Opinião

Paradoxos e reflexões à sombra da cruz

Antonio Lopes ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

“Sim, a vida é insana. Mas a grande virtude do guerreiro está em escolher sua loucura sabiamente.”

(O Guerreiro da Luz – Paulo Coelho)

 

Dilema ou contradição capitalista, – conforme determina o mercado abrangente espelhado na cultura, economia e política, – os fundamentalistas religiosos terão de enfrentar neste século XXI, tanto eles quanto aqueles que o são sem a consciência de o ser, segundo Marx: “Não é a consciência que determina o ser, mas o ser que determina a sua consciência.

A estirpe burguesa católico-evangélica conservadora, reacionária e elitizada, no Brasil, tal qual Schopenhauer, – que tratou a sexualidade como inimiga pessoal e necessitava inimigos para ficar de bom humor -, entra em estado de apoplexia intelectual no enfrentamento do paradigma “ser ou não ser”.

Em decisão politizada, atrelada à conjuntura dos movimentos sociais que, espraiados nas ruas, reivindicam mais cidadania e menos hipocrisia, o Supremo Tribunal Federal (STF), determina e resoluciona que os casais homoafetivos são considerados família e possuem o direito de adoção. No coletivo, e preso a ele, os homens aguardam, na fila, decisões de um porta-voz das liberdades. Em O Poder Simbólico, Burdieu afirma: “O mistério do ministério chega ao cúmulo quando o grupo só pode existir pela delegação num porta-voz que o fará existir falando por ele, quer dizer, a favor dele e no lugar dele.” (1989, p. 158)

Levar o Evangelho ao mundo plano sem ser pleno, nefasto e comercial, sem se respeitar e conviver com as diferenças individuais e opção sexual de cada um, diga-se, de cada ser, social e ontológico, terá que ser revisto e revisado, debatido e levado às raias democráticas do debate intelectual abrangente, que abrace o ‘ser antes do ter’, abrindo caminhos do direito à vida trilhada nos caminhos das diversidades auditadas em instituições democráticas que fomentem a liberdade de ser, viver, lutar e atuar Brasil e mundo afora. A deturpação do cristianismo e outras tantas religiões, espalhadas pelo Globo, se deve muito pela insistência em manter seus estatutos e normas como leis imutáveis da natureza. Sabemos que isso é impossível a longo prazo, então qual a saída das religiões para evitar seu esmagamento? A adaptação cega à ordem vigente, que em nosso caso é a ordem do capital, perdendo muito de seus fundamentos bazilares.

Os livres mercados são o “melhor sistema econômico” não devido à afirmação de Adam Smith, mas porque essas são as leis imutáveis da natureza. Deste modo, a ordem imaginada pode se entremear na realidade à nossa volta. Atualmente a maioria dos ocidentais acredita no individualismo. Eles acreditam que todo ser humano é um indivíduo cujo valor não depende do que outras pessoas pensam a seu respeito. Assim, o Cristianismo se retroalimenta desta ordem imaginada e começa a adotar um discurso anti-comunitário, do ódio e da competição excessiva, das bênçãos que serão derramadas sobre os vitoriosos desta guerra contra os ímpios (leia-se: o outro).

A Teologia da Prosperidade nada mais é que uma revelação superestrutural da forma como o sistema produtivo vigente e a ordem imaginada podem se influir nas instituições religiosas e mudar seu discurso. Essa ordem imaginada define nossos desejos, decisões e escolhas e por se tratar de uma ordem intersubjetiva, mesmo que, por um esforço sobrehumano, eu consiga livrar meus desejos pessoais das garras da ordem imaginada, sou só uma pessoa.

Para mudar a ordem imaginada preciso convencer milhões de estranhos a cooperar, pois esta não é subjetiva – da própria imaginação – é, antes, uma ordem intersubjetiva, existindo na imaginação partilhada por milhões de seres sociais. Uma forma versátil de modificar esta ordem é transformar a forma como a superestrutura funciona e reage aos imperativos da infraestrutura, fazendo com que ela gire no sentido contrário à engrenagem da sociabilidade capitalista.

O laço burgo-religioso remonta às lutas estudantis as quais promoveram a Revolução de 1968, que destoou o preconceito e retrocesso, o sistema que vigia e coage, de perto, aprovando e punindo, pois, “se a juventude dá alguns empurrões na burocracia monárquica, isto não é mau, desde que esses ‘meninos’ não cheguem demasiado longe e não arrastem massas trabalhadoras.” (TROTSKI, 1981, p. 93)

As religiões se tornam autênticas quando despidas dos véus e mantos do preconceito e fundamentalismo, em prol e na defesa da vida, nos seus diversos campos societários os quais englobam o ser político, cerceado pelos trâmites legais da economia, viajante cultural o qual desenhou, até os dias atuais, caminhos desiguais na luta de classes da humanidade, dividida pelo viés do sistema capitalista, voraz camaleão de si mesmo.

As raízes culturais presas aos muros da Igreja, delimitadas entre monogamia e poder tradicional, estruturadas na “família nuclear”, constituída por pai, mãe e filhos, felizes consumidores e pagadores de impostos, derretem ao calor da discussão conjuntural, enquanto direito de inclusão e convivência, diferentemente da proposta burguesa, mostrada até bem pouco tempo, nos comerciais de margarina em horário nobre. Esse caráter reacionário e conservador das Igrejas, além de abalar sua validade, em nada ajuda a transcendência de uma democracia repleta de sentido. As indústrias cultural e religiosa se esfacelam sempre que surge um horizonte crítico e diferente, por isso mesmo, libertador.

A religião, explorada como um “bem cultural” e “ordem imaginada”, idiotiza os trabalhadores. A mercantilização da crença subtrai sua consciência. Vazias de subjetividade tornam, a cada culto, missão, evento, templo, palácio ou seita a experiência com Deus vazia de qualquer sentido de libertação, o “ópio do povo” (Karl Marx, em sua Crítica da Filosofia do Direito de Hegel). Giordano Bruno teve enquanto última polêmica com a religião, a discussão posta pela Revolução Francesa entre as coisas da Ciência em relação à Filosofia, quando trouxe a proposta em retirar Deus do alvo das discussões e do centro junto ao Estado.

Se são os homens que fazem a própria História, Deus sai do centro, dando lugar ao Homem, promotor de seus próprios destinos. Deus então sai do centro das discussões, onde o pensamento – que deveria vir do íntimo -, fomento da alma, filosofia consciente e libertadora detona a experiência do vazio e portanto sem sentido, da alma entregue ao cerceamento dos que detém as vozes do pleno poder.

Mas será que a retirada de Deus dos debates políticos e estruturais, o seu não reconhecimento em questões sobre os rumos da sociedade promoveu de fato a transformação da democracia societária em um ambiente melhor de se viver ou ao invés disso fez do planeta um “mundo desencantado”? Será que a simples e virgem separação entre laico e religioso, o secular do atemporal, perene de transitório foram capazes de resolver os problemas dando rumos à história que escoa de nossas próprias mãos?

A democracia pode manter laços jurídicos com as igrejas via concordatas, em regimes de separações ou no apoio mútuo para um fim social específico; todavia as igrejas, tal como as religiões que representam, não devem pretender fundar o laço social. Os direitos sociais são obrigações constitucionais do Estado Democrático de Direito que, por sua vez, não pode se furtar da obrigação relegando o papel da promoção de tais direitos a instituições religiosas no intuito de zelar apenas da garantia de direitos políticos como prega a ideologia liberal. Nenhuma democracia pode sobreviver por muito tempo sem respirar a transcendência que abra e disponha à superação de si mesma visando um futuro construtivo. Neste ponto, o Estado Democrático de Direito, desde a Revolução Francesa, revela debilidade em concretizar os direitos sociais e conduzir os direitos políticos de forma mais socializada, ou seja, mais igual além de mais justa.

O papel das religiões é então o de manter aberta essa transcendência, negando obstruir por meio de afirmação dogmática e estatutária (como afirmava Kant) ou através de uma referência institucional a Deus. Aqui ainda o cristianismo, dirigindo-se à liberdade que constrói, estimula e provoca a democracia colocando-a perante a lei de caridade ou da injunção do respeito de todo homem, nomeadamente o mais pobre, marginalizado pela razão comunicacional. Despertar a apatia das democracias, contestar seu desleixo favorecido no utilitarismo segundo o qual o sentido da pessoa se perde em proveito da vaga referência à felicidade da maioria.

O mérito da transcendência democrática não é exclusividade do Cristianismo, daí a importância do Estado desenvolver um espírito público eivado do pluralismo religioso, ao mesmo tempo em que as culturas religiosas se abram às trocas transdisciplinares. O Cristianismo, entretanto, possui papel duplo e paradoxal na empreitada de reconhecer a influência do que é cultural, dentro do Cristianismo, e o que é cristão engendrado pela cultura, para enfim separar o joio do trigo.  O Cristianismo pós-moderno costuma adotar preceitos e valores da sociedade individualista, voltada à reprodução da sociabilidade do capital. Enquanto este fato prevalecer não haverá abertura para a transcendência democrática realizável nos moldes cristãos, perpetuando assim a dominação e alienação.

Homens alienados às imoralidades do pecado original, tatuadas no pobre de alma, transformam-se em categoria e, a partir do momento em que se tornam coletivo, ou seja, – homens de pluralidades e expectativas – desenha seu perfil no mural da massa amorfa, quando mergulhado no campo do preconceito, xenofobia e homofobia e religiosidades expostas nas prateleiras do mercado, em sua maioria, deformadas na sua própria secularidade, reforçada nos cânones religiosos que fomentam a emancipação vinculada a estratagemas dogmáticos, pragmáticos e não menos aliciadores.

Resgatar o Cristianismo para uma sociabilidade comunitária, livre e igual é mantê-lo aberto ao dinamismo mobilizador, serviço prestado à democracia a qual, sem esta abertura, pode desmoronar na democracia processual, tecnicista, órfã de horizontes.

Pode ainda contribuir para a vitalidade da democracia por meio do reconhecimento histórico de seus percalços e na superação deles. O passado cristão pode ser ressignificado ao negar diálogo com tendências belicistas, maniqueístas, sem fanatismos.

Segundo Hegel: “É preciso sempre nos lembrarmos da ‘retórica da história’, principalmente quando discute-se religião e sua ligação com o Estado e as instituições, tanto as morais como as metafísicas com fontes aprofundadas nas interações religiosas. Tais intuições devem ser retiradas da marginalidade e expostas no espaço público a fim de que a memória viva proporcione e promova decisões democráticas.

Retirar do Homem a qualidade da imaginação, destituindo-lhe o dinamismo e tornando opaca sua criatividade, ‘atenua e ameniza’ a questão social, extirpando a vontade coletiva em querer poder, destoando preconceitos e conceitos na contramão histórica. A obra O Anticristo denuncia: “A pose grandiosa desses espíritos doentes, desses epiléticos das ideias, age sobre as grandes massas – os fanáticos são pitorescos, a humanidade prefere ver gesticulações antes de ouvir razões.”(NIETZSCHE, 2008) .

Vivemos dilemas éticos importantes: o legado da Bioengenharia, avanços científicos e tecnológicos que prenunciam futuro sombrio, tecnologias altamente perigosas destituídas da razão instrumental em detrimento da esperança, carregadas de utopia, ‘um mundo desencantado’, nas palavras de Adorno. As democracias prostam-se sobre si mesmas, contribuindo assim para o desinteresse dos cidadãos pela coisa pública,  – a Rés-Pública, – sem perspectiva, imediatista. A ética da responsabilidade não acontece sem a ética da convicção municiada na fé em um ‘futuro de ressurreição’, quando a ética da responsabilidade despe-se da irresponsabilidade quanto ao futuro da humanidade.

A ética da transcendência democrática não carece tornar-se em religião civil. A transcendência abre corações e mentes, repugna a oficialização pública, age naqueles que a aceitam e clamam pelo respeito à alteridade assimilável, irredutível, não manipulada tal qual mercadoria. Não se trata do fim do Estado laico e sim do fortalecimento éticopolítico deste.

A solução religiosa assenta-se nela mesma enquanto forma simbólica, tradição filosófica a qual Hobbes acreditou ‘fazer bem relegá-la à esfera privada’, privando os homens de meios para fazer face às novas questões éticas que se apresentam. O primado das questões processuais priva a razão pública e tecnicista dos recursos necessários na abordagem da bioética, até mesmo da pena de morte, enfraquecendo o futuro, aberto aos desesperos aliados a complacências niilistas.

A religião sempre pode (e não deveria) ensimesmar os homens impondo-lhes regras e dogmas. A moral, segundo Kant: “Jamais pode ser atingida ou alcançada pela obediência de uma ‘imposição exógena ao homem’, muito menos, por um desejo fatídico que almeje pura e simplesmente a salvação.” Ela deve ser interna ao próprio homem, pois Deus está em todos, indistintamente, exposto, categoricamente, em Salmos 82:6: “Eu disse: Vós sois deuses, e filhos do Altíssimo, todos vós.”

A cada dia com duração de 24 horas, numa era eletrônica e individualizada, na qual os minutos correm atrasados atrás dos milésimos de segundos, as igrejas vão alimentando com lodo suas estruturas com dogmas obsoletos os quais mofam e tornam seu próprio estorvo. O mercado da sociedade em rede, clama, exige e promove a implosão das estruturas milenar, católica, e cinquentenária evangélica.

O modus operandi dos cultos e missas, difere-se em gênero, número e grau, por ser mercado, do desejo internalizado na alma dos trabalhadores que almejam a salvação pelo trabalho ao invés da emancipação na obrigação do dízimo. Cabe às religiões livrar-se dos tentáculos do mercado e da ordem imaginada.

Carisma e vida própria constituem ferramentas de dominação numa espécie de feiticismo, decrito por Marx como “aquilo que advém quando ‘produtos da cabeça do homem aparecem como dotados de uma vida própria’, citando como exemplo o feiticismo político, o qual “reside precisamente em que o valor da personagem hipostasiada, esse produto da cabeça do homem, aparece como carisma, misteriosa propriedade objetiva da pessoa, encanto inapreensível mistério sem nome.” (BOURDIEU, 1989, p. 158)

A contradição paradoxal que brota da nascente niilista, presente em religiões de entidades e suntuosidades, torna contraproducente o fato de que essas mesmas instituições – as quais negam o mundo em favor de um tempo vindouro – possam exercer tamanha influência e poder no mundo real, ou seja, aquele caracterizado pela Sociologia como reprodução do modo de produção as quais insistem e impõem regras e relacionamentos estruturadas em hierarquias, moral sem sexualidade, diferentes éticas e juízos para comportamentos diversos proibidos e pecaminosos em sua diversidade. Se é assim, então por que não fazer o “diabo trabalhar a favor” do construto de uma nova sociabilidade, anticapitalista e, por isso mesmo, libertadora?

O caráter ideológico das religiões para fins ignominiosos de mistificação das massas destoa do que disse Buda sobre o ‘espírito livre’ ou Jesus sobre “a verdade e o caminho”. Segundo Buda: “Acorrentada no tormento é a vida em casa, local de impureza; a liberdade consiste em abandoná-la”. Disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32). Foi com aquela ideia, que Buda abandonou sua casa e sobre esta ideia de verdade que Jesus reconheceu o espírito hipócrita dos fariseus e abraçou as pessoas sem distinção de raça, credo ou sexualidade.

As mudanças dos espaços da cultura espacial, por dominação, definem um Estado burocrático e burguês. Deus é o que pertence a Ele, seus preceitos, o início, o meio e também o fim .

Antonio Lopes

 

 

Antonio Lopes 2

(Antônio Lopes, assistente social; mestrando em Serviço Social/PUC-GO; aluno especial em Direitos Humanos/NDH -UFG; Diego Quixabeira, graduando em Direito/Faculdade Cambury).

 

REFERÊNCIAS:

Bourdieu, Pierre, O Poder Simbólico; Rio de Janeiro-RJ; 15a ed. Bertrand Brasil; 2011;

Nietzsche, Friedrich, A Genealogia da Moral, São Paulo-SP; Escala; Coleção Grandes Obras n. 20; s/data

_____________, O Anticristo, São Paulo-SP; Escala; Coleção Grandes Obras, n. 52; s/data

Trotski, Leon, Coletânea Política, São Paulo-SP; Editora Ática; 1981

Harari, Yuval Noah, 1976 – Sapiens – Uma breve história da humanidade.

Valadier, Paul, Fraqueza do Político Força do Religioso.

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