Opinião

O silêncio e a sombra

Elias Neto ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Elis chegou a Roma com um sentimento estranho em seu coração. Era, em verdade, um tanto quanto esquisito, nem bom e muito longe de ser ruim.

Algo bem inexplicável, realmente.

Sua cabeça estava tergiversando os mais diversos pensamentos que lhe vinham à mente, de tal sorte que fora até mesmo difícil soltar o cinto de segurança após o pouso.

Elis parou e pensou em seus pais. Eles estiveram na Itália muitas vezes em anos passados. Na verdade, a Itália possuía, para eles, um especial significado. Para Elis, apenas a lembrança de algo que não havia presenciado, não ainda.

Um homem barbudo e um tanto impaciente, de repente, interrompeu os pensamentos dela:

– Signora? Mi scusi, signora!

O avião havia pousado há dez minutos e Elis estava ainda sentada em sua poltrona, impedindo o desembarque dos demais.

“Que vexame”, pensou.

Roma possui uma magia especial em seus ares. É bem diferente das luzes de Paris ou da apaixonante arquitetura de Viena. Obviamente, Roma é apaixonante por si só, e Elis, ao sair do aeroporto, não conteve o sorriso leve em seu rosto, causado pelo frescor da brisa de outono. Foi como reencontrar alguém que nunca antes havia conhecido.

Embora nunca houvesse estado naquela cidade, algo de familiar e peculiarmente bom aguçava seus sentidos. Elis sorria a todo instante, sentindo-se parte de toda aquela velha novidade, mesmo não sabendo falar quase nenhuma palavra em italiano.

Sua mãe sabia! Ela havia ensinado a filha enquanto criança, mas a língua não fora levada a sério por Elis. Talvez seja essa uma daquelas coisas que os filhos não aceitam dos pais, por mais amor que tenham deles recebido.

E Elis sabia que podia compreender muito mais que falar. Fazia parte de seu sangue e suas raízes, fincadas àquela terra, gritavam-lhe surdas palavras de dor. Uma dor boa, de retorno ao lugar que sempre lhe havia pertencido.

Mas Roma era, ainda, apenas uma escala na viagem.

Claro que fazia parte do roteiro, mas não era à Roma que ela havia retornado.

Em sua bagagem, além das memórias, uma pequena valise que havia trazido de sua cidade natal, levada a colo, denunciava aos demais sua condição de viajante.

Na estação de trem, segunda parada em Roma, comprou seu bilhete para Veneza. Outra viagem iria começar.

Na verdade, somos todos viajantes nessa história toda. Em cada coração de cada transeunte, havia um conto diferente. Um livro inteiro, cheio de capítulos muito diferentes dos nossos.

E, entrando em seu vagão, ela se desequilibrou, esbarrando em um dos muitos livros que estavam naquela biblioteca.

Atônita e sem saber o que falar ou como reagir, apenas passou os olhos pela lombada, tentando ler algum título escondido naquela pessoa.

E, achando-se um tanto impotente, percebeu que havia perdido a respiração:

– Desculpe – falou, em português, esquecendo-se de onde estava.

O homem sorriu. Através de seus óculos via-se um olhar feliz:

– Você deveria prestar mais atenção! Se eu não estivesse aqui, você provavelmente teria se machucado!

Elis fitou o rapaz. Ele, alto e magro, não possuía nada que lembrasse um príncipe troiano. Mas seu sorriso e a forma de falar fizeram-na ficar desconcertada.

E, como não conhecia ninguém naquele trem, além do estranho viajante, a única coisa que conseguiu dizer, dentre as milhares que internalizou, foi “obrigada”.

Ele, então, a ajudou a levantar-se e, através de um sorriso, retribuiu a gratidão de Elis, que tentou desviar o olhar.

O trem finalmente deixou a cidade eterna. Seu balanço lento, quase imperceptível, não causava nenhuma estranheza aos passageiros. Na verdade, o avanço tecnológico havia proporcionado tantas coisas boas às pessoas, mas algumas sensações singelas e maravilhosas, como mandar cartas e sentir o balançar da locomotiva simplesmente foram suprimidas e deixadas para trás.

Elis dava valor às coisas simples, aos detalhes, ao essencial, que é invisível aos olhos, como já disse o escritor. Embora fosse muito nova para ter viajado em um trem capaz de sacudir, ela sentiu falta até disso.

Lembrou-se de sua mãe, Helena, uma mulher virtuosa que também dava muito valor à simplicidade das coisas, como à sombra do vento, à música dos livros e ao sorriso das pessoas. Ela adoraria vivenciar esse momento de Elis, mas, certamente, sentiria falta daqueles detalhes.

E, como Elis sentara na janela, pôde imaginar-se como personagem daqueles lugares por onde o trem passava. E caiu no sono:

– Signora? Signora? – repetia insistentemente o comissário, em meio ao vazio daquele vagão.

O trem havia chegado a Veneza e todos os demais passageiros já se encontravam do lado de fora. Ela desculpou-se e saiu em direção à porta.

Fora da estação, uma pequena e agradável comitiva de músicos sorridentes segurava uma placa com o seu nome. Elis sorriu e, caminhando ao encontro deles, logo perguntou pelo intérprete. Estava faminta. Todos riram.

Elis, na verdade, era uma aclamada regente que, descoberta pelo público, apenas iniciava sua carreira internacional. Veneza foi escolhida para sediar sua primeira apresentação a esse nível.

E, como Veneza requer surpresas, seus amigos logo a levaram a uma festa que haviam preparado. Era algo simples, mas temático. Tinha máscaras e todo o resto. Elis riu e se divertiu terrivelmente! Observava desconhecidos disfarçados, escondendo-se atrás de máscaras venezianas, rindo. Para ela, aquilo não fazia o menor sentido! Ela não conhecia ninguém!

Mas aquele lugar lhe trazia paz. Uma paz que há muito tempo buscava em alguém, mas que só a euforia da festa pôde, até então, proporcionar.

No dia seguinte, pela manhã, en-saios. Uma feição sublime lhe vinha à face, como se sentisse orgulho do trabalho bem feito, como se fosse a música que desse sentido à sua vida, como se ela, plenamente realizada, pudesse sentir que era aquilo que valia a pena ser feito de si própria.

Não seria fácil, claro. As exigências seriam, dali para frente, muito maiores, mas algo no coração de Elis lhe empurrava em direção àquele caminho. Algo lhe dizia para confiar e continuar, ainda que tudo aquilo não fosse capaz de lhe trazer a paz que tanto sonhava. Era o risco. E ele valia a pena ser corrido.

Os trabalhos continuaram até o almoço, quando os integrantes da orquestra e sua regente decidiram tirar o restante da tarde para descansar. Embora o descanso fosse necessário, ela sentia-se refém de uma curiosidade gigantesca. Não lhe era exigível ficar descansando no hotel enquanto, do lado de fora, Veneza lhe aguardava.

Era fim de tarde de um ameno dia de outubro. As pessoas andavam pelas poucas ruas com seus chapéus e sobretudos, alheios ao belíssimo espetáculo do céu da Itália. Casais passeavam pelas docas da cidade em gôndolas, ao som de uma quase inaudível melodia que parecia ter sido composta exclusivamente para aquele momento, como se todas as surpresas aguardadas para o dia já não fossem o bastante.

E ela, também unida à multidão, vagava errante, mas feliz, pelas ruas da cidade que tanto queria conhecer. Seu sobrenome italiano, que ecoava em sua mente, lhe dizia repetidas vezes para ficar ali para sempre. Aquele lugar pertencia a Elis, tanto quanto era imortal para seus pais.

Ela, sorrindo, andou em direção à Piazza. Também de chapéu e, com as mãos no bolso do casaco, lembrou-se que fora ali, do outro lado da praça que, há muitos anos, em meio a um congresso acadêmico, um acontecimento mudou para sempre a vida de seus pais. Fora ali onde tudo havia começado para eles.

O som de um piano ao fundo tocava uma pequena valsa que parecia ter vindo de um filme. Elis, então, seguiu a música até chegar a uma cafeteria simpaticamente veneziana. Sentou-se.

O pôr-do-sol estava delicadamente belo. O aroma do chocolate quente que evaporava de sua xícara e se dissipava em forma de fumaça na sua frente tornava tudo ainda mais especial e memorável.

Podia não parecer, mas aquele momento era uma première. A pré-estreia do filme de sua vida. O prefácio de seu livro de cabeceira que ela tanto queria ler.

Ela, que há muito esperava por esse momento, fora surrealmente tirada de sua contemplação quando, de repente, um estranho esbarrou em sua cadeira, fazendo-a perder o equilíbrio da xícara que levava à boca. O susto fez com que o chocolate fosse ao chão, sujando o belo assoalho de madeira da varanda.

Elis virou-se ao causador da celeuma, fitando-o, como quem dele esperasse um pedido de desculpas. E ele, de costas, apenas conseguiu balbuciar:

– Mille scuze, signorina!

Por muitas vezes, nos surpreendemos planejando nossas ações e medindo nossas palavras, andando cautelosamente sobre ovos, como se a vida permitisse ensaios, como se tudo acontecesse como no roteiro.

A voz daquele rapaz, familiar que era, corou imediatamente as bochechas da musicista e, ainda que por conta de sua profissão, fosse Elis uma pessoa acostumada a ter movimentos e ações precisas e previamente calculadas, ela não conseguiu controlar sua reação.

E, como não havia respondido, o silêncio daquele instante só não fora ensurdecedor porque o piano tocava Joplin em segundo plano. Talvez fosse a trilha sonora perfeita, talvez fosse uma desculpa para quebrar o gelo.

O estranho, homem magro e alto, virou-se, preocupado com sua vítima muda, que, vidrada e preocupada em esconder-lhe o sorriso, fitava-lhe.

E ele, então, reconhecendo o seu pequeno caso de biblioteca, sorrindo, disse:

– Ei! Você é a moça do trem! A dorminhoca!

Elis ficou ainda mais vermelha, mas conseguiu responder, imitando-o:

– Você deveria prestar mais atenção! Se eu não estivesse aqui, você provavelmente teria se machucado!

Ele retribuiu a gentileza com um largo sorriso. Sem jeito, diante da situação, apanhou no chão a xícara que, por pouco não se quebrara, colocou-a sobre a mesa e, levantando, disse:

– Agora que já somos amigos o suficiente, sinto-me na obrigação de, pelo menos, lhe pagar outra xícara desse chocolate.

Ela consentiu, aliviada.

Ele, então, sentou-se à mesa, perguntando se poderia minimizar o vexame com sua companhia.

Ela disse que sim, um pouco avessa. Era claro que a causa de seu repentino rubor de biblioteca havia surgido como fênix, depois de tanto ter internalizado.

E, enquanto o garçom trazia o chocolate, eles conversaram sobre música, regência e Veneza. Era terrivelmente bom aquele momento. Havia neles algo de sintonia atrativa que somente os números de um complexo cálculo de física fosse, talvez, capaz de explicar.

Mas a hora do recital se aproximava e ela, querendo que o tempo passasse mais lentamente para poder eternizar aquele instante, fora obrigada a interrompê-lo. Ele, então, pagou a conta, ao som de um doce “obrigada”.

Enquanto caminhavam em direção ao hotel, em silêncio, o homem disse:

– Espere! Eu conheço um atalho! Quero que você conheça um pouco da beleza de Veneza por outro ângulo!

E, fazendo sinal a um gondoleiro que por ali passava, virou-se para Elis e disse:

– Não se assuste! É seguro!

Ela riu, citando um dos tantos livros que lera na infância, tirado da biblioteca de seu pai:

– Tenho medo de gondoleiros, embora goste da ideia de passear de gôndola! Claro que, para ser um gondoleiro, é necessário ter uma grande habilidade com mulheres… Ser um verdadeiro Don Juán e conseguir o que se quer.

– Ou “quem” se quer – respondeu ele.

Eles, então, embarcaram em um pequeno passeio pelas docas. Passaram pela ponte Rialto e pelas outras tão famosas pontes da cidade, de forma tal que cada segundo daquele momento fosse eternizado na memória dela.

Eles se olhavam sorrindo, sem dizer absolutamente nada. Suas bochechas doíam invariavelmente. Riram. E, através de uma puxada forte, a noite os envolveu num romance.

Ela, perdida em um milhão de pensamentos, imóvel como uma estátua de alabastro, talvez sentindo a presença cada vez maior daquele rapaz, abaixou seus ombros, endireitando-os em seguida. Sem mover o corpo, olhou cuidadosamente para a direita, de modo que ele a pudesse contemplar de perfil. Ela era linda! Suas bochechas rosadas floresciam à luz da lua. Seus lábios entreabertos, como que para dizer alguma coisa que não chegou a ser dita, denunciavam o aroma doce que saía de sua boca.

Ele podia ver o balanço de seus cabelos e de seus cílios ao som do movimento do barco na água. Ele, inebriado pelo perfume daquele momento, apenas pôde sussurrar o nome dela. Ele conseguia sentir cada movimento de seu corpo.

O rosto de Elis buscava o dele, sem dizer nenhuma palavra. Ela o encarava e ele, com um certo receio, recuou.

Na verdade, ele não sabia ao certo o que dizer ou o que fazer diante daquela situação. Ele sabia o que sentia e o que queria. E assim, num misto de desejo e incerteza, seus lábios se tocaram em meio a um turbilhão de sensações, em um dos lugares mais belos do mundo.

Quão sublime fora aquele momento! Eles, como dois amantes, na mais graciosa dança da mais perfeita valsa. Na penumbra, aos pés da escadaria do hotel.

Sem dizer palavra alguma (e nem precisava), o súbito apitar de um telefone interrompeu aquele instante. Era a hora. Ela precisava ir, embora não quisesse. E, embora também quisesse, apenas levantou o rosto carregado de rubor, sorrindo:

– Obrigada – disse.

Subindo as escadas e sem olhar para trás, Elis saiu em direção a seu quarto para arrumar-se para o concerto, que seria naquela mesma noite.

Ele, no sopé do cais, apenas a olhava, calado e sorrindo.

E, como aquela música se findara, outra haveria de começar.

Ao som de aplausos, Elis subiu ao palco, atônita. A orquestra, sorrindo por causa da presença da amiga, a aguardava de pé.

Ela pôs-se à frente dos músicos, de costas para o público. Um silêncio ecoou pelo ambiente, ensurdecedor. Até que, com um súbito, mas doce gesto de suas mãos, a orquestra ganhou vida.

Era o concerto mais importante até então! Ela estava nervosa, mas sabia o tanto que havia se preparado para aquilo. Suas mãos trêmulas denunciavam seu nervosismo, mas sua doçura evidente a fazia reger com precisão o Concerto para Violino, de Tchaikovsky.

Elis sentia e pôde sentir cada nota e cada som. Ela podia sentir a respiração da plateia que acompanhava a execução daquela belíssima peça. Ela ouvia os batimentos cardíacos de cada um de seus músicos, em uníssono, seguindo o ritmo da música e o balançar de sua batuta.

Aquele momento, para ela, era indescritível. A plateia lotada e a apreensão por aplausos no final conferiam à cena um requintado toque mágico e igualmente memorável.

Na última nota, abaixando as mãos, ela esperou.

E eles vieram.

Havia uma multidão aplaudindo seu sucesso, compartilhando de seu triunfo. Elis virou-se, agradecendo através de uma profunda vênia.

As cortinas se fecharam e uma voz familiarmente esperada gritou, destacando-se entre os assobios:

– Bravo!

Elis reconheceu. Sorriu. E se sentiu em casa.

Fim.

Ou começo.

 

(Elias Neto, advogado. [email protected])

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