Opinião

Não ria, ronco é coisa séria

Eudecio Melo ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Quando se fala de ronco, a primeira manifestação que vem em nossa mente é de um pequeno sorriso. Mas quando estamos numa roda de amigos ele toma proporções de piada e chacota. Na prática ele é visto socialmente basicamente de três formas: motivo de piada entre amigos, constrangimento velado ou declarado de quem ronca ou como incômodo para quem dorme ao lado. E olha que às vezes incomoda até mesmo quem dorme em outro quarto.

Você seria capaz de rir quando alguém, bem próximo, lhe pede socorro  diante de uma ameaça de perigo? Não há a menor graça quando vemos alguém que tanto amamos  numa situação de desconforto, ou iniciando um processo de doença, como por exemplo um aumento da pressão arterial, ou processo de depressão. Seria capaz de rir de alguém diante da possibilidade contrair sobrepeso, impotência sexual, diabetes, câncer, infarto ou AV? Provavelmente não. Afinal não teria a menor graça ver seu pai, mãe, cônjuge ou grande amigo correndo perigo e sair fazendo piada sobre os riscos iminentes. Quase todos nós já tivemos a oportunidade de assistirmos alguém roncando ou em estado de  apneia, quando  a pessoa fica  sem respirar por alguns instantes. Embora muitos zombem desses momentos, eles existem como um pedido de socorro. De uma maneira em geral somos solidários diante de um processo de doença ou uma tragédia. A primeira reação é a de querer ajudar.

Entretanto fazemos piadas das pessoas que roncam. As consequências da apnéia se manifestam muito lentamente, ao longo de vários anos. Daí a razão de se ignora-las. É preciso mudarmos este conceito, o ronco nada mais é do que uma manifestação do organismo anunciando que o mesmo se encontra em perigo. Uma manifestação fisiológica involuntária. Decorrente da redução do espaço para passagem do ar na região da orofaringe – garganta. E olha que ele por si, incomoda mais quem dorme ao lado, do que a própria pessoa, entretanto cerca de 95 por cento das pessoas que roncam, apresentam apneia – aquelas inúmeras paradas respiratórias por alguns segundos enquanto dormimos. E essa sim é extremamente prejudicial à saúde. Assistir alguém em estado de apnéia é uma experiência nada agradável. Parece que ele vai parar de respirar, em definitivo, a qualquer momento.

A apneia do sono é extremamente prejudicial à nossa saúde. E ao contrário do ditado popular que ronco é coisa de homem, isso não condiz com a realidade. O fato é que na fase reprodutiva da mulher, da primeira menstruação à menopausa, a cada nove homens, um mulher apresenta algum tipo de distúrbio do sono; entretanto, após a menopausa a relação é de um pra um. Ou seja homens e mulheres apresentam os mesmos problemas. E o curioso é que as mulheres são as que mais procuram tratamento. Após 60 anos cerca de 70% da população ronca. E temos uma curiosa relação de duas mulheres para cada homem em tratamento. E há boas notícias de tratamento. Os aparelhos intra-orais confortáveis apresentam eficiência comprovada para a maioria dos casos. Cpaps modernos oferecem conforto e qualidade de vida quando bem indicados. E há casos cirúrgicos muitíssimos bem resolvidos.

É preciso uma reflexão mais ampla no sentido de conhecimento e orientação social com relação ao ronco. Ele é coisa séria e não um motivo de piada. E deve ser tratado tal. Se você realmente gosta de alguém  que ronca, não ria, estimule-o a procurar tratamento com médicos e dentistas especialistas no assunto. Talvez a melhor maneira de ajudar seria uma filmagem com um celular do “sono profundo”, dela. Evidentemente essa gravação é privada e deve ser compartilhada somente com fins de orientação. Costuma dar um choque e estimula a procura por tratamento. Você pode ter uma agradabilíssima surpresa. No mínimo você estará contribuindo para uma maior quantidade e qualidade de vida. Afinal o ar que respiramos é o nosso primeiro e mais precioso alimento.

 

(Eudecio Melo, médico)                       

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