Opinião

Exodus: a ordem é ‘sair’

diario da manha

Diz a Bíblia que levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecera José.
Por uma circunstância milagrosa e de modo totalmente simples – singelo até – Moisés não apenas livrou-se da morte certa, mas se tornou um grande líder hebreu, que desestabilizou todo império egípcio, já que Faraó havia ordenado a todo o seu povo que todo o menino nascido dos hebreus deveria ser lançado ao rio.
Os hebreus se acomodaram à vida no Egito, e sem perceberem, tornaram-se escravos em terra estranha. O pior é que toda uma nação, poderosa em número – quase dois milhões de hebreus – levava uma vida de escravidão, e já haviam se habituado a ela.
Não havia ambição, não havia perspectiva de mudança, não havia mais esperança.
E depois de muitos dias, os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram, e seu clamor subiu a Deus.
E Deus ouviu o clamor, veio até eles, mas a demora na busca do divino trouxe consequências. Não tão fácil assim.
Podiam ter ido embora antes, podiam ter trabalhado duro, mas se acomodaram. Pagaram o preço.
Dez foram as pragas necessárias à libertação dos hebreus, que causaram todo tipo de dor e sofrimento:
1. As águas do Rio Nilo tingem-se de sangue: Toda a água do Egito foi transformada em sangue e até mesmo os rios foram contaminados, vindo a morrer todos os peixes;
2. Rãs cobrem a terra: Esta praga surgiu após Arão (irmão de Moisés, que o acompanhou durante todo o processo) estender a mão sobre o Egito e, sob intercessão do Deus dos hebreus, fez surgir rãs de todos os lugares;
3. Piolhos atormentam homens e animais: Da mesma forma que o Egito foi infestado por rãs, desta vez vieram piolhos a encobrir a população e todos os animais. Desencadeada também após Arão estender as mãos sobre o Egito;
4. Moscas escurecem o ar e atacam homens e animais: Bem semelhante às anteriores, a quarta praga deixou o Egito infestado de moscas.Faraó concordou em libertar o povo e o Senhor retirou a praga, mas assim que percebeu que a praga havia cessado, o faraó voltou atrás na sua decisão, aprisionando o povo hebreu;
5. A morte dos animais: Desta vez Moisés estendeu a mão sobre o Egito e por ordem do Senhor surgiu uma praga nos animais em que muitos morreram e grande foi a perda para os egípcios;
6. Pústulas cobrem homens e animais: Diante da resistência de faraó, que a cada praga aceitava libertar o povo, mas assim que elas cessavam voltava a reter os hebreus como escravos, o Senhor ordenou a Moisés e a Arão que enchessem suas mãos de cinzas e jogassem para os céus. Assim o fizeram e as cinzas se transformaram em úlceras em todo o Egito, tanto nos animais como nas pessoas;
7. Chuva de granizo destrói plantações: A resistência por parte do faraó se repetiu e assim, o Senhor pediu a Moisés para estender seu cajado por todo o Egito (exceto a região onde vivia o povo escolhido, o povo a ser liberto), e foi assim que uma chuva de pedras destruiu toda a plantação;
8. Nuvem de gafanhotos ataca plantações: Nesta praga, pela oitava vez o Senhor tocou no povo egípcio a fim de fazer justiça e libertar seu povo; enviou um vento que passou seguido de inúmeros gafanhotos devorando muito do que possuía o faraó. Mais uma vez ele cedeu, mas somente até a praga cessar;
9. Escuridão encobre o Sol por três dias: Desta vez, todo o céu do Egito se tornou trevas e passaram dias na escuridão (menos onde estavam os filhos de Israel). O que também não foi suficiente para convencer faraó a libertar o povo de vez, e;
10. Os primogênitos de homens e animais morrem: Esta foi a última praga, em que todos os primogênitos foram mortos, desde os animais até os servos, inclusive o filho do próprio faraó. Houve grande comoção no Egito quando por fim, após muita insistência, o faraó concordou em deixar o povo sair. De acordo com as escrituras, o faraó chegou a arrepender-se, indo atrás do povo, tentando capturá-lo de novo, porém sem sucesso, sendo que os soldados morrem afogados. Essa passagem bíblica ficou popularmente conhecida como “Deus abriu o mar vermelho”.
E nesta história de opressão, de acomodação e sofrimento, não resta aos homens outra alternativa, senão sair.
“Deixa meu povo ir” – é a palavra de ordem.
O Brasil vive seu revés – o maior da história da democracia brasileira desde 1982. De origem, o Brasil foi um acidente de percurso. Pedro Álvares Cabral queria descobrir um caminho alternativo para as índias. Acidentalmente, atracou no Brasil. Isso prova que Brasil é um país desventurado, mal amado e explorado.
A história de Israel se confunde com a história de todos os povos da humanidade e com a dos brasileiros, que através de grande luta, buscam o caminho do desenvolvimento, da igualdade, da fraternidade.
O brasileiro está sufocado. Oprimido, clama por justiça. Sofre nos hospitais, no transporte público, com epidemias que se alastram por falta de infraestrutura básica; falta educação, falta segurança, falta habitação.
Não tem dignidade. Não tem honra. Não tem respeito. Não tem valor.
O Brasil perde a cada ano 200 bilhões de reais com corrupção, segundo análise do Procurador da República Deltan Dellagnol. Ele alerta que o Brasil precisa reconhecer que a corrupção não é um problema de um partido ou de um governo: “Ela é sistêmica”, afirma. Defende que a partidarização do discurso “ou a crença ilusória” de que o País vencerá os malfeitos com a mudança de governos ou partidos, não existirá. “Precisamos de sistemas e instituições saudáveis. A história nos mostra que a corrupção não tem cor ou partido”, complementa.
O pensamento sistêmico é uma nova forma de abordagem que compreende o desenvolvimento humano sobre a perspectiva da complexidade. Para percebê-lo, a abordagem sistêmica lança seu olhar não somente para o indivíduo isoladamente, considera também seu contexto e as relações aí estabelecidas.
Um povo oprimido e o grito por justiça é uma combinação explosiva que pode implodir todo o sistema de uma nação, qualquer que seja ela, independente de língua, cor ou raça. E nessa caça a bruxas, somos todos culpados. Não há vencidos nem vencedores. Sofremos. Igualmente. Contribuímos todos para a crise. Acomodamo-nos, e a busca por uma saída não tem vencedores e nem vencidos.
O momento pede calma, mas uma coisa é certa: em momentos de dor, sofrimento e opressão, a solução é ‘sair’.
“Pessach” (passagem) é o fim da escravidão e o início da libertação.
Feliz páscoa a todos.

(Silvana Marta de Paula Silva, advogada e escritora. Twitter:@silvanamarta15)

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