Opinião

Dia da mulher? O que é isso?

diario da manha

Nunca entendi ao certo, o tal do “feliz dia das mulheres”!
De verdade mesmo e estou sendo bem sincero… Nunca soube o que isso quer dizer!
Meu vizinho vive batendo na esposa e no oito de março além de lhe desejar um “feliz dia da mulher” a leva para comer pizza; tem outro que proibiu a esposa de ter amigos, de visitar a mãe e de estudar e no oito de março, cínico, vem com a mesma cantilena: “feliz dia das mulheres” e uma saidinha para um jantar; tem um que é bem curioso, além de ter tentado matar a esposa por três vezes, de lhe ter queimado parte do rosto enquanto dormia, enviou linda carta de amor da prisão em que cumpria pena com a seguinte introdução: “Pra começo de conversa, eu te amo…” e daí foi!
Jamais entendi esse oito de março porque, querem saber, nunca se massacrou tanta mulher ao mesmo tempo e juntas; nunca homens oprimiram tanto as mulheres; não há precedente histórico em que maridos castraram e ceifaram tanto a vida de suas companheiras; jamais filhos atentaram tanto contra suas mães; houve período em que patrões submeteram tanto suas empregadas? E o pior; nunca mulheres oprimiram tanto as mulheres.
O oito de março não nasceu para a igualdade? Para a justiça entre as pessoas? Para construir um tipo relacional novo e distinto entre os gêneros? Mas… o que houve?
Em um mundo falocêntrico como o nosso, onde o “pau duro” o “pinto ereto” e o membro rijo são valores em si, são transcendências simbólicas e objetivas, possibilidade e afirmação única da masculinidade ocidental e onde tudo o que se oponha a esta perspectiva é “mau”, “ruim” e “fora da ordem” o campo libertário é bem restrito. Não por acaso, ser velho em um mundo valorativo e imagético como este é já estar na antessala da morte.
A verdade nevrálgica é que não sabemos o que é o oito de março porque, reconheçamos, não sabemos o que é uma mulher, aliás, o mundo ainda hoje não sabe dizer o que é uma mulher por isso, ante ao desconhecido, qual é a nossa reação? O controle e, provavelmente, sua destruição.
Não exagero! Imaginem uma nave espacial posando na praça central da cidade? Imaginem seres alienígenas descendo desta mesma nave. Qual será a nossa reação? Corremos com medo ou atacamos pra matar! Porque é nossa reação ante ao desconhecido, ante àquilo que não sabemos. O desconhecimento, o obscurantismo é gerador automático de violência por isso a principal e única batalha da espécie humana é contra todas as formas de ignorância, de misticismo e de obscurantismo.
A batalha constante contra as mulheres que eu, você e todo mundo trava todos os dias é a batalha contra aquilo que não conhecemos, que não sabemos porque não é pra saber; saber da mulher, da sua condição e do seu ser pode ser perigoso…
…Muito perigoso para as formas patriarcais ou neo-patriarcais de governo, de estado e de sociedade que temos nessa neo-colônia brasileira.
Me ponho a pensar na presidente Dilma à frente deste trágico país; em todo o amplo movimento falocêntrico, autoritário e, acima de tudo, machista que busca envolvê-la, constrangê-la para demovê-la de um poder historicamente masculino.
E gritam que “este governo não dá certo”, que está “quebrando o país” e bobagens afins. Cretinos… Governos no Brasil nunca deram certo! Esse país sempre foi quebrado porque sempre fora conduzido pelo pior e mais deletério patriarcado do hemisfério sul; pelos piores e mais degenerados grupelhos da elite branca, lusa, católica e que desde o descobrimento do país até aos dias de hoje sempre operaram em causa própria, nunca em favor do povo e de um futuro nacional.
Governos não dão certo porque não foram feitos para darem certo. Foram concebidos para conferir alguma estabilidade contra os bárbaros desse país já barbarizado e que nós mesmos, reconheçamos isso ou não, criamos com nossa indiferença, apatia e machismo.
Esse caos é nosso; é “made in Brazil”; feito aqui, temperado, cerzido e formatado em cinco séculos de muita violência, pobreza, corrupção e, é claro, machismo. E quem são os machistas? Ora… Eu, você, meu pai, meus irmãos; a igreja, o padre, o bispo, o pastor, o monge e o rabino; mais a universidade, o hospital, a arquitetura; a geografia, a sociabilidade, a criminosa economia e o cotidiano.
O cotidiano, na verdade, é dura, sofrida e invasiva realidade fálica, ou seja, cansa, é nervosa e machuca todo mundo e precisamos converter essa rigidez em algo mais acolhedor, macio e suave… Se é que me entendem!

(Ângelo Cavalcante é economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais