Opinião

Literatura na infância

Leonardo Teixeira,Especial para Diário da Manhã

diario da manha

 

Gratidão, missão e prazeres muito próximos: o bombeiro que salva uma vida, o reacionário que liberta um escravo, o crente que converte um amigo, o professor que consegue ensinar uma difícil lição, o escritor que consegue despertar o prazer pela leitura numa criança…

Não há como sair a mesma pessoa após a leitura de um livro. Ao menos um pouco mais de experiência, sentimento, sabedoria, ou ainda que uma história para contar. O livro desperta a cognição, a inteligência, a criatividade, a linguagem etc.

Vivemos numa era onde as crianças são influenciadas pelos modismos das telinhas dos entretenimentos. A TV, os jogos, a intenet moldam os comportamentos de tal forma que uma nova massificação é formada a cada tempo. Essas telas são parafernálias da recreação, onde tudo é um espetáculo circense, um festival cômico e trágico da humanidade, por onde passam contadores de história, cantores, malabaristas, esportistas e algumas celebridades entrevistadas com suas frases vazias de efeito.

Grande parte dos alunos não tem boa percepção global e possuem pouca leitura de mundo. Continuo a bater na velha tecla da criatividade e das histórias que estimulam ao hábito de leitura. O gênero fantástico continua sendo bem aceito pela garotada. O excesso da TV e dos jogos deixam o cérebro passivo e lento. As telas são portais da passividade. A criança não tem nem o trabalho de criar a imagem do personagem.

Para piorar a situação, há escolas que não tem nenhum critério de adoções de livros literários, inclusive nas comissões das Secretarias de Educação, quando adotados nas escolas. Há livros com conteúdo violento, de baixo calão, erótico ou sem qualidade textual. Todos parecem ser indicados por vantagens econômicas, privilégios culturais, pela amizade, pelo compadrio e o conchavo, levando inúmeros livros a serem inseridos em listas de adoções em escolas, vestibulares etc.

Tenho visto que autores como Edgar Allan Poe e HP Lovecraft, de certa forma tidos por alguns como autores pesados de literatura de mistério e terror, na verdade fazem um sucesso danado com a garotada.

Por experiência própria posso falar de um livro infantil chamado Robotecos que publiquei. Ele tem uma história pura, sensível e doce, que contribui com a autoconfiança infantil. Ele foi feito com desenhos no Paint Brush, aquela ferramenta que já vem instalada no windows e que toda criança brinca. Tem atividades, desenhos para colorir etc. Mas muitas crianças preferem o livro As sombras do dia. Livro para adultos, no gênero fantástico. São histórias absurdas de mistério, terror e loucura. Muitos pimpolhos o adoram nas escolas onde passei.

Conteúdos inadequados não podem ser oferecidos a pequeninos seres com espírito crítico em formação. O efeito colateral é o que vemos quando crianças muito novas são assíduas telespectadoras de novelas. Por haver traições, vadiagem, e uma série explícita de degradações familiares, as cenas tornam-se inapropriadas para menores.

Estudiosos da literatura infantil apontam que os livros voltados para esse público nas escolas devem ser repletos de atrativos que estimulam a leitura, propiciam o desenvolvimento psicológico, humano e educacional; o livro infantil é instrumento da cidadania e deve ser lúdico, imaginativo, de tal forma que o imaginário da criança possa ficar de frente com o seu mundo de fantasia e inocência.

A literatura infantil a ser trabalhada nas escolas pode muito bem trabalhar o medo externo e interno. São os primeiros lampejos para a obediência às leis, normas sociais, as superações internas e os princípios da crença. É um ato recíproco com a expressão do mundo interno.

A leitura é a única que atinge o inconsciente, o consciente e o subconsciente. Nossos olhos só enxergam os reflexos iluminados e a nossa consciência só assimila o que reflete linguagem. Por isso, apesar do aparente paradoxo de transcrever imagens inconscientes para a ficção literária, ainda que carregadas de absurdo, a leitura ilumina com a força da linguagem os lugares do inconsciente até então intocados. Se há diversos limites no mundo, não há limites em nossa imaginação.

Muitas escolas brasileiras não se preocupam com a cultura local, com o incentivo de adoção de obras locais das escolas. Muitos educadores preferem desconhecer as coisas de nossa terra e simplesmente restringir suas aulas nas cartilhas tradicionais desatualizadas. Esses dias tive a oportunidade de comparecer em escolas diferentes. E despertar o interesse pela leitura numa criança é extraordinário. A criança hoje é o adulto de amanhã. Se ela tiver contato com a informação necessária, seremos um país bem melhor no futuro. Até a próxima página!

(Leonardo Teixeira, escritor)

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