cigarros para curar bronquite (Só se deve fumar somente um por dia.): “Por envolta de terreiro pegou a espraguejar, encher de pé de joá-brabo, melão-de-são-caetano a lastrar misturado com cabaça amargosa, crescer fedegoso, carrapichal, mata-e-cura”, também os nhanbus na saroba cerradeira: “Uns nhambus, por exemplo, aí na saroba, azucrinam a alma das criaturas de Deus, numa orquestra com tudo quanto é versidade de pássaros, que, se facilitar, endoidece.” Bernardes (1971, p. 11).

Recorda Bernardes, em seu livro Reçaga, as grandes espécies do Cerrado como o oiti, que é árvore frondosa, muito encontrada nas matas do norte de Goiás: “O gringo encostou à sombra de um oitizeiro, abanando a cara com o chapéu, ensopadinho de suor.” (Bernardes, 1977, p. 22), assim como as sangra d’águas, que são árvores dos brejos e das beiras dos córregos, mescladas de folhas vermelhas: “Assim como não sei viajar sem ela aí dum lado para merendar meio-dia à sombra das sangra-d’águas no barranco dos ribeirões da linfa pura e fresca.” (Bernardes, 1976, p. 12)

Ainda sobre o pequi, Bernardes (1970, p. 14) evoca seu uso e suas diferenças, sua ação de comida e de remédio. Ressalta ser comida forte, que levanta a pessoa, se estiver doente: “Já o pequi, a bem dizer, não é fruta para gulodice. A sua ação é mais mesmo de sustento de aguentar relance na falta de recurso maior sustância no passadio. O pequi é um santo remédio. Despeitora as pudriqueiras que ficam no peito após a gripe, renova a coragem, tem manteiga e sem sustança.”

Esse é o Carmo Bernardes, o doutor dos sertões!

 

“Carmo Bernardes foi um dos maiores regionalistas goianos e um dos nomes mais expressivos da literatura sobre o Cerrado. Era um doutor em sertão. Contista, cronista, romancista, crítico de arte. Fez seu nome no cenário das letras de Goiás.”

 

 

“Publicou dezenas de livros, estudos, participou de tantos programas sobre o Cerrado. No programa Frutos da Terra esteve por muitos anos ensinando sobre o mato, o cerrado, o sertão, a culinária e o receituário sertanejo, ao lado de Bariani Ortêncio e Hamilton Carneiro.”

 

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG, escritor, professor e poeta – [email protected])

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