Opinião

O poder transformador da classe média rural

diario da manha

João Guilherme Sabino ,Especial para Opinião Pública

Dentre as políticas públicas apresentadas neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, uma das que têm o maior poder transformador é a meta de dobrar a classe média rural nos próximos quatro anos, anunciada pela ministra Kátia Abreu, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O sucesso do programa representaria ascensão de renda para cerca de 800 mil produtores, ampliaria a produção agropecuária e teria positivo efeito em cascata no agronegócio e segmentos fornecedores.

Segundo a ministra, o Brasil tem mais de cinco milhões de produtores rurais, sendo 70%, ou 3,5 milhões, nas classes D e E. A base do plano é fomentar a capacitação, com o envolvimento de órgãos como a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), universidades e o Sistema S. Trata-se de um bom e ambicioso começo, considerando a situação precária dos serviços de extensão rural.

Até por isso, para viabilizar o plano é necessário adotar medidas apresentadas na campanha eleitoral pelas entidades do setor, inclusive a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), então presidida por Kátia Abreu, que sugeriu: ampliação e diversificação dos investimentos em infraestrutura de transportes, ainda concentrados no modal rodoviário; aumento da capacidade de armazenamento; multiplicação das tecnologias para melhorar a produtividade; melhores estratégias relativas ao mercado internacional; agilidade dos registros de agroquímicos; e modernização das legislações relativas às indústrias processadoras.

A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), em estudo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenado por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, propôs cinco linhas de ação: sustentabilidade da produção, competitividade, produção orientada para os mercados, segurança jurídica e governança institucional.

Quando se fala em pequenos produtores, é necessário pensar em ganhos de escala crescentes, para fazer frente à elevação dos custos e atender à demanda de alimentos, fibras e energia. Para ampliar a produtividade é preciso incorporar tecnologias. Isso exige financiamento com juros viáveis. São necessários, ainda, seguro agrícola e serviços estaduais adequados de extensão rural.

Outra vertente é o estímulo ao cooperativismo. Estudo do Departamento do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) apontou que, dentre os estabelecimentos rurais brasileiros com maior grau de acesso à tecnologia, a maioria tem forte relação com as cooperativas, que integram as distintas etapas do processo produtivo, oferecendo assistência a cada uma delas. Na maioria dos Estados, com destaque na Região Sul, verificamos a sua presença, de modo estruturado, com excelente governança e serviços de alta qualidade. É preciso expandir o modelo.

A terceira base para a ampliação da classe média rural é o relacionamento de pequenas propriedades com indústrias, como ocorre com a carne de frango, um sucesso nesse modelo de integração, que já representa cerca de 90% da produção nacional. Outro destaque é o bom exemplo da ajuda de companhias sucroenergéticas a assentados da reforma agrária no Estado de São Paulo, bem como a parceria de fábricas de chocolate com produtores de cacau na Bahia, com a participação do Ministério da Agricultura.

A ministra da Agricultura conhece todas essas questões, pois é uma pessoa da área rural. Positivo, também, seu referendo à importância do Sistema S, nem sempre analisado de modo proporcionalmente justo à sua enorme contribuição ao País. Por tudo isso, espera-se que Kátia Abreu tenha grande capacidade de articulação política e o apoio da presidente Dilma, de modo a mobilizar recursos para o projeto de ascensão socioeconômica dos pequenos produtores. Seria uma grande revolução no campo!

 

(João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo São Martinho, vice-presidente da FIESP e coordenador do Comitê de Mudanças Climáticas da entidade)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais