Opinião

Pobres de nós, professores...

Heloisa Helena de Campos Borges,Especial para Diário da Manhã

diario da manha

 

Não sei com precisão quando aconteceu, mas, um dia, anunciaram (impingiram?) ao mundo que o magistério é uma profissão nobre em razão de ela ser, ao mesmo tempo, arte e missão.

A partir dessa afirmação, fundamentou-se que, para o seu exercício, é necessário talento, desprendimento e altruísmo, ou seja, aptidão inata e virtudes inquestionáveis. E foi assim que, por séculos afora, ficou delineado o perfil do professor, retrato ideal de educador, que persiste ainda hoje.

Não se pode negar que é grandiosa a representação do profissional do ofício de ensinar como artista e missionário, simultaneamente. Entretanto, no momento em que se vive um grande desrespeito pelos professores e, refletindo sobre o que realmente se passa, agora, na prática do magistério, esta suprema qualificação deixa de ser louvor para se transformar em obstáculo.

É bem verdade que dá pena dispensar traços assim engrandecedores, porém, convenhamos, dependendo da hora e do lugar, eles se tornam requisitos irônicos, até mesmo zombeteiros.

Eu, que fiz carreira no magistério, pois comecei como professora de curso fundamental, na época chamado curso primário, depois professora de primeiro e segundo graus e me aposentei como docente de curso superior, tenho motivos acertados para dizer: pobres de nós, professores, que escolhemos uma profissão não merecedora de ganho real, menos ainda lucrativa e que, no momento atual, é alvo de profundo desrespeito, até dos alunos.

Por todo Brasil, em todos os níveis, é sentido o descontentamento dos professores, principalmente, em relação às condições de trabalho. E eu questiono a demora da sua solução. Por que os políticos não priorizam e atendem rapidamente as reinvidicações dos professores, que, por sinal, são justíssimas?

Será que a demora da atenção é para deixar claro que não fica bem para os estigmatizados ‘missionários’ reclamarem por vantagens e bens tangíveis, ainda mais quando se está ciente de que uma das maiores qualidades do seu ofício é o seu desinteresse por vantagens materiais?

Ou para mostrar que, hoje, os professores apegam-se mais às próprias ambições do que à relevância de um ideal?

Será para a sociedade acreditar que pensar em melhores condições, sobretudo se relacionadas com moradia, alimentação, vestimenta, aperfeiçoamento intelectual, tudo isso soa rasteiro e sem nobreza para quem traz dentro de si, como valor maior, a realização de uma missão?

Sob esta atmosfera de desmerecimento, faço uma pergunta: quanto vale o trabalho de um professor?

Por experiência própria, respondo prontamente: quase nada, para não fechar a questão em nadica de nada. Todavia, deveria ser bastante valorizado, pois inúmeros estudos concluiram que somente a educação é capaz de transformar uma sociedade, de reduzir a desigualdade e de dar chance igual para todos.

O tempo passa e cada vez mais que atento para o poder da palavra, mais me convenço da habilidade de quem a manipula. Missão e Arte… duas faces de uma mesma moeda, definindo o papel do professor. Privilégio? Valorização? Pode ter sido.

Se é horrível assistir professores serem agredidos violentamente quando reclamam seus direitos, pior ainda é sentir a morosidade política para resolver uma questão que é fundamental para a evolução da nação.

Desconfiada, ainda pergunto: _ A demora não será também uma manobra?

Paulo Freire, um dos maiores educadores do Brasil, assim aconselhou: Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte dos professores resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas, pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.

Portanto, professor, não desanime. Confie na força da sua vocação, acredite na sua luta e, sobretudo, não se acanhe. Arregace as mangas e exija o que lhe é devido, sempre que for preciso!

 

(Heloisa Helena, escritora)

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