Opinião

Crises capitalistas e mercados instáveis

diario da manha

Ney Gonçalves ,Especial para Opinião Pública

Vários estudos de longo prazo mostraram, no caso dos Estados Unidos, uma queda da rentabilidade do capital. Os marxistas encontraram aí uma expressão empírica da queda da taxa de lucros que, segundo Marx, está na origem das crises. Estas, portanto, não tem nada de acidental, mas são inerentes ao modo de funcionamento do capitalismo, sejam quais forem os eventos diversos que marcam seu inicio. As dificuldades de medidas são grandes, uma vez que as noções utilizadas, de capital e de lucro, não tem a mesma significação nas contas das empresas ou da “nação”, ou até mesmo entre os diferentes autores. Os conceitos marxistas de exploração e acumulação de capital, entretanto, fornecem à análise das crises um quadro teórico que não se poderia encontrar na nova ortodoxia.

Alguns examinam a evolução da massa de lucro (inclusive os ganhos financeiros das aplicações) em relação ao valor total (em preços correntes ou deflacionados) do “capital fixo” (instalação e máquinas). Outros levam em conta os estoques ou fazem uma avaliação financeira dos ativos (ações e obrigações) cotadas na Bolsa. Entretanto, sejam quais forem às medidas utilizadas, parece que a amplitude da Grande Depressão e dos efeitos da Segunda Guerra Mundial não são determináveis. Em contrapartida, parece que uma imagem comum reflete o período 1948-1980: queda da rentabilidade do capital no curso dos anos 1948-1958 (em relação ao ano de 1945); alta em 1960-1965; queda de 1966 a 1980. Não levando em conta as grandes flutuações de curto prazo.

Será que essa queda da rentabilidade do capital é devida ao aumento dos salários? Não é o caso nos Estados Unidos, onde os salários reais (corrigidos ante da alta dos preços) estagnaram no curso dos últimos anos.

A concepção de Marx permite explicar essa tendência considerando-se o funcionamento do capitalismo.

A acumulação de capital alimenta-se do lucro: é necessário que os fundos investidos proporcionem uma renda líquida aos empresários, sem o que estes não são estimulados a investir. Só o trabalho assalariado pode fornecer um mais-valia, um valor líquido acrescido em relação aos salários pagos para uma remuneração dos trabalhadores. Mas as operações econômicas não são feitas de maneira direta, como se os assalariados de cada empresa consumissem aquilo que produzem ou como se os empregadores praticassem entre si um sistema de troca. Elas transitam por mercados. Produção e circulação de mercadorias estão ligadas. Os empresários, no “mercado da força de trabalho”, calculam o custo da mão de obra em relação com a sua produtividade. Concorrentes uns dos outros, eles procuram obter parcelas de marcados para realizar o seu produto, (se essa concorrência tem formas diferentes segundo o grau de concentração do capital e de centralização do capital ou a formação e o papel dominante das grandes empresas, isso não está em jogo aqui). Se o aumento da produtividade dos trabalhadores passa pela mecanização ou a automação dos processos de produção, a despesa em capital fixo (equipamentos) aumenta em relação à que se efetiva com os salários. A melhora da produtividade pode levar à redução dos custos salarias, pelo “enxugamento dos efeitos”. Entretanto, o aumento das despesas em capital fixo pode fazer baixar a taxa de lucro, com relação entre a renda liquida e o capital investido. Assim, a acumulação de capital traz consigo o risco de uma queda da rentabilidade, fonte de instabilidade das parcelas de mercado e possibilidade de crises.

Segundo Marx, existem contratendências que compensam a queda da taxa de lucros. No período contemporâneo, elas atuam mais ou atuam menos, conforme as relações de força entre os empresários e os assalariados, a capacidade das empresas em investir no exterior, a intervenção do Estado em matéria de impostos, subvenções, auxílios sociais. Durante nosso período, todas essas contratendências tiveram um efeito, sem permitir, entretanto o restabelecimento da rentabilidade do capital, notadamente nos Estados Unidos. Nos momentos de crise aberta (como agora), a inflação (alta dos preços) alia-se com um aumento do desemprego. Crise do “marcado de trabalho” (taxa de desemprego elevada), diminuição das compras dos consumidores, paralisação dos investimentos: a queda da rentabilidade, afetando o crescimento, endurecendo a concorrência, traduziu-se por uma grande instabilidade de todos os mercados.

 

(Ney Gonçalves, escritor, pesquisador, autor dos livros: Valor e Crise, Marxismo, Estado e Crise do Capital e Introdução ao Marxismo e Conceitos Básicos da Analise Econômica Marxista (no prelo)

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