Opinião

Dinheiro é uma merda

Marcus Vinícius Beck,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Tenho uma forte ligação com a contracultura. Descobri Satre – pai do existencialismo – e passei a acreditar que “estamos condenados a ser livres”. O francês iniciou sua carreira acadêmica nos anos 30, quando escrevera a A imaginação – um ensaio que transita entre Filosofia e Psicologia. “A imaginação é infinita”, afirma na obra. Nesta época – década de 30 – Satre era considerado alienado por não dar a mínima à política. Ele viva bêbado, quando estudante, junto de Simone de Beauvoir, sua esposa. O casal jamais constituíra uma família aos moldes da classe média. Satre viva a perambular de hotel em hotel, escrevendo ensaios, críticas, romances, teses, peças de teatro. Nenhum intelectual produziu quanto ele.

Disseram-me que não poderia experimentar drogas. “Quem usa droga merece morrer”, falou, com veemência, meu avô. Eu apenas fitei-o. E lembrei-me de uma frase de Timothy Leary – que foi psicólogo de John Lennon e guru da contracultura: “As drogas enlouquecem quem não as usa.” Por que não podemos usar drogas? Elas fazem mal? Mas o remédio que tomamos incessantemente, também, não faz mal? Assim, neste contexto de repressão, fomos descobrir as drogas. Com o tempo, passamos a ver que heroína não é legal, que cocaína pode levá-lo para o fundo do poço, que acido lisérgico (LSD) nunca levou ninguém ao hospital – a única coisa que pode acontecer se você encher a cara é pirar. E maconha, tão execrada, não causa porra nenhuma. A única coisa que ela faz é deixa-lo lesado, com o raciocínio lento.

A arte dos anos também fora influenciada pelo ácido lisérgico. Os hippies usavam LSD e tinham devaneios surreais. A estética acadêmica e tradicional não via com entusiasmo os beats e o fluxo de consciência deles, com períodos longos e livres. Jack Kerouac escreveu On the road em apenas três semanas. A escrita da obra é repleta de café e benzedrina. Allen Ginsberg – poeta e amigo de Keroauc – lidou com a censura, quando lançou Uivo e Outros Poemas, em 1956. A obra fora acusada de ser obscena. No Brasil, Glauber Rocha, que em suas palavras tinha “apenas uma câmera e uma ideia na cabeça”, filmou a sociedade brasileira e as amarguras dela. Glauber fazia parte da tropicália, juntamente com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquarto Neto – este na poesia e aqueles na música.

O curioso é que no ácido fizeram-se grandes artistas. Mas a percepção dos eruditos não era muito otimista. E ainda assim ouve Hendrix, Doors, Joplin, Airplane e outros. Os Beatles, inclusive, chegaram a afirmar que graças ao Timothy Leavy, eles fizeram White Album, em 1968. Raul Seixas cantara, em Sociedade Alternativa, o sonho de sociedade da geração do amor. Uma sociedade sem regras, leis, em que tudo era perfeito. “Viva a sociedade alternativa”, afirmava Raul na música.

Nesta época o movimento feminista crescia. Paralelo a ele, nascia a liberdade sexual. Os hippies acreditavam que o sexo com dinheiro, deixava a áurea libertadora de lado em prol do capital. Mas hoje nos habituamos a conformarmo-nos com quaisquer tipos de descriminalização, seja racial, intelectual, cultural; sempre procuramos acreditar que os nossos modos são errôneos. Deparamo-nos com preconceitos clichês. E assim fechamos os olhos. Procuramos não ver o que há na sociedade. Não fumamos maconha porque somos discriminados. Creio incessantemente na liberdade. Somente ela livra-nos das amarras e amarguras. Não quer usar drogas, não as use. Eu até acho melhor, sabe. Quer biritar? À vontade. Você sabe o que faz, afinal é condenado a ser livre. Drogas todos usam. Contudo, algumas inventaram que são ilícitas. E outras lícitas.

A sociedade precisa da dialética e da dicotomia dos fatos. Não podemos, jamais, ter opiniões pré-fabricadas. Temos de analisar e refletir. Normam Mailer – um dos percussores do new journalism dos anos 60 – lançou, em 1965, Um sonho americano, obra que relata o modo de vida estadunidense. Mailer dera vida a Stephen Rojack, um herói de guerra, intelectual que tem o próprio programa de televisão. Além disso, ele era casado com uma bela mulher. No entanto, durante uma discussão, Rojack mata-a. E por longas páginas entramos na cabeça do protagonista. “O leitor não se entediará com Um sonho americano se tiver a paciência e senso-crítico suficientes para buscar na literatura um complemento e uma elucidação do fermento confuso de nossa era”, escreveu Paulo Francis, no prefácio da obra.

Os hippies, sim, eram sábios. Eles não queriam viver uma vida programada, com sucesso e reconhecimento profissional. Então decidiram morar em comunidades, sempre com o principio da liberdade norteando-os. Como eu queria chutar o balde. A vida é uma merda. As expectativas são uma merda. O cara que se sentou ao meu lado, com seu cigarro entre os dedos, é um merda. Todos somos uns merdas, porque vivemos uma vida que não é nossa. Nutrimos sonhos distantes. Angariamos bens materiais. Dispensamos um papo cultural. Queremos, simplesmente, a futilidade. E, se em grandes quantidades, melhor ainda. O dinheiro é uma merda.

 

(Marcus Vinícius Beck, estudante de Jornalismo da PUC)

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