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OPINIÃO

Confissões de generais

Acaba de sair pela Kelps uma obra que é uma espécie de Memória dos Anos 60: A História das Atividades que culminaram com a deposição do presidente João Goulart, popularmente denominado Jango, líder populista que viria a suceder o presidente Jânio Quadros. A obra de 268 páginas, que tem como subtítulo “A Verdade sobre o Golpe de 64”, compõe-se de uma Introdução, assinada por Eduardo Galeano, e de “Duas Palavras” de Nélson Werneck Sodré, e está dividida em 8 capítulos: Capítulo I, “Nunca foi tão fácil conspirar”; Cap.II, “O Golpismo Histórico”; Cap. III, “Mourão”; Cap.IV, “Guedes”; Cap.V, “Mourão e Guedes Juntos”; Cap.VI, “Denys”; Cap.VIII, “O Papel dos Estados Unidos”; Cap.VIII, “Magalhães, Lacerda e Castello”.

Na introdução, um pensamento de Eduardo Galeano: “A História é um profeta com o olhar voltado para trás: e foi contra o que foi, anuncia o que será.”

Começa, então, a narrativa.

“No mês seguinte à deposição do presidente João Goulart, já o editor José Álvaro acertava com o jornalista Alberto Dines, do ‘Jornal do Brasil’, a elaboração e imediata publicação de um livro sobre os acontecimentos político-militares ocorridos de 1º de março aos primeiros dias de abril de 1964. O trabalho foi confiado a oito profissionais de peso da imprensa. Cada qual se encarregou de um capítulo: Araújo Netto escreveu “A Paisagem” – bem feito painel retratando o panorama político e o quadro militar daquele março que começara com o aniversário de Jango, e terminara com a sua queda já praticamente definida” (pág.19).

Mais adiante, prossegue, Galeano:

“A fim de ouvir Carlos Lacerda, em Roma – lá estava o governador da Guanabara a explicar e justificar a mal chamada Revolução de “64”, o que fez também em Paris –, foi destacado Cláudio Mello e Souza. Queria, este, principalmente, que Lacerda esclarecesse porque declarara, logo após o Grande Comício de 13 de março, promovido por Jango e seus Aliados em favor das reformas de base ter sido aquela a última vez que o senhor João Goulart saiu à praça com cobertura do Exército. Lacerda falara desse jeito a Otto Lara Rezende, nessa ocasião entrevistador da revista “Manchete”. E acrescentara: Pode publicar isto. O mineiro Otto considerou inoportuno, além de achar que era um mero palpite de Lacerda. Não publicou. Agora, para o livro em preparo, o jornalista Cláudio Mello e Souza julgava importante o esclarecimento: Lacerda apenas intuira; Ou sabia o bastante para uma informação tão categórica?” (pág.20).

E prosseguiu:

“Dia 13 de março deste ano incapaz de suportar por mais tempo o desnível entre o que era e o que devia ser, Jango saiu para o comício. Na Praça Cipriano Otoni, contra o maciço ciclorama do Ministério da Guerra (consome mais energia elétrica que todo o Estado de Goiás) e sobre o palco cheio de milicos do dispositivo militar (inexistente) e de pelegos do dispositivo sindical que o deputado Bilac Pinto amavelmente imaginara armados até os dentes, Jango resolveu iniciar aquela corrida para destruição que desencadeiam o orgasmo das tragédias. Brizzola-Laertes já se dirigira ao povo em tom duro, esperando que, mais uma vez, Jango-Hamlet pedisse as reformas como quem pede uma esmola. Mas Jango ia descer a rampa. A Constituição Gertrudes não podia continuar conspurcada por Lacerda-Cláudio, o assassino do Rei. Precisava ser redimida, reformada” (pág. 22).

(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])

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