Opinião

Agrotóxicos: uma preocupação a mais

Wandell Seixas ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

O produtor brasileiro tende a se tornar o maior fornecedor de alimento do globo em poucos anos. E alguns enquadramentos serão necessários para atender o próprio mercado consumidor. Setores mais exigentes já cobram das autoridades públicas o respeito ao meio ambiente. O desmatamento desmedido, com ênfase na Amazônia e no Cerrado, já provoca certo frisson no rico mercado consumidor europeu. E observe que essa prática procede dos madeireiros ávidos por um “negócio da China”.

Conforme cálculos do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, a área desmatada na Amazônia até o ano de 2002 era superior ao tamanho do território francês. Segundo os professores Wagner de Cerqueira e Francisco, em Geografia Física do Brasil, isso se deve principalmente à extração de madeira e atividade agropecuária. De acordo com pesquisas do Ministério do Meio Ambiente, foi constatado que 80% da extração da madeira na Amazônia ocorrem de forma ilegal.

A Mata Atlântica perdeu aproximadamente 93% da sua cobertura vegetal, restando apenas 7%. Do território brasileiro, 15% era ocupado pela a Mata Atlântica. Hoje é considerada a quinta área mais ameaçada do planeta. O Cerrado, a partir da década de 1950 intensificou-se o desmatamento em sua área. Isso ocorreu principalmente pela expansão das fronteiras agrícolas e políticas públicas para a ocupação do Centro-Oeste brasileiro. A intensa urbanização e as atividades agropecuárias são os principais responsáveis pelo desmatamento do Cerrado. Conforme estudos do Ministério do Meio Ambiente, 67% do bioma sofreram modificação.

Se o agropecuarista brasileiro der brecha, a onda negativista ao sistema produtivo do País pode sofrer sanções legais e de mercado. Há uma nova campanha em andamento. Agora contra o uso de agrotóxicos, sob o argumento forte por sinal de que o Brasil é campeão na sua utilização. A campanha tem até um fundo ideológico quando se arremete contra o transgênico.

“Os venenos têm isenção de impostos e prejudicam a saúde,” está escrito num folheto distribuído na feira Agro Centro-Oeste. “O agronegócio, além de usar agrotóxicos e transgênicos, não gera emprego e não produz alimentos”, acrescenta o texto. Fica no esquecimento que o agronegócio é responsável atualmente por 23% do PIB nacional e o Brasil não parou por inteiro porque o segmento responde de forma positiva pela economia nacional. Nem por isso, deve poluir o meio ambiente, claro, mas não se pode ignorar o seu lado positivo na própria geração alimentos farto, empregos e impostos.

Pelo que se depreende, todo cuidado é pouco. E acredito que em muita coisa o produtor brasileiro deve se ajustar para melhor atender aos consumidores nacionais e internacionais. A própria FAO, braço da ONU para a agricultura e o abastecimento, e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), elaboraram uma cartilha para que a extensão agrícola atue junto às comunidades rurais da África para reduzir a exposição de crianças aos pesticidas tóxicos usados na agricultura. Não tenha dúvida. Dos países africanos, logo esta cartilha estará disseminada por todo o mundo e o Brasil não ficará ausente.

Segundo a FAO, cerca de 100 milhões de crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos estão submetidas a trabalho infantil na agricultura, de acordo com estatísticas da OIT. Muitas estão diretamente expostas a substâncias químicas tóxicas, quando trabalham em atividades agrícolas. As crianças também ficam expostas quando ajudam nas tarefas familiares ou brincam nos campos, e por meio da comida que comem e a água que bebem.

As crianças são muito mais sensíveis aos pesticidas do que os adultos. A exposição pode levar a intoxicação aguda e a criança pode adoecer imediatamente após o contato. Mas muitas vezes também há conseqüências em longo prazo – e que podem se tornar crônicas – para a saúde e desenvolvimento. Limitar o uso de pesticidas e promover alternativas não-tóxicas é importante para reduzir a exposição, mas a educação também é crucial.

A nova cartilha da FAO e da OIT: Proteger as crianças de pesticidas!, (Protect children from pesticides!) proporciona uma ferramenta fácil de usar e acessível. Ajuda aos agentes de extensão agrícola, professores rurais, inspetores de trabalho, e as organizações de produtores, a ensinar aos agricultores e suas famílias a identificar e minimizar os riscos em casa e na fazenda. Eles também aprendem a reconhecer e responder a sinais de exposição a substâncias tóxicas.

“A ferramenta foi inicialmente desenvolvida em Mali, onde é agora amplamente utilizada pelos agentes de extensão, as escolas de campo para agricultores, inspetores de trabalho e as organizações de produtores”, disse Rob Vos, diretor da Divisão de Proteção Social da FAO. “Seu uso – acrescentou – também está se expandindo em Níger e em outros países africanos. Estamos vendo um crescente interesse de outras regiões. A cartilha não só está conscientizando sobre a necessidade de fazer alguma coisa, mas também mostra o que fazer”.

Nem todas as situações são iguais. A cartilha está disponível em várias línguas (inglês, francês, português e espanhol e em breve será traduzia ao russo), e também se adapta a diferentes contextos regionais, incluindo a Europa Oriental, o Cáucaso e a Ásia Central, a América Latina e o Caribe e a Ásia-Pacífico. Os gráficos e as ilustrações também se adaptam na mesma medida. A FAO lançou a cartilha durante uma cerimônia realizada no âmbito da Conferência das Partes para a Convenção de Rotterdam (RC COP-7), recém realizada em Genebra.

Por que as crianças enfrentam o maior risco? As crianças são particularmente vulneráveis à exposição de pesticidas por várias razões biológicas e comportamentais. As crianças pequenas freqüentemente brincam no chão, colocam objetos na boca e são atraídas por recipientes coloridos, todos esses são comportamentos típicos que aumentam o risco de uma intoxicação.

 

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista de cooperativismo agrícola pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste e assessor de Imprensa da Emater)

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