Opinião

Elogio à cegueira

diario da manha

José Marcondes Alves ,Especial para Opinião Pública

Chamou atenção durante as manifestações de domingo, 15/03/2015, um cartaz que levava em letras garrafais palavras de ordem contra uma das maiores personalidades que o Brasil já teve ou, o mundo, o educador cosmopolita que recebeu em 1986 o Prêmio Unesco da Educação para a Paz e, sete anos depois foi indicado ao comitê que outorga anualmente, na Noruega, o Prêmio Nobel da Paz; o educador que dá nome a inúmeras instituições educativas, autor de mais de quarenta livros, traduzidos para 28 idiomas, o pensador brasileiro mais festejado no exterior. O leitor sabe muito bem de quem estou falando, o educador Paulo Reglus Neves Freire.

O cartaz exposto no protesto ordenava: “Chega de doutrinação marxista, basta de Paulo Freire”. Já antes das eleições travei debates via Facebook com pessoas que sequer leram o autor de Pedagogia do Oprimido. Recentemente, 06 de março, quando comentava um post, no decorrer dos comentários alguém solta essa pérola: “Paulo Freire, o ‘patrono’ da educação brasileira precisa ser colocado em seu devido lugar, que é o lixo da história.” Ora, onde o jovem que transcreveu isso conheceu o educador pernambucano? Em lugar nenhum.  O “pobre moço” apenas transcrevia trecho de artigo publicado no site da Veja. Conheço-o, sei que nunca leu Paulo Freire, assim como muitos professores brasileiros.

O que justifica a perseguição ao educador brasileiro? Exatamente o fato de sua pedagogia não ser doutrinária; por seu trabalho valorar uma educação emancipatória; por colocar o educando no devido lugar no processo ensino aprendizagem; por dar voz aos atores do processo educativo e, acima de tudo o fato de Paulo Freire ser vinculado aos movimentos sociais, o pensador que aliava o senso crítico marxista ao pensamento cristão, ou seja, se pode emancipar é uma ameaça.  Há um grupo fazendo campanha contra qualquer nome que tenha vínculo com o pensamento progressista de esquerda. Se blindar, instalando o ódio é a estratégia.

E você que estudou em escola pública, identifica o método desse educador na prática docente? Não tenho dúvida em afirmar que Paulo Freira praticamente não entrou nas escolas brasileiras. Na verdade, a educação brasileira faz o Pedagogia do Oprimido um livro atual. Continuamos com uma educação bancária e pouco criativa, majoritariamente. Muitos sabem citar o grande pensador da educação brasileira, mas não o tornam presente na prática educativa.  Com exceção de escolas vinculadas a movimentos sociais, especialmente o MST.

Possivelmente se o Brasil tivesse valorizado o trabalho de Paulo Freire, teria diminuído mais eficazmente o analfabetismo de jovens e adultos, que na década de 1960, quando o mesmo foi exilado devido a perseguição da ditadura militar, era de quase 40%; em 1990 essa taxa ainda era de 20,1%, atualmente próxima aos 10% (não estamos falando de analfabetismo funcional).

O que as pessoas, especialmente os que têm coragem de erguer um cartaz assim, precisam fazer, nesse momento de difusão de ódio e de elogio à cegueira, é buscar exemplos de tolerância, diálogo e atitudes que valorem as potencialidades humanas. Exemplos como do educador que defendia o diálogo e a prática reflexiva, para quem a dialogicidade exige que o homem se mantenha em uma relação de respeito diante da liberdade do outro, ou seja, exige uma relação instituída não pela força da opressão e submissão, mas pela capacidade de comunicabilidade.

Se os manifestantes conhecem Paulo Freire pensariam no que ele disse sobre coerência: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.” Talvez assim, um movimento que tem liberdade no nome, que está na rua livremente, não clamaria por ditadura militar.

 

(José Marcondes A. de Santana, geógrafo, mestre em Geografia e professor da rede pública de ensino).

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