Opinião

Corumbá, berço de dois expoentes da literatura (I)

diario da manha

Eurico Barbosa ,Especial para Opinião Pública

A Academia Goiana de Letras prestará homenagem neste ano a quatro dos maiores escritores goianos: José J. Veiga, Eli Brasiliense, Carmo Bernardes e Bernardo Élis.

A cidade de Corumbá de Goiás é berço de Bernardo Élis e José J. Veiga. Este teve o seu centenário de nascimento assinalado no último dia 2 de fevereiro. O autor de Ermos e gerais o terá a 15 de novembro. Na última sexta-feira, dia 20, a Prefeitura Municipal e a Associação de Cultura em Defesa do Patrimônio Histórico Corumbaense promoveram, em prestigiadíssima sessão especial, iniciada às 19:30 horas, a abertura dos eventos comemorativos dos centenários dos dois expoentes não só da literatura goiana como da própria literatura nacional.

A dimensão do escritor José J. Veiga teve enfoque muito expressivo da editora Abril, na coleção Literatura Comentada, edição de 1982. Nela se lê este início: “Após 30 anos de ausência, um homem volta para a cidade natal. Está na casa dos 50: leu muito, morou na Inglaterra, radicou-se no Rio, é casado. Estatura mediana, seus gestos são comedidos, apesar da emoção que experimenta. Ele quer matar saudades. A cidadezinha de Corumbá, interior de Goiás, que no Censo de 1940 tinha mil habitantes. Imagine-se quando ele nasceu, em 1915. Matar saudades. Entra numa venda, compra uma vara de pescar, anzol, chumbada de linha. Consegue as iscas (minhoca) com alguém, e vai para o rio da sua infância. Joga o anzol aqui, ali e nada. Caminha pela margem até encontrar outro pescador, um velho, e pergunta qualquer coisa assim:

– Onde é que se pode pegar peixe aqui?

O velho responde no tom pausado dos goianos:

– Aqui não tem peixe.

– Então por que p senhor está pescando?

– Pra matar o tempo.

O personagem da história – verídica – é o senhor José Veiga – que costuma assinar José J. Veiga (o J. ele usa no meio do nome só para enfeitar). Uma história apropriada para quem escreveu Os cavalinhos de pla ti planto, A Hora dos Ruminantes, Sombras de reis barbudos, A máquina extraviada, Os pecados da tribo e, agora, De jogos e festas.

“Os aspectos absurdos da realidade são a sua marca registrada. Se a vida não tivesse se adiantado, ele poderia ter escrito também o caso do pescador.”.

Com o título Tempo de Corumbá, o texto prossegue:

“No bate-papo com o velho pescador, José J. Veiga descobriu que se tratava de um amigo do seu avô. ‘Não é engraçado?’, pergunta enquanto fala dos tempos passados. Apesar da sua vivência, ele conserva os gestos e a discrição dos habitantes das cidadezinhas:

– Eu sou um homem do interior de Goiás, tenho 66 anos. Corumbá é um lugarzinho muito miúdo. Passei a infância lá, estudei. Tinha cinco irmãos, meu pai era pedreiro. Faria muito frio lá, um frio de rachar. Minha mãe morreu quando o irmão mais velho tinha 12 anos. Eu tinha 10. Meus tios eram pequenos fazendeiros e cada um levou um de nós.”

Com 20 anos José J. Veiga desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, capital do País. Hospedando-se em uma pensão ali encontrou o coestaduano Claudio Baiocchi, que morava com um irmão na Lapa. Glauco arranjou morada de graça para Veiga, que acompanhou o amigo na tentativa de ingresso na Escola Militar. Mas ficaram só na tentativa. O Ministério da Guerra comunicou-lhes que não haveria exame naquele ano, não havia vagas. Glauco retornou para Goiás e José continuou no Rio, a tentar emprego. Arranjou um lugar de propagandista de laboratório. Adquiria compulsivamente livros nas livrarias de obras usadas, os denominados sebos. Acabou se formando em Direito. Um dia ouviu a Rádio Guanabara a fazer esta pergunta: você quer ser locutor? Se quer, procure esta emissora. Ele se inscreveu, foi aprovado e contratado. Deixou de ser propagandista de laboratório. A rádio naquele tempo desfrutava de muita popularidade. Nela atuou como locutor vários anos. Até que outras emissoras mais poderosas surgiram e a Rádio Guanabara passou a atrasar o pagamento de salários; e Veiga, no final de 1939 se viu aprovado em concurso para o serviço público, tornando-se escriturário. E nesse cargo ficou até 1945, ano em que entrou para a BBC de Londres. Quando estava a terminar a 2ª Guerra Mundial ele pisava em solo inglês. Declaração dele: “Parece que caí no lugar que queria. Sozinho, solteiro, jovem” e acrescenta: Li demais, teatro, cinema, literatura. A guerra não havia parado a vida cultural inglesa.

Em 1950 voltou para o Rio de Janeiro. Redator de O Globo. Da Tribuna da Imprensa (fundada naquele ano). Amigo do grande escritor Antônio Calado, que conhecera em Londres, foi por ele colocado no Reader’s Digest. Ali ficou 19 anos. E logo deu início à sua produção de escritor, vindo a ser um dos maiores ficcionistas brasileiros.

 

(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feira – E-mail: [email protected])

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