Opinião

O Lago das Rosas e o dinossauro: alegoria e educação

diario da manha

Leonardo Carmo ,Especial para Opinião Pública

Em 2005, Goiânia viveu um curioso calote no setor dos agronegócios. Empresários investindo na criação de avestruzes como novas galinhas de ovos de ouro, tiveram graves prejuízos em suas finanças.

Em 2012, o Zoológico de Goiânia registrou a morte de seis bichos. Sabe-se que o local já perdeu quase metade do plantel desde 2005, quando abrigava 780 espécimes. Hoje conta apenas com 491 animais. Somente em 2011, outros 63 morreram. Em 2010, foram 68, e, em 2009, 109. Entre eles, dois hipopótamos, um leão, uma onça, um tamanduá-bandeira, uma girafa, um jacaré-açu e uma avestruz. A asa negra da mosca pousou sua gosma nos animais do zoo e no sonho dos investidores.

Alegoricamente, esses fatos permitem articular a teoria da educação com o filme Jurassic Park, de Steven Spielberg, cujos ovos de dinossauros renderam milhões aos produtores.

Imagine-se um T.Rex no Lago das Rosas: as cercas do zoológico que não impediram a morte dos animais tampouco controlariam a fuga de um velociraptor. Goiânia, nessa ficção, seria rapidamente destroçada pelas mandíbulas e garras afiadíssimas da fauna pré-histórica. A situação seria a mesma de San Diego em O Mundo Perdido, Jurassic Park, segundo episódio da trilogia.

O Horto Florestal e o Jurassic Park são literalmente zonas de diversão e morte. Qualquer descuido pode ser fatal para os homens ou para os animais. No cinema, nos filmes em geral, é uma convenção da arte cinematográfica, o parque torna-se o espaço do horror, da destruição, do imprevisível. No filme, o parque – espaço do conhecimento e do lazer – torna-se sinistro e ameaçador. Um exemplo clássico do parque como local de catástrofe é o filme O Gabinete do Doutor Caligari, Robert Wiene, 1920.

O crítico Siegfried Kracauer explica na obra De Caligari a Hitler – uma história psicológica do cinema alemão – que o parque, nas metáforas ou alegorias cinematográficas, não é o espaço da liberdade, mas, o território da anarquia gerando caos. Em termos alegóricos, o sistema educacional lembra um parque entrelaçado com os muros das prisões, dos hospitais, das igrejas, dos quartéis: uma falsa promessa de felicidade e libertação. A educação transforma-se em saber que aprisiona.

Em A Outra Face, de John Woo, 1997, o parque é o espaço da desordem dos sentidos. O mesmo em O Fantasma da Liberdade, Luis Buñuel, 1974. No final deste filme, uma chacina no zoo de Paris, aterroriza o espectador com sons de tiros, insinuando uma matança de animais e visitantes ao mesmo tempo Aliás, nada mete mais medo nos animais que a presença humana. Em termos surrealistas, podemos dizer, o filme do mestre espanhol antecipa a tragédia do pasquim “Charlie Hebdo”.

A alegoria dos dinossauros e avestruzes, articulada com a teoria da educação, talvez possa ser formulada assim: a escola é esse parque no qual funcionários e professores têm dificuldades de exercer uma influência pedagógica no – sentido forte do termo – , sobre os alunos. A teoria da educação – a cerca inteligente – que deveria proteger quem está atrás e além delas encontra-se arrebentada. Essa cerca, se aceita a metáfora, deveriam ser a do saber e da crítica. No dia-a-dia, os estudantes são agrupados em celas chamadas salas de aulas lotadas e muitos professores já se perceberam mais carcereiros e menos educadores.

A experiência de uma educação libertária na qual uma criança deve viver sua própria vida – não uma vida que seus pais acreditem que ela deva viver, não uma vida decidida por um educador que supõe saber o que é melhor para a criança ,parece ter fracassado. O que interessa é a ordem e esse tipo de ordem tem gerado o caos.

Caos é um conceito fundamental no filme de Spielberg. Os supercomputadores – metanarrativas educacionais – fracassam no lago burocrático. A situação fora de controle no Jurassic Park ou no Lago das Rosas é menos perigosa que a de nossas instituições de ensino . Do lado de fora, além das cercas e acerca do conhecimento, o T. REX é a teoria educacional inibindo talento e minando o todo o processo de uma educação formal efetiva. O filósofo Immanuel Kant, comentou existirem duas invenções humanas que podem ser consideradas mais difíceis que qualquer outra: a arte do governo e a arte da educação; e as pessoas continuam a discutir inclusive seus significados.

As profissões de paleontólogo ou professor exigem a um só tempo o saber especializado e o generalista. Um paleontólogo pode dar aulas – como Allan Grant no filme e o professor não raro enfrenta a burocracia jurássica. Ambos parecem ser espécimes condenadas à extinção. No filme Jurassic Park um técnico em informática ironiza: os computadores em breve substituirião os paleontólogos.Na outra ponta, professores recém-admitidos em concurso público abandonam as escolas, anseiam superar cercas da burocracia ineficiente como os animais pré-históricos que escapam do Parque Jurássico.

A educação parece trabalhar contra a inteligência. O dinossauro digitalizado no cinema testemunha a monstruosidade do sistema prisional brasileiro e remete à ineficácia do sistema educacional do País evidenciando que o homem é o mais indomável dos animais. Como reeducar o que nunca foi educado, como haver reeducação se não há Educação? Essa observação se correta, talvez nos permita dizer: no filme de Steven Spielberg, os dinossauros não atacam os seres humanos. Eles, assustados, se defendem dos neotrogloditas.

 

(Leonardo Carmo, autor de “ O cinema do feitiço contra o feiticeiro – cinema de massa e crítica da sociedade”. Ed. PUC-GO, 2012)

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