Opinião

Império do Divino em Jaraguá

Fátima Paraguassú,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

De acordo com informações do portal da Câmara Municipal no link “Historia de Jaraguá” a “marcha para o oeste, a maior procura de terras agricultáveis, a implantação da Colônia Agrícola Nacional resultou no surgimento das cidades de Ceres e Rialma e, por último, a construção da Capital Federal (Brasília) proporcionaram um impulso desenvolvimentista no município de Jaraguá. A produção econômica alterou-se substancialmente, voltando-se mais para a comercialização da produção. Assim, a partir da década de 1940 houve um crescimento urbano significativo. No início dos anos de 1960, Jaraguá sentiu os impactos decorrentes da construção da BR-153, mudando o ritmo de seu crescimento, ganhando oportunidades para ocupar o papel de núcleo comercial, dinamizando sua expansão urbana. Na década de 80 a cidade de Jaraguá vê crescer o domínio das máquinas, elevando-a ao título de Capital das Confecções. Dos tempos da prosperidade aurífera aos dias atuais a cidade passou por diversos processos que a fizeram se destacar entre os mais prósperos municípios goianos e seu crescimento se dá continuamente”. (Fonte: http://www.camaradejaragua.go.gov.br/index.php/historia-de-jaragua).

Uma mesma ação com diferentes resultados: a construção da BR-153 que fez prosperar Jaraguá provocou o declínio de Santa Cruz de Goiás como sinalizam Hugo Leonardo Casimiro e Maria do Espírito Santo, no livro Mulheres negociantes em um porto do sertão: “Durante praticamente todo o século XVII e XIX, Santa Cruz fora um importante entreposto entre os sertões dos goyases e o litoral. Por lá passava a ‘picada de Goiás’ que ligava Cuiabá, Vila Boa, Meia Ponte ao Triângulo Mineiro (Sertão da Farinha Podre) e São Paulo. A estrada de ferro desviou o caminho para leste e a BR-153 para oeste. Santa Cruz ficou cravada nas serras entre o Rio do Peixe e Rio Corumbá.  Como uma dama antiga, altaneira, vigorosa, acrisolou-se nos contrafortes de sua própria idade e soube resistir ao abandono a que foi relegada pela incúria do passado.”

Usando o questionamento (em relação à chuva) de Mia Couto em seu conto “Chuva: a abensonhada”, em Estórias Abensonhadas, Lisboa: Editorial Caminho, 1944: “Será que ainda podemos recomeçar, será que a alegria ainda tem cabimento?” Santa Cruz de Goiás, em seu papel recorrente de mãe devotada, sobrepujando a bipolaridade governamental: ora anima, ora desanima; desalinha… Mesmo com tantos atropelos consegue, temporariamente, se alinhar. Desenvolvimento e declínio: Produto Final dos “Projetos Administrativos”. Tudo depende da intenção do “grupo” que a administra.

A necessidade recorrente de aprender e apreender; conhecer outros modos de vidas, costumes, saberes, fazeres, falares fez-me aceitar o convite para conhecer a Festa de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo de Jaraguá. Vi de perto, o que sempre narrou, animadamente, Pauliane, Paulo Vitor, João Luiz e Altair.

No sábado vivemos uma nova e, ao mesmo tempo, secular profissão de Fé e devoção relacionada com o mistério do dia: “Entrada da Rainha”, ponto culminante da festa, quando fazem a transição da festa do Divino realizada na matriz Nossa da Penha para as festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, realizadas na segunda e terça-feira, na capela de Nossa Senhora do Rosário (primeira capela construída em Jaraguá em frente à primeira rua, denominada “Rua das Flores”). A “Entrada da Rainha”, cortejo acompanhado por mais de mil cavaleiros do município e das regiões limítrofes; carros de bois; cavaleiros da cavalhada adulta montados em seus exuberantes cavalos e cavaleiros da cavalhadinha montados em cavalos de pau; charretes; catupé de Catalão; congo; escolas; santos homenageados em diversas capelas do município; festeiros mirins… Súditos. Tudo isso em um desfile, pela principal avenida, mostrando o que continua preservado e o que fora extinto, como por exemplo, a contradança (pau de fitas) a dança dos tapuios. Uma prática que perdurará a muitas e muitas gerações pela participação efetiva de crianças.

Nas tarde de sábado e domingo apresentação da tradicional cavalhada. No primeiro dia “embaixadas”; no segundo dia, prisão dos mouros, conversão ao cristianismo e batismo simbólico; finalizando com a esperada “carreira das argolinhas”.

No domingo, manhã ensolarada, clima festivo, sentamos em frente à matriz Nossa Senhora da Penha para tomar café em um quiosque (meu filho Weverton Paraguassú Teixeira e eu). Observamos a influência de outras culturas nas construções e traçados das ruas. Foi um breve transportar para a cidade portuguesa “Olhão”, no Distrito de Faro, região e sub-região do Algarve/Portugal. Uma semelhança nas edificações da matriz Nossa Senhora da Penha e o mercado de Olhão. Enquanto comentávamos sobre as similitudes das construções tivemos a nítida impressão que à nossa esquerda estava a marina de Olhão e do nada surgiria ondas de um mar imaginário causadas pelo ir e vir de navegações também imaginárias. De repente ouvimos cânticos, responsórios e eis que surge na avenida o “cortejo do Divino”. Uma belíssima e escultural imagem acomodada em um andor, ricamente, ornamentado; fervorosamente conduzido por cavaleiros da cavalhada, guiado por estandartes. Outra semelhança com a cidade de Olhão por ser o “largo do mercado o local onde as procissões atingem a maior solenidade, fazendo a sua paragem para lançarem as bênçãos à frota pesqueira”.

Nos aspectos dos festejos de Jaraguá que assemelham a outras práticas culturais, fez- nos volver o pensamento à Santa Cruz de Goiás, ao visualizarmos à frente do cortejo do Divino, Imperador e Imperatriz  (festeiros)  trazendo  em suas mãos o cetro e a coroa que a todo momento eram reverenciados e beijados pelos fieis.  O cetro, a coroa; a distribuição de alfenins após a missa de Pentecostes em Jaraguá, símbolos e ritos presentes na primeira apresentação das cavalhadas no estado de Goiás quando Padre Francisco Gouveia de Sá Albuquerque, pároco de Santa Cruz daquela época, solicitou ao padre José Vicente de Azevedo Noronha e Câmera, Vigário Capitular, procurador, que respondia pela Prelazia de Goiás diante da Coroa e a Santa Sé, permissão para correr Cavalhada nas festividades de Pentecostes, em Santa Cruz de Goiás. Padre Francisco José Gouveia de Sá Albuquerque, ao solicitar a apresentação da cavalhada em Santa Cruz de Goiás, argumentou o isolamento do povo neste sertão dos Goyases: “A falta de lazer e divertimento está desviando as almas para as festas profanas  nos pagodes e vida mundana.” Diante da argumentação do pároco, o Vigário Capitular, concedeu a autorização, sendo apresentada a primeira Cavalhada do Estado de Goiás, em Santa Cruz de Goiás, no Largo da Matriz, onde hoje está a Casa de Câmara e Cadeia,  ano de 1816, tendo como primeiro Imperador da Festa do Divino, padre Francisco José Gouveia  de Sá Albuquerque, relembrando a vitória dos Cristãos sobre os “sanguinários” Mouros (pretos, pagãos e infiéis) de origem árabe e religião islâmica que invadiram a Península Ibérica.

Padre Gouveia mandou confeccionar o cetro e a coroa de prata pura e a bandeira do Divino Espírito Santo; e, ainda, mandou fazer “pãezinhos do Divino”, uma espécie de rosca da rainha, besuntada com calda caramelada de açúcar, que depois de benzida eram distribuídas de casa em casa do vilarejo como gentileza e cortesia do Imperador, além dos alfenins, afirma o atual Pároco de Santa Cruz, padre Ronam, de acordo com documentos encontrados na Cúria Diocesana de Ipameri. Haspasiano Dagomano foi o primeiro a ensinar  a arte de encenar as cavalhadas em Goiás.

Presenciar os festejos de Jaraguá, apesar de me ausentar de Santa Cruz, foi um ganho em conhecimentos, reafirmação de amizades e intercâmbio de estudos dos e sobre os “festejos do Divino” (parte religiosa e profana) com todas as manifestações culturais incluídas.

Nossos agradecimentos pelo convite e calorosa recepção de Pauliane Oliveira Azeredo, pela também calorosa recepção de Paulo Vitor Avelar, prefeito sr. Ival, primeira-dama sra. Divina, secretária de Cultura sra. Maura e todos os demais. Agradecimentos à confortável e aconchegante hospedagem na residência de Hamilton Morais e Lívia, junto aos seus filhos Augusto e Hamilton Filho, além da companhia agradável da amiga e vizinha  Altair de Morais Vaz.

“A criatividade faz a grandeza da Cultura, na simbologia vivida!” Viva o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Rosário e São Bendito!

 

(Aparecida Teixeira de Fátima Paraguassú, historiadora, pesquisadora, poetisa, escritora, musicista, presidente da Associação dos Amigos de Santa Cruz de Goiás… [email protected])

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