Opinião

No meio do caminho da educação havia uma cadeira

diario da manha

As pessoas físicas morrem. A única forma de mantê-las vivas são as memórias. Fatos, acontecimentos, documentos e objetos. Outro dia foi encontrado nos confins da nostalgia familiar fitas gravadas com a voz de minha avó, já falecida, algo que gerou comoção, emoções e saudade. Imaginem o valor que esta pequena caixa de plástico carrega, um pedacinho daquela que educou meus progenitores, lhes concedeu princípios e comportamentos morais trazendo consigo efeitos sociais maiores do que a própria pena ou em tese maiores do que qualquer ordenamento, assinalados pelas verves do respeito e imposições paternais afins da convivência comunitária.

Nesta semana nos deparamos com um objeto: “no meio do caminho havia uma cadeira”. Uma cadeira, sem sombra de dúvida detentora de carga histórica, um objeto de composição, um jogo, as cadeiras enfileiradas do salão nobre da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ornamentadas, de madeira, abotoadas, todavia simples objetos. No meio do caminho: mais claramente, entre duas influentes academias goianas de estimável valor histórico e berços da produção profissional/cultural, UFG e Pontifícia Universidade Católica. Há alguns anos não se sabe iniciativa de quem, a mesma fora tratada como prêmio, tomada da faculdade pública e alojada na privada, relatos são controversos neste ponto: tratara-se de conquista, fruto de uma aposta mal sucedida ou furto simples? Não importa, pois as narrativas são consonantes ao dizer o intuito de despertar sentimentos rixosos. Bem, estes se mantiveram.

Em meados do mês de março alguns estudantes da Federal retomaram a digníssima, tratada posteriormente, como celebridade por grandes jornais de circulação local, atitudes impensáveis num universo jurídico ou mesmo na vida civil. A reintegração fora tão criminosa quanto à maneira de sua despedida. As pessoas se recusam enxergar a gravidade e a realidade tal como ela é. A cadeira deixou sua função inicial (pasmem a de ser um assento), passou a ser troféu e agora é ponto de cobiça, provocações e disputas. Onde isto vai parar? Brigas físicas, lesões e crimes? Os ensinamentos da minha avó passaram por gerações, assim como esta rixa sem sentido, todavia o legado dela é algo que merece disputas e lides, ela foi alguém, viveu e deixou ensinamentos, que, aliás, são contra a toda esta situação. Compensa mesmo, tanto por tão pouco? Inclusive, esta cadeira não é minha nem sua, é nossa, por natureza, isto é bem público. Por trás da cadeira existe sim uma pessoa, um ente federal no caso, que por possuir patrimônio deve na qualidade de possuidor cuidar e retomar aquilo que lhe pertence, não queira ditar os cânones da justiça; o ser justiceiro é uma praga social capaz de gerar maiores injustiças do que o próprio sistema já o faz.

Onde estão as atitudes das autoridades administrativas das duas instituições? A omissão destas pode gerar maiores problemas, pois gente com orgulho ferido é capaz de tudo. Daqui alguns dias não poderá se revelar em qual local se estuda com medo de ser atacado, não quero viver num estado de medo. Por isso, se faz tão importante relembrar dos ensinamentos dos nossos antepassados, frisando assim que as faculdades são lugares de educação e também formação. E como tal merecem atenção e esforço para a união e busca do conhecimento fértil e válido. É isto que a cadeira deve significar: encontros, debates, sempre seguindo os princípios da ética, retidão e acima de tudo os preceitos do Direito, mas caso, se meios oficiais não forem suficientes, ao menos nos lembremos da nossa bagagem familiar: mínimo de respeito ao próximo.

(Letícia Antoniosi, estudante de Comunicação Social- Bacharelado em Jornalismo na Universidade Federal de Goiás – http://www.dm.com.br/autor/leticiantoniosi – residente em Goiânia – Goiás)

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