Opinião

Projeto Partilha: por uma educação significativa

diario da manha

Algumas simples ações são capazes de transformar o espaço escolar, muitas vezes marcado pela tranquila previsibilidade da sua rotina, e alça-lo à condição do inesperado educativo. Foi isso que aconteceu em uma Escola Estadual em Catalão. O inesperado educativo – pelo menos na visão confessa de alguns alunos que esperavam apenas mais um turno normal de aulas – foi pautado por meio de uma ação pedagógica denominada de Projeto Partilha. Os links pedagógicos utilizados neste projeto foram a cooperação e a experiência de vida como elementos de uma partilha dialógica experimentada num ambiente de familiaridade e informalidade, algo diferente do que realmente ocorre em uma escola no desenrolar normal de sua agenda curricular.
De autoria do economista francês Turgot, há uma frase que diz: “O princípio da educação é pregar com o exemplo.” Desta frase, das contribuições de outros pensadores e do próprio acúmulo de reflexões dos mestres que se dedicam ao sacerdócio da educação, depreende-se que ensinar sem evocar os exemplos não produz bons e duradouros resultados. E não há demanda mais urgente em nossa sociedade hodierna do que uma educação cujos bons resultados (que ajudem os já cidadãos no exercício contínuo de reprodução da sua própria civilidade) sejam duradouros e, geracionais.
Foi no Colégio Estadual Doutor David Persicano, em Catalão, no período noturno, para as turmas de EJA (Educação Para Jovens e Adultos) que testemunhei a culminância deste projeto que conciliou currículo e exemplo de vida e, o resultado deste encontro foi a construção de um momento de aprendizagem significativa. A audiência, formada por alunos, professores e demais trabalhadores da educação reunidos numa não muito ampla sala de eventos, denunciava, pelos seus gestos e atenção dispensada, a riqueza pedagógica do momento.
O Projeto Partilha, apresentado na penúltima quarta-feira do mês de abril – semana da Páscoa – proporcionou a todos, profundos momentos de reflexão. Além de uma mesa posta, repleta de alimentos doados pelos alunos e professores, houve a partilha de uma rica, porém ainda jovem experiência de vida. Um jovem de vinte e poucos anos compartilhou com todos sua história de vida marcada pela luta vitoriosa contra um câncer. Foi uma das experiências dialógicas mais intensas e de densa aplicação pessoal que já presenciei.
O necessário apego às coisas simples da vida, como gestos de carinho e conversas sinceras, a compreensão de que a vida é uma dádiva que precisa ser protegida e celebrada intensamente e cotidianamente e, a valorização da aprendizagem escolar deram o tom e o conteúdo mais importante desta Partilha. Foram aproximadamente 90 minutos de uma rica síntese para partilhar com os presentes conteúdos e conselhos, que além de expressarem um farto aprendizado pela dor, jamais podem ser eficientemente acolhidos por um currículo formal.
Aprendemos – me incluindo como observador que experimentou a eficácia intencional deste Projeto – como a vida, se vivida no automatismo da insensibilidade pós-moderna, pode nos roubar as sutilezas que a deixam graciosa e, por mais que pareça apelação de discurso, mais humana. Aprendi, particularmente, e vi o reflexo deste mesmo aprendizado no rosto de muitos professores presentes, como um exemplo de vida – jovem, mas amadurecida pela reflexão – pode, em alguns casos, complementar e, em outros, extrapolar (na melhor acepção possível deste verbo), os conteúdos tratados nos currículos escolares.
Termino dizendo que, a exemplo do que aconteceu no Colégio Estadual Doutor David Persicano, em Catalão, a escola é local de currículo, planejamento e previsões, mas, também, de partilhas significativas e até certo ponto inesperadas, que começam planejadas (como todo projeto escolar), mas terminam como uma exposição artística, de alma para alma e cujas impressões e resultados vão além daquilo que, pelos esforços da rotina pedagógica do planejamento, se tentou prever. Por esse exemplo e por outros esforços creio, piamente, que estamos no caminho certo para a construção de uma sociedade melhor, tarefa possível unicamente pela via da educação. Acredito, também, que a Escola Pública em Goiás, patrimônio caríssimo de todos nós, tem prestado sua contribuição ao Brasil.

(Márcio Greik Viana, professor, pastor evangélico e teólogo – E-mail: [email protected])

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