Opinião

Era um dia assim – IV e final

Um sujeito nervoso invadiu o escritório do dr. Manjuro Almeida, a secretária, D. Roseane desmaiou (fingiu), um homem foi encontrado na praça de fronte ao escritório (morto), a polícia foi conversar com o advogado em sua casa, vimos D. Roseane jogar no rio um revolver, agora voltamos à casa do rábula no momento em que iniciava a conversa com os agentes da lei:

“Bom-dia, em que posso ajudá-los”, perguntou Manjuro Almeida aos dois policiais postos em sua sala, após falarem com a esposa daquele e que saíra um tiquinho.
– Bom-dia doutor, respondeu o primeiro à direita, pelo tom de voz parecia ser o líder da dupla, usava um pequeno bigode nos lábios, característica que lhe dava certo ar valentino.
– Talvez o senhor não saiba, mas um homem foi morto próximo ao seu escritório, disse logo o cantor, sem preâmbulos, acostumado com a rudeza das notas.
– Sim, acabei de ler no jornal, respondeu o dono da casa.
– Mas já está no jornal? falou mais pra si que para os outros e emendou: – se bem que o chamado se deu de madrugadinha, eles devem ter atrasado a prensa um pouco, também explicando mais pra si que para alguém em particular, era um oficial metódico, gostava de todas as engrenagens em seus lugares.

Satisfeito com seu raciocínio, tirou do bolso uma fotografia e disse:
– O delegado do caso suspeita conhecer a vítima e pediu que o senhor olhasse a foto do cadáver para, quem sabe, confirmar sua dúvida, o senhor poderia nos fazer esse favor?

Dr. Manjuro que já se imaginava levado à delegacia para depoimentos na condição de suspeito, soltou um longo suspiro de alívio e pôs-se à disposição para o que fosse necessário.

Pegando a fotografia, convidou-os a se sentarem, ofereceu-lhes café, ambos os convites recusados formalmente, como convém em temas dessa natureza.

O homem da foto, o falecido, que aparecia deitado agora, não era outro senão aquele que lhe estragou as portas no dia anterior.
– Sim, eu o conheço, é o senhor Arantes Marga, já foi meu cliente, afirmou, julgando automaticamente que esconder o fato, além de inútil, por causa dos registros legais e cartorários, seria extremamente suspeito no futuro.
– Quando o senhor viu ou encontrou a vítima pela última vez? arguiu o segundo oficial, ansioso por trabalhar um pouco, esse tinha a face lisa, embora possuísse olhos um pouco grandes demais para o trabalho arguto.

Era um pergunta difícil, o que eles sabiam? teria havido pessoas que viram o falecido sair de seu escritório? D. Roseane já havia sido investigada? mentir, omitir ou não responder? Ah, a mente humana e sua necessidade ou medo da culpa.
– Senhores, o pobre infeliz, Arantes Marga, esteve em meu escritório ontem mesmo, não há segredo sobre isso; Confirmou por fim, após um breve silêncio, o que não passou despercebido a todos.
– Interessante, disseram os dois policiais simultaneamente, desejosos por uma pista, uma linha de suspeição.
Calejado pelo trabalho, dr. Manjuro não se traiu nessa pequena armadilha, a maioria das pessoas inicia a desfiar um rosário de justificativas, ele se calou, apenas balançando a cabeça como um pêndulo vertical e a conversa continuou, para decepção dos agentes :
– Haveria algo na tabulação ocorrida que ajude resolver esse assassinato?
– Nada que me lembre no momento.
– Ele estava ou apresentou algum receio por sua vida?
– Não que me recorde.
– O senhor tem alguma idéia do motivo de alguém querer esfaqueá-lo a sangue frio?
– Como disse, ele… a frase foi interrompida, algo brilhou na sua mente e dr. Manjuro perguntou: – Ele foi esfaqueado? o Jornal dizia que foi um tiro…
– O senhor conhece os jornais, tão apressados, até ajuda no caso, acalma o agressor, mas sim, foi esfaqueado, não encontramos a arma no local, algumas pessoas viram uma mulher se aproximando da vítima momentos depois que ele se sentou no banco e não temos mais nada.

Depois dessa informação, dr. Manjuro, visivelmente transformado, sorriu, enquanto contava todo o episódio da visita, para surpresa de ambos, inclusive falou sobre as portas quebradas, ele não tinha mais nada a temer; os policiais anotaram tudo, parecendo não se importar muito sobre o teor da conversa entre cliente e profissional. Partiram, não sem antes confidenciarem que a suspeita do delegado quanto à identidade foi confirmada.

Assim que saíram, o advogado foi ao telefone, ansioso em falar com D. Roseane:

– Alô, d. Roseane? – Sim, dr. Manjuro, tudo bem com o senhor? – Sim, sim, muitíssimo bem, d. Roseane, por acaso a senhora já me fez aquele favorzinho? – Sim, doutor, estou chegando de lá agora mesmo, a “peça” foi devidamente descartada. Silêncio na linha. – Dr. o senhor está aí ? aconteceu algo? – Não, d. Roseane, tudo bem, eu agradeço muito sua lealdade, amanhã trabalharemos normalmente, não tocaremos mais nesse assunto, tenha um bom dia. – Para o senhor também. Aparelhos desligados.

“Uma pena”, pensou alisando a careca que insistia em prosseguir: – Era um lindo revolver, acho que me precipitei e ainda a envolvi nisso, mas eu não poderia me arriscar a ser encontrado na posse dessa arma depois daquela discussão, o sujeito, o senhor Arantes poderia muito bem dizer que eu o ameacei naquela tarde expondo o instrumento daquele jeito, uma pena mesmo, bem quando tinha arriscado dar um único tiro nos arredores da cidade, só pra ver se ainda funcionava – Mas agora ele está morto, esfaqueado por uma mulher, que Deus lhe dê um bom lugar, tenho nada com isso, se quiserem investigar a reclamação dele, entrego todos os detalhes, caso de cobrança e juros, nada demais, estelionato, um dinheirinho para salvar uma carreira pública, isso acontece todos os dias, ninguém mata por isso, não me interessa. Há de se descobrir o motivo, importante é que não estou nele. Pronto.

Isto resolvido, foi descansar da noite maldormida.

Mais interessante, e muito mais, é que sua esposa também fora ter na amurada da mesma ponte onde momentos antes estivera D. Roseane – D. Márcia não fora à mercearia conforme tinha alegado ao marido, não, ela tinha outro objetivo mais específico.

E ali, olhando o rio caudaloso, retirou da bolsa vermelha um punhal afiado e o jogou na corrente líquida abaixo, ninguém notou o movimento, a lâmina imediatamente foi lavada do pecado e levada sem mais dramas.
D. Márcia voltou por onde viera, mais feliz e leve que nunca, precisava fazer o almoço, quem sabe usar o telefone.
Fim(?)

(Olisomar Pires – [email protected] – olisoblog.com)

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