Opinião

Fortunato e a pinguela

Vanderlan Domingos de Souza ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Fortunato era um pequeno agricultor, filho único, solteirão, trabalhador incansável, de boa estatura, olhos azuis, cabelos castanhos emaranhados até os ombros e morava com os pais à beira do Rio Corrente num longínquo rincão do mato grosso goiano. Certo dia, cansado das desventuras, começou meditar sobre como atravessar o rio, já que a única ponte de madeira ficava a cinco quilômetros de sua casa, então, sentou-se à beira de um barranco e começou a pensar… A solução era construir uma pinguela para encurtar o caminho. Do lado de lá, depois de atravessar a densa mata, chegaria mais rápido a igrejinha que em razão da distância participava pouco, e a construção dessa travessia era a solução, pois sabia que encontraria lá a linda jovem, professora, que faziam olhos brilharem e o coração bater mais forte. Ela possuía uma silhueta muito elegante, pernas torneadas, cabelos loiros, compridos, que quando sacudidos pelo vento, deixava Fortunato encantado. E não era miragem. Avexado, nem se atrevia a acenar com as mãos quando saía da celebração, ou mesmo quando passava perto da escola e ficava observando-a dando aula às crianças do pequeno povoado. Aqueles momentos inusitados mais pareciam um sonho e a construção da pinguela era a única forma de alcançar esse sonho, ou talvez, acordá-lo para a vida.

Sabendo que a travessia era insegura e a sensação de não conseguir alcançar a outra margem poderia ser sentida a cada passo, mesmo assim não titubeou, cortou uma enorme árvore que ficava às margens do rio e a ponta cheia de galhos caiu do outro lado. Foi até lá, equilibrando-se no tronco tal qual a um macaco, conseguiu aparar os galhos, tirar as lascas como faz um escultor e ainda amarrar umas tabocas na lateral com a ajudada de uma escada para ajudar no equilíbrio. Pronto! Estava construída a formosa pinguela. Ficou observando a sua arte, chegou bem perto do barranco, olhou para baixo e sentiu-se como se estivesse num prédio de dois andares e depois, lembrou-se que além do medo de altura sofria de labirintite e ao podar os galhos sentiu isso. Entretanto, para quem sentia medo e não tendo alternativa, se viu obrigado a enfrentar a sensação da travessia, até porque precisava  encontrar aquela mulher.

Passados alguns anos visitei Fortunato e numa tarde quente de verão, enquanto o sol se escondia no horizonte, fiquei observando atentamente aquela pinguela e aí me veio à mente que a nossa vida está repleta de momentos semelhantes. Muitas vezes somos forçados a atravessar situações difíceis, sem nenhuma segurança e equilíbrio. Muitas vezes pensamos até em retroceder ou sentar a margem daquilo que achamos impossível construir. O impossível no mundo de hoje é sobreviver ou viver em linha reta, avançar e superar obstáculos. A menos que a opção seja por não amadurecer e não crescer, mas sabendo que ultrapassar obstáculos faz parte do itinerário de qualquer ser humano. Chegará o dia em que será necessário que levantemos nossos próprios voos e experimentemos novos ares, pois somente consegue sucesso quem  avança independentemente da situação em que se encontram como foi o caso de Fortunato Simão Filho que enfrentou o seu medo e pode alcançar na outra margem o seu grande amor.

Vivemos num mundo de altos e baixos, mesmo para aqueles que se dizem seguros quando chegam ao ponto final.  Na estrada da vida muitas vezes somos quase que obrigados a passar por algumas “pinguelas” que balançam nossa estrutura interior. Damos alguns passos, chegamos a vacilar e muitas vezes nem damos  conta de que não há consistência quanto à direção a ser seguida, não obstante sabermos da necessidade de ir adiante mesmo não tendo toda a certeza e segurança necessárias para alcançar o que almejamos. Quando conseguimos passar pela pinguela da vida e pisar em solo firme é sinal que vencemos os obstáculos, superamos nossas limitações e sentimos mais leves e fortalecidos. A nossa vida é cheia de “pinguelas” e não adianta a gente querer se desviar delas, pois elas surgirão ao seu tempo e quando surgirem, nada de receio e ansiedade, pois, depois do esforço empreendido, vem à alegria de termos conseguido alcançar do lado de lá pessoas que ansiávamos encontrar e hoje a felicidade de tê-las com a gente do lado de cá, como aconteceu com Fortunato.

 

(Vanderlan Domingos de Souza, advogado, escritor, missionário e ambientalista. É vice-presidente da União Brasileira dos Escritores; presidente da ONG Visão Ambiental; membro da Academia Morrinhense de Letras; foi agraciado com Título Honorífico de Cidadão Goianiense. Escreve todas as quartas-feiras. Email: [email protected] Blog: vanderlandomingos. blogspot.com Site: www.ongvisaoambiental.org.br)

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