Opinião

Confesso que vivi as tensões e o encantamento da profissão de médico

diario da manha

Hélio Moreira ,Especial para Opinião Pública

O mês? Não me lembro, porém, foi no ano de 2003. Irmã Maria José Fleury, hoje habitando o Oriente Eterno, telefonou-me, pedindo-me que examinasse uma freira do colégio São José, de nome Irmã Laura Chaer,  que estava internada no Hospital São Salvador.

Naquele dia estava assoberbado de trabalho no consultório, principalmente um caso que me havia sido enviado por um colega de Rio Verde (Dr. Benjamim Spadoni) que estava a merecer grande atenção, pela sua gravidade; no final da tarde fui ao Hospital e ao adentrar ao apartamento da Irmã Laura, deparei-me com  uma senhora franzina, baixa estatura, cabelos curtos, escorridos e, econômica no sorriso; portava óculos de aros grossos, que teimavam em esconder dois olhos vivos e brilhantes, porém, incapazes de ocultar duas largas sobrancelhas; vestia-se com simplicidade, como convinha a um ser dedicado aos bens espirituais.

Logo no primeiro diálogo percebi tratar-se de pessoa com grande cultura e que o nosso contubérnio posterior, de quase três anos, transformou, para mim, em um repositório de conhecimentos acumulados, difícil de ser igualado e de onde buscava, a partir de então, auxílio  para minhas modestas incursões no mundo cultural.

Quis o destino que nos aproximássemos em um momento, para ela, de alguma dificuldade existencial; no inicio fomos movidos pelo milagre da empatia médico-paciente; progressivamente prosperou uma amizade sincera, da qual tivemos proveito mútuo.

Durante o tempo que durou a evolução da sua doença, mesmo nas fases mais críticas, nunca ouvi dos lábios da Irmã Laura um lamento, um queixume, um questionamento; muitas vezes senti que a batalha que estávamos travando era desigual. Nestas horas Irmã Laura consolava-me:

– Deus tem me conservado até hoje porque, certamente, tenho ainda algum compromisso a cumprir.

Essa fé inabalável, em momento tão difícil da sua existência, ela havia pressentido muitos anos antes, na sua maravilhosa crônica Oração da Mãe:

– Senhor: quanta vez, com assomos de emoção sagrada, senti tremer, nestas ondas benditas, o anseio pela vida. E eu nunca disse: não! Sempre recolhi, nas minhas entranhas, o fruto da Arvore divina.

Provavelmente, um dos momentos de maior ternura do nosso relacionamento foi a sua visita a nossa Santa Tereza; sua presença irradiava encantamento, sua extrema modéstia conquistou toda minha família, que adrede convidei para aquele acontecimento.

Quando estávamos percorrendo as estantes de livros da biblioteca da Santa Tereza, Irmã Laura foi “atraída” para a prateleira dedicada aos pensadores religiosos, especialmente os católicos, e ali ela folheou várias obras, com destaque para algumas da lavra  do inesquecível pensador católico, Alceu Amoroso Lima , depois ela encontrou  um livro de Pierre Teilhard de Chardin (Lettres de voyage, 1923-1955), reafirmando, com este gesto, sua aderência à cultura e principalmente à literatura. (Abro um parêntese para dizer que Irmã Laura,  além de renomada professora do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, por 34 anos , foi, também, primeira vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisas daquela conceituada Universidade Em 1986 assumiu a coordenação geral da Editora da PUC, dinamizando, sobremaneira, aquele setor; atualmente, depois que se aposentou, trabalha na tradução e revisão de textos dos idiomas espanhol e francês, aproveitando os cursos de letras e religião que fez na Espanha e na Bélgica).

Observei que Irmã Laura lia, com grande tranquilildade, algumas páginas do livro do Padre Teilhard de Chardin, que tinha em mãos e que era redigido no idioma francês, ao questioná-la, tive outra agradável surpresa, Irmã Laura era uma poliglota! (francês, italiano, inglês, espanhol e latim).

Dando-nos demonstração da sua cultura, ela tece comentários a respeito da vida daquele padre francês, que nasceu em 1881, tendo pertencido à companhia de Jesus (Jesuíta); Padre Pierre, afirma ela, com conhecimento de causa, desempenhou grande influência na juventude católica  da primeira metade do século 20, por suas ideias controversas, sob o ponto de vista da Igreja Católica (Teorias da evolução sob a óptica cristã); aduzi que a minha geração de estudantes universitários da 2ª metade do século 20, também foi influenciada pelas ideias de Chardin, inclusive faço alusão a isto no livro que pretendo lhe oferecer – Entre o Sonho e a Realidade -, concluo.

Irmã Laura parecia, naquele dia, uma jovem senhora; um dos meus filhos propôs, quando estávamos na biblioteca, fazer um brinde em comemoração àquela visita tão ilustre.

– Será que posso beber champanhe?

– Prometo não contar ao seu médico, intervêm Marilia, minha mulher, piscando um dos olhos; na despedida ela se postou, sugerindo-nos  que fazia uma oração, de frente ao canteiro de flores onde existe uma imagem de Santa Terezinha, naquele dia coalhado de rosas.

Duas semanas após a sua visita, ela me enviou uma carta fazendo comentários sobre meu livro de memórias que lhe presenteei (Entre o Sonho e a Realidade),  cujo último parágrafo desta carta, transcrevo:   “…Dr. Hélio, ao voltar a Curitiba, desejava rever seus amigos antigos. Percorre a cidade, empurrado por sua afeição. Não os encontra. Tampouco encontra as ‘margaridas’ e as ‘onze horas’ que ele um dia plantou. Elas murcharam e não foram replantadas. Súbito, Dr. Hélio recobra forças acolhendo nas suas mãos uma rosa caída das mãos de SantaTerezinha…”

Um dia ela partiu rumo as estrelas, deixando-me, como lembrança do nosso relacionamento, uma pequena imagem da santa da minha devoção, Santa Terezinha do Menino Jesus; deixou, também, um rastro de luz, que não é capaz de ofuscar a imensa saudade que sentimos dela.

Um mês após o seu sepultamento recebi em meu consultório a visita  da Irmã Provincial das Dominicanas de Monteils, Sandra Camilo Ede, trazendo-me um cartão de lembrança do passamento da Irmã Laura; só então constatei que nascemos, praticamente, no mesmo dia. Seria isto, também, o que nos aproximava?

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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