Opinião

Bráulio Prego: um goiano na Pauliceia de Mário de Andrade

Pedro Nolasco de Araujo ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

A vida de certos homens transcorre sob um denso véu de mistério. Ouço há muito falar, em família, do poeta e esotérico Bráulio Prego (1874 – 1961), tio de minha avó Mariquinhas e filho do padre e orador sacro da cidade de Santa Cruz de Goiás, vigário Antônio Luiz Braz Prego, de quem certamente lhe veio a inclinação mística. Por se entregar precisamente ao esoterismo é que os fatos de sua biografia não seriam muito claros, não. Oscilando entre o tangível e o intangível. Contam ter Bráulio, muito jovem ainda, nos princípios do século XX, ido estudar na pauliceia e lá fincado raízes. Traduza, quem quiser, este ‘fincado raízes’ por ‘constituído família”. Como toda existência vaga dá margem a muitas crendices, há lendas em torno da misteriosa personagem. Uma crendice, em torno dele, se prende ao fato do escritor, versado em línguas, trasladar escritos de uma versão do grego tão arcaica, tão anacrônica, que nem os próprios gregos conheciam mais.  Tal narrativa deve ser tratada sob reserva e discernimento, por parecer mais com estórias que as pessoas inventam.

No terreno especificamente da concretude história, que constitui objetivamente nosso interesse, dá-se como indiscutível ter Braúlio Prego se vinculado à Empresa Editora “O Pensamento”, inaugurada, a 26 de junho de 1907, pelo esotérico português, Antônio Olívio Rodrigues, que, segundo jornais da época, demonstrava grande interesse por pesquisas psíquicas, obras de filosofia e religiões orientais. Basta salientar quão Olívio Rodrigues se empenhará depois para idealizar o Círculo Esotérico Comunhão do Pensamento, no qual Bráulio exercerá a qualidade de presidente do Supremo Conselho. Uma ideia que, já há muito, calava no âmago do coração de Olívio Rodrigues era formar uma cadeia mental de foco irradiador de boas vibrações das  pessoas entre si, baseada na ciência do magnetismo. Esta pode ser a razão pela qual Bráulio Prego faz, em 1907, a tradução de Magnétisme personnel (1890) de Heitor Durville (1849 – 1923).  Primeira publicação da editora de Olívio Rodrigues e que marca oficialmente a sua fundação. Versão que continua em catálogo na Pensamento, apesar de se achar já em sua 25ª edição.

Houve a propósito, em 2007, uma edição comemorativa de Magnetismo pessoal, que se encontra aí pelas livrarias e sebos, com indicação em letras grandonas assim, “EDIÇÃO DE CENTENÁRIO”, trazendo embaixo dela o seguinte: “mais de 70.000 exemplares vendidos!” A obra que, sendo hoje um clássico da auto-ajuda, gira em torno da educação do pensamento e desenvolvimento da vontade, para sermos felizes, fortes, sadios e alcançarmos êxito em tudo; com figuras explicativas. Mais: “Magnetismo pessoal é uma irradiação de forças internas que todos nós possuímos e que são postas em atividade mediante exercícios respiratórios simples, alimentação equilibrada e, sobretudo, por meio da orientação dos nossos pensamentos para o bem. Como resultado dessa nova atitude moral, física e mental, passamos a atrair a simpatia dos outros e nos tornamos capazes de realizar o que, até então, nos parecia impossível.” Só em 1912, será lançado, a título de órgão do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, o celebérrimo Almanaque do Pensamento, no qual o goiano colabora, que, editado ininterruptamente desde então, atinge hoje vendas acumuladas de mais de 22 milhões de exemplares. Parece que, além de realizar esporádicas traduções para a editora de Olívio Rodrigues, Bráulio se emprega no Diário Popular de São Paulo e redige para o Oráculo. Segundo se lê no Almanack Laemmert,  Rio de Janeiro, 1909, a propósito de O Estado de Goiás: “Braulio Prego, poeta e conhecido literato, empregado na redação do Diário Popular de São Paulo e redator do Oráculo, que também se publica naquela cidade”. Não nos esqueçamos da revista paulista Iracema, periódico literário e ilustrado que, sob a direção de Arthur Rodrigues da Silva, traz o nome do vate goiano no rol dos que colaboram nela, nesta época, conforme edição de janeiro 1901.

Muito menos da revista espiritualista Dhâranâ, mensal ilustrada, direção de Cícero dos Santos, cuja edição número “0”, isto mesmo, “0”, agosto a dezembro de 1925, ano I, apresenta um indício, uma reflexão reveladora de nosso esotérico, segundo a qual “não há Progresso Espiritual sem modificação de gostos, sem purificação de costumes”.

Sete anos depois de Magnetismo pessoal de Durville, Prego chama a si a empreitada de traduzir, sob o selo O Pensamento, a Gitânjali do indiano Rabindranath Tagore (1861 -1901), obra que foi decisiva na concessão, em 1913, do Nobel de Literatura ao seu autor. Com reedição em 1929, pela mesma casa editorial.

Edição brasileira que, contando com a autorização especial do próprio Tagore, tomou por base a edição vertida do bengali ao inglês pelo próprio autor. Onde se lê uma introdução de William Butler Yeats. Cujo título, entre nós da lusofonia, veio a ser A Offerta Lyrica. Obra que, muito antes de 1914, já era sofregamente lida e relida em quase todos recantos do velho mundo, em especial na velha e heráldica Inglaterra.

De modo tal que o goiano fora o primeiro a transpor essa obra primordial de Tagore para o português, seguido pelos nomes de Plácido Barbosa, Francisca de Bastos Cordeiro, Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, Abgar Renault e Ivo Storniolo. Consoante ensaio do escritor e professor de português da Jawaharlal Nehru University de Nova Deli, Sovon Sanyal, intitulado Universalismo de Tagore: As Especificidades da Acolhida Portuguesa (Universalism of Tagore: The Specificities of Portuguese Reception), divulgado na web pela revista Parabaas, a 9 de maio de 2009, “foi Bráulio Prego quem primeiro traduziu Gitânjali para o português no Brasil. Foi publicada na cidade de São Paulo, em 1914”. Catálogo de exposição realizada, sobre Tagore, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a 2 de abril de 1962, com a colaboração de Cecília Meireles, da embaixada da Índia e outras, faz referência a essas duas edições iniciais de Gitânjali. Eis uma prova de como ficou a sua versão:

Aqui estou, para cantar-te os meus cantos.

Nesta tua sala, tenho um pequeno assento.

Em teu mundo não tenho nenhum

trabalho a fazer; mas minha vida

inútil só pode, sem um fim, quebrar

a harmonia.

 

Quando no escuro templo da meia noite,

sôa a hora do culto silencioso,

ó meu mestre, manda-me cantar diante de ti.

 

Quando a harpa de ouro da manhã

enche o ar de harmonia, honra-me,

ó meu mestre, pedindo-me a presença.

 

Concomitante com ou posteriormente à primeira edição de Tagore, o tradutor apresenta no vernáculo uma obra do monge hindu Swami Vivekânanda (1863 – 1902), mentor espiritual da Ordem e Missão Ramakrishna, que difundiu no Ocidente a filosofia da Yoga e da Vedanta. Haja vista ser de 1920 a 2ª edição brasileira de Meu mestre (1901), pela Pensamento, trazendo, como nele se diz, um apêndice extraído da Revista Trimestral Teísta (Theistic Quarterly Review).

Conquanto inexista menção a Vivekânanda nos textos de Tagore, este dissera certa vez, a Romain Rolland, que “se você quiser conhecer a Índia, leia Vivekânanda, nele, tudo é positivo e nada é negativo”. Antônio Olívio Rodrigues considerava, por seu turno, Vivekânanda um dos patronos inspiradores do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.

Seguida tal tradução de outras, que, salvo engano, são versões feitas por Braúlio também: Life beyond death (A vida depois da morte), 1926, 2ª ed.; Practical psychomancy and cristal gazing (Psicomancia prática ou vidência pela bola de cristal), 1940, 5ª ed.; The psychology of salesmanship (Psicologia do comeciante), 1946, 4ª ed.

Quando, a 30 de maio de 1935, a administração humanista e culta do prefeito Fábio Prado, que mais se empenhou pela educação e cultura na pauliceia, criou, através do Ato municipal n. 861, o Departamento de Cultura e de Recreação do Município de São Paulo – DCR, visando conceber um projeto cultural modernista para a cidade e colocando Mário de Andrade na direção dele, houve por bem encarregar precisamente Bráulio Prego,  dentre demais atribuições, de fazer as traduções para aquele órgão. Conforme Antônio Cândido,  “tal departamento destacou-se pela importância às práticas de pesquisa, divulgação e ampliação máxima da fruição dos bens culturais, desde o requinte dos quartetos de corda até o incentivo às manifestações folclóricas, desde a pesquisa sociológica e etnográfica até a recreação infantil pedagogicamente orientada (DUARTE, 1971, p. XVI).”

Mas o tradutor foi, consoante o ensaísta e crítico Gilberto Mendonça Teles em A Poesia em Goiás,  “também um bom poeta do início do século XX. Altamente credenciado, procurou fugir totalmente à influência de seu tempo – pesadamente romântica – escrevendo versos cujas características são acentuadamente parnasianas. Foi dos primeiros a refletir influências de Bilac.” Segundo informações do Dr. Xavier Júnior, Bráulio Prego publicou, já no fim de sua vida, um livro de versos esotéricos, distribuindo-os entre amigos”. Gilberto transcreve, à página 315 dessa obra, o Soneto (1) que Gastão de Deus põe no Parnaso Goiano. Leia-o:

Amo os feitos dos heróis, homéricos, brilhantes;

De uma rubra epopeia as lutas gloriosas

E as proezas da batalha e as notas clangorosas

De tubas marciais em punho de gigantes.

 

Aquele arrojo audaz de heroicos navegantes

Do proceloso mar nas ondas furiosas,

O feito secular, as obras portentosas

Dessas forças geniais, titânicas, possantes.

 

Os louros da vitória e bélicas façanhas,

As águias demandando o dorso das montanhas

E os Hércules vencendo a sanha dos leões.

 

Tudo que de sublime a natureza encerra:

O sol frechando de ouro a crista de uma serra

E o mar espadanando em glaucos vagalhões.

 

Segundo José Lobo ou J. Lupus, nº 4 da revista Oeste, Bráulio Prego possuía dois livros, Folhas Esparsas (1895) e Austrais, de que, admite Gilberto M. Teles, “infelizmente, não temos notícias”. É ele verbete da Enciclopédia de Literatura Brasileira da Global Editora,  que, a par dos livros de versos acima, relaciona mais este outro do vate goiano, Epopeia social e rimas diversas (1898). O que causa espécie é que, ainda que vivendo no epicentro da efervescência modernista, que foi São Paulo, mantendo certamente contato com Mário de Andrade, mesmo no Departamento de Cultura e de Recreação do município bandeirante, Bráulio Prego não se deixou abraçar pela nova estética, preferindo manter-se fielmente parnasiano. Para fechar este escrito, o leitor tem embaixo este seu As pérolas:

Profundamente, o mar profundo olhando,

o pescador de pérolas medita:

e aquela por quem sofre, está pensando,

quer a joia mais rara e mais bonita.

 

O negro mar soluça, e, soluçando,

no escuro abismo se balouça e irrita;

mas pelo amor do olhar tranquilo e brando

o coração do pescador palpita.

 

Desce às entranhas úmidas e frias

e sai de lá tristonho e – mãos vazias –

desce outra vez, surge outra vez tristonho.

 

E quando, exausto, a fronte ensanguentada,

tenta buscar a praia desejada,

o engole o mar num vórtice medonho…

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás, em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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