Opinião

Vida e obra de Altamiro de Moura Pacheco

diario da manha

Geraldo Coelho Vaz,Especial para Diário da Manhã

Imaginei que, nesta noite memorável, nesta solene ocasião, neste casarão, onde por muitos anos viveu o escritor, político e médico humanitário, Altamiro de Moura Pacheco, pudesse estar presente, lembrando acontecimentos importantes, nesta casa – alguns registrados nos anais da história goiana – com seus passos cadenciados, sempre vestido de terno escuro, camisa branca, alvíssima, gravata mais para as cores pretas, ou avermelhadas, óculos escuros, visando suavizar a vista já cansada.

Imaginei-o descendo e subindo a escadaria desta sala, a principal, recebendo amigos, jovens estudantes, pesquisadores e estudiosos da memória política e social brasileira, folheando e anotando em sua rica biblioteca com aproximadamente 10 mil títulos de uma severa seleção de importantes e raros livros de gêneros diversos.

Imaginei, por último, as vezes que adentrei-me nesta casa solitária, ouvindo Altamiro de Moura Pacheco com sua inteligência e erudição, relatando os assuntos e acontecimentos vividos no interior goiano, sua terra natal, Bela Vista de Goiás e, depois, a tradicional e centenária Bonfim, hoje Silvânia.

Falava-me com um carinho pincelado da lembrança e do afeto que nutria pelo seu pai, Francisco Domingos Pacheco, que o deixou para sempre, quando tinha apenas treze anos, primogênito, assumindo com sua mãe, Genoveva de Moura Pacheco, o trabalho e a educação dos irmãos menores.

Nascido no dia 15 de março de 1896, e ao completar 4 anos de idade, o pai transfere residência, com a família, para a cidade de Bonfim, com o pensamento de aumentar seus negócios, com vistas de facilidade de melhorar e propiciar os familiares, condições de estudo e aumento no conforto de todos.

De início, sua casa em Bonfim, localizada à Rua Direita, defronte à Escola Pública Municipal, era assobradada, grande conforto para a família, quintal bem plantado com árvores frutificas, e mesmo com aproximação da escola, foi seu pai o seu primeiro professor.

Aos 7 anos de idade, é matriculado na Escola Pública Municipal, dirigido pelo professor Benedito de Souza, o qual qualifica o aluno como um dos melhores da Escola, pela inteligência, disciplina e amor a leitura. Em seguida, a seu pedido, é matriculado e passa a estudar no Colégio Xavier de Almeida, de propriedade e direção do professor Antônio Euzébio de Abreu Júnior.

Com a morte prematura de seu pai, ocorrida no dia 8 de junho de 1909, logo depois o latinista e conhecedor profundo do tupi-guarani, professor Antônio Euzébio, prático em farmácia e medicina, ensinou ao seu discípulo e talentoso Altamiro, a prática da manipulação tão comum naquela época nas cidades interioranas do Brasil Central.

Com os pendores desde a infância de bom economista e grande visão de futuro, Altamiro com parcos recursos adquiriu de Ozório Antônio de Abreu, seu próprio negócio, ou seja, uma pequena botica, cuidando e zelando da saúde da população bonfinense.

Desde a infância, sonhava em ser médico e já exercendo a profissão de farmacêutico prático, diplomou-se com brilhantismo, no ano de 1928, na cidade de Vila Boa, no curso superior de farmácia, sendo orador da turma da recém-instalada faculdade na velha capital do Estado.

Para concretizar o sonho de criança, buscou na Faculdade de Medicina de Niterói, o diploma de médico, colando grau em 18 de setembro de 1933, profissão que exerceu por muitos anos em Bela Vista de Goiás, Silvânia e outras cidades, quando transfere residência, em 1936, da terra de seu nascimento para a nova capital do Estado de Goiás e funda o Instituto Médico-Cirúrgico de Goiânia, na rua 3, esquina com Av. Ara-guaia. Mais tarde, depois de vários anos de profissão, em 1954, vende o Instituto com todas as instalações ao conceituado médico goiano, Francisco Ludovico de Almeida Neto.

Em seguida, funda a Sociedade Goiana de Pecuária, local onde foram realizadas as primeiras exposições de gado de Goiânia e, ao mesmo tempo, ele procura introduzir no estado, bovinos de alta linhagem.

Líder inconteste dos produtores rurais de Goiás, achou por bem criar o banco Agro-pecuário de Goiás S/A, que teve a adesão de muitos pecuaristas do Estado, dando sustentação à mais nova casa de crédito de uma classe que, a partir desse acontecimento, deu origem ao embrião da união em favor dos interesses classistas da pecuária goiana.

Com nome em ascensão, perfil de homem honesto, corajoso e carregado de ideal, candidata-se ao posto de governador dos goianos, na sucessão de Jerônymo Coimbra Bueno. Aceitou o desafio e percorreu todo o Estado, esclarecendo o seu plano de governo, caso viesse a ser eleito. Ventos fortes sopraram contra o seu trabalho e ideal, não conseguiu eleger-se ao mais alto posto do Executivo do Estado de Goiás.

Leitor compulsivo, aos poucos foi adquirindo livros de toda natureza, técnicos, de medicina e de literatura em geral, formando uma magnifica biblioteca em sua residência.

Em 1968, publica sua primeira obra Civismo em Ação, nela, enfeixou diversos discursos por ele selecionados, verdadeiras obras-primas de um grande e luminoso vernaculista.

Altamiro de Moura Pacheco tem estilo próprio de escrever. O seu português é de uma limpeza cristalina, bela e pura, respeitando e valorizando a língua portuguesa, conquista adquirida desde os primeiros anos de bancos escolares, graças aos seus eméritos professores.

Depois, vieram: Rochedo e ferrolho, Discursos, ambos de 1968; Realidade e ficção, 1972; A industrialização do boi e seu habitat, 1972; Sonhando com minha terra, 1974; Xavier de Almeida, meu Patrono, 1974.

Graças à sua inteligência, à sabedoria, à arte de escrever de verdadeiro intelectual, cioso na perfeição do ofício, do valor temático, característica do enriquecimento do trabalho, em sua caminhada, recebeu o convite para pertencer aos quadros do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da Academia Goiana de Letras.

Sua obra literária foi recebida pela crítica com elogios pelo seu estilo, valor da forma, relatos de profundo conhecedor das terras goianas, frente a suas produções literárias. Como homem público e amante da literatura, a escritora Rosarita Fleury publicou uma rica biografia desse mecenas das artes, que sempre incentivou os novos para seguir o caminho da sabedoria e da dignidade humana.

Pelo seu entusiasmo e defendendo a tese da mudança da capital federal para o centro do País, mais precisamente no quadrilátero Cruls, em Goiás, o governador José Ludovico de Almeida o designou membro e presidente da comissão de cooperação para mudança da capital federal, que desincumbiu com muita responsabilidade, peculiar de sua formação e ganhou a estima pessoal do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Ao longo de sua vida, construiu, graças ao seu trabalho, um patrimônio respeitável e, num gesto de mecenato, fez doação deste sobrado, localizado na Av. Araguaia com a rua 15, à Academia Goiana de Letras, mediante cláusula post mortem, assinando a escritura o então presidente José Mendonça Teles e o proprietário, com todos bens nelas existentes, inclusive a rica biblioteca, que hoje serve de consulta aos historiadores e pesquisadores.

Preocupado com o ensino superior, Altamiro ocupa a presidência da Sociedade Faculdade de Medicina de Goiás, ao lado de diversos médicos residentes em Goiânia e foi responsável pela sua criação, hoje, pertencente à Universidade Federal de Goiás.

Após completar 100 anos em quase três meses de existência, o médico e escritor Altamiro de Moura Pacheco, faleceu em Goiânia, cidade que ajudou e viu crescer, no dia 10 de junho de 1996, deixando seu nome gravado nos anais da história brasileira, pelo trabalho em favor do povo goiano e, também, um dos baluartes para o nascimento e crescimento de Brasília.

Lembrando as palavras do confrade e ex-presidente da Academia Goiana de Letras, escritor Modesto Gomes, diz o seguinte: Escritor, membro desta academia e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Moura Pacheco, entrou para a galeria dos mecenas. E seu feito maior, no particular, é a doação desta casa, onde viveu grande parte dos 100 anos de sua existência, à Academia, que sempre dignificou com sua presença.

 

Geraldo Coelho Vaz é escritor

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 22:23

Brasília – Prazo de validade vencido

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar