Opinião

Alfredo Nasser, o paladino das liberdades públicas

diario da manha
Alfredo Nasser – Ministro da Justiça

Dando uma visada nos meus arquivos, encontrei a edição de o Diário da Manhã, datado de 30 de abril de 2000. Às páginas quatro deparei-me com uma matéria inteira sob o título – Nasser: a vida, a obra o mito – e aí resolvi, no dia de hoje, prestar minha homenagem a esse ilustre paulista, cidadão honesto, político de escol e que, ao longo de sua vida pública, ocupou vários cargos sem se locupletar dos dinheiros públicos. Ainda, no sobredito trabalho vi que naquela data de 30 de abril de 2000, o jornal prestou homenagens pelo aniversário de Alfredo Nasser, que se comemora, justamente, no dia 30 de abril, pois ele nascera em 1905. Então, nessa data passada ele completaria cento e onze anos de idade. Com maior prazer, republico (por inteiro) a biografia desse paladino das liberdades públicas, isto é, conforme o texto da lavra do saudoso Fábio Nasser Custódio, produzido na citada reportagem. Nasser era o quinto filho de Miguel Ignácio Nasser e Abla Issa Nasser, casal que veio da aldeia de Racur, no Líbano, para se abrigar no Brasil, terra de sua adoção.

Dos seis irmãos, somente Gabriel e Ana eram libaneses. Zacarias, Alfredo e suas outras três irmãs – Maria, Florinda e Helena – nasceram, as duas últimas, em Catalão. Consoante o que se acha escrito na referida matéria. Quatro anos após o nascimento de Alfredo morre Abla, vítima de grave infecção pós-parto. A família então dispersa-se, Alfredo vai morar com a irmã Ana e o cunhado Elias, em Tupaciguara, Minas Gerais, onde ele inicia os estudos. Com exceção do velho Miguel e dos filhos Gabriel e Zacarias, os demais se transferem para Formosa – GO.

Aos sete anos, em Tupaciguara, Alfredo Nasser é escolhido para saudar, com um discurso em praça pública, o bispo de Uberaba, D. Eduardo – que foi também bispo da cidade de Goyaz. Dez anos depois, após concluir os estudos Alfredo se dirigiu para São Paulo, sustentado e incentivado pelo irmão Gabriel.

Na capital paulista, Alfredo tenta, inutilmente, a Universidade na Escola Politécnica. Sem recursos, passou a trabalhar em 1922, como professor de matemática no Colégio Brasileiro. Ao mesmo tempo, foi admitido como redator da Folha da Noite e Folha da Manhã. Aos 20 anos de idade, ele foi classificado em primeiro lugar num concurso literário promovido pelo São Paulo Jornal, com o conto Volúpia. A banca julgadora foi composta por três monstros sagrados de nossa literatura: Menotti Del Picchia, Paulo Setúbal e Oswald de Andrade, isto em plena efervescência da Semana de Arte Moderna de 1922. Já então, desistira de vez do curso de Engenharia. Irrequieto, retornou a Goiás em 1928, indo residir na antiga Capital, onde prestou serviço militar e, ao mesmo tempo, passou a lecionar no Lyceu do Estado. Aos 24 anos, nas horas vagas, foi convidado para trabalhar como redator principal do jornal O Democrata, dirigido pelo senador Antônio Di Ramos Caiado, o lendário Totó Caiado, que durante mais de duas décadas dominou a política goiana.

Em 1930, Pedro Ludovico Teixeira foi nomeado Interventor em Goiás por Getúlio Vargas. Nasser, por suas estreitas ligações com o grupo caiadista, foi preso e perseguido, passando, em seguida, a militar nas hostes oposicionistas. Aos 29 anos, alistou-se com muito entusiasmo na Coligação Libertadora ao lado de Domingos Neto Velasco, também rompido com o dr. Pedro. O movimento de resistência a Vargas estava a exigir uma nova Constituição e eleições livres. Nessa época, fundou o seu primeiro jornal – Coligação – e, simultaneamente foi eleito deputado estadual à Assembleia Constituinte de Goiás. Com o golpe de 1937, foram fechados todos os legislativos do País, e os adversários da ditadura, e os políticos da oposição, passaram a ser presos. Aliando-se a em 1937, a Armando Sales Oliveira (que deixou o governo de São Paulo para ser candidato ao cargo de Presidente da República, nas eleições marcadas para janeiro de 1938), na resistência à ditadura e passou a trabalhar com João Perillo, no Jornal A Razão, fechado um ano depois pela censura.

Em 1939, Nasser transferiu-se para o Rio de Janeiro, na época Distrito Federal, onde, depois de ser aprovado em concurso público, começou a exercer suas funções no Dasp – Departamento de Administração do Serviço Público, ironicamente, criação getulista. Neste órgão, exerce, sucessivamente, as funções de técnico administrativo, diretor do Serviço de Documentação, editor da Revista do Serviço Público, e, ainda, professor de Direito Administrativo, Penal e Constitucional. A Revista do Serviço Público obteve reconhecimento internacional como sendo uma das melhores publicações no gênero. Um ano após a queda de Getúlio Vargas, precisamente em 1945, Nasser se elegeu suplente de deputado, por Goiás, à Assembleia Nacional Constituinte, pela União Democrática Nacional (UDN). Após a promulgação da Constituição de 1946, assumiu, já numa fase democrática, seu primeiro mandato ordinário, para, em janeiro de 1947, aos 42 anos e quase rompido com a UDN, da qual foi um dos fundadores em Goiás, ser eleito senador. Vejamos, em seguida, a continuação do texto produzido por Fábio Nasser. Um dos maiores obstáculos à compreensão e ordenamento da obra de Alfredo Nasser (melhor dizendo, do que dela estou) sempre foi o desconhecimento de sua vida por inteiro. Ou, o que é pior, o conhecimento apenas superficial dos diversos períodos que marcaram sua turbulenta trajetória – tanto na política como na vida pessoal.

O que existia, até o momento, era um amontoado de fatos desconexos, fragmentados e eivados de equívocos, onde quase sempre mito e ficção se mesclavam aos fatos reais comprometendo a indispensável fidelidade histórica.

Ao prepararmos a estrutura desta 2ª edição revista e ampliada (impossível de organizar sem um completo levantamento da biografia do autor), verificou-se que sequer os parentes mais próximos, ou os amigos mais íntimos, dominavam os principais eventos que marcaram a tumultuosa trajetória pessoal e política de Nasser.

De concreto mesmo dispunha-se apenas do roteiro de seus últimos anos, quando foi acometido por um infarto quase fulminante. Aconteceu no dia mesmo das eleições, 3 de outubro de 1954, após descobrir fraudes gigantescas que acabariam lhe roubando o mandato de senador, juntamente com Galeno Paranhos, candidato ao governo pelas oposições. Acometido de fortes dores no peito e no braço, foi atendido no extinto Hospital Santa Luíza às 11 horas da manhã (mesma hora em que morreria onze anos depois). O diagnóstico de uma junta medica não poderia ser pior. Ele sofrera várias lesões coronárias e “só lhe restava uma breve sobrevida, como inválido”.

Foi então que, pela primeira vez, aos 49 anos o coagido pelas doenças (cardiopatia e diabetes), Alfredo Nasser tentou formar o esboço do que seria uma família regular, alugando em Goiânia a pequena casa na Rua 71, antigo Bairro Popular.

Nela, entre idas e vindas ao Rio e São Paulo, ele passou a residir em companhia da irmã, Maria Nasser (também solteira), e das sobrinhas Consuelo e Stela, que, como filhas, vieram para sua guarda ainda meninas, depois de terem atravessado a infância em internatos. Além delas, adotou mais cinco crianças pequenas, conforme iam chegando.

Compunha ainda o pequeno núcleo familiar a amiga Maria Cabral Arantes, misto de namorada, secretária, enfermeira e confidente de todas as horas, aquela que ele chamou de amada e silenciosa presença.

Os episódios anteriores da vida de Nasser continuaram obscuros, quase desconhecidos. Quando muito, um ou outro período eram registrados em depoimentos difusos, através de amigos como Randall do Espírito Santo, Silene e José Andrade, Jamila e José Tobias, Salomão de Faria, Maninho, Ary Valadão, Camargo Jr., Adonias Filho, Jorge Abrão, Amália e Maximiano Teixeira, Walmir Alencar, Adail Santana, Iberê Monteiro, Ascendino Leite, William Guimarães, Walder de Góes, José Fleury, Hélio Seixo de Brito, Thirso Corrêa Rosa, Domingos Velasco, Declieux Crispim, Veneranda e José Luiz Bittencourt, Sebastiana e Joviano Rincon Segóvia, Mussi Rassi, José Décio Filho, Francisco e Haroldo de Britto, Carmem e Lincoln Xavier Nunes, Abrão Isac Neto, Elmira Hermano e suas filhas, João de Brito, Jandira Hermano e Zechi Abrão, Tranquilino Brasil, Issy Quinan, José Asmar, Batista Custódio, Leonan Curado, Cados Guedes Coelho, e alguns poucos que formavam a sua entourage habitual.

Todos, cada um à sua maneira, tinham alguma coisa a contar, esclarecer e acrescentar sobre Alfredo Nasser, como testemunhas oculares de episódios protagonizados por ele. Um desses foi o escritor e jornalista José Asmar, que acaba de lançar o excelente livro “Nasser – a oposição também governa”, com revelações inéditas sobre fatos e reações tipicamente nasserianas.

Impunha-se, assim, ao êxito do presente trabalho decifrar os trechos ainda ignorados de sua vida, ou daquilo que convencionamos chamar de “enigmas de Nasser”. O desafio só foi possível através de pesquisas minuciosas, exaustivas, quase detetivescas. Para o leitor comum, como entender as posições e ideias do escritor e político desconhecendo o homem em si?

Forçoso é admitir, no entanto, que esse emaranhado de lendas, contradições e mistérios que até agora haviam nublado o perfil de Alfredo Nasser foi reforçado por ele mesmo. Dono de um temperamento reservado, tímido e introspectivo, avesso a desabafos e confidências, em Nasser predominava aquele incoercível pudor de falar, colocar-se como centro das atenções ou elogiar-se a si mesmo. Um exemplo disto é a lenda, repetida até nos verbetes das enciclopédias nacionais, de que Alfredo Nasser era natural de Caiapônia – GO. Esta era, de fato, sua terra de amor e adoção, mas ele nasceu em São Paulo.

Solteirão solitário, existência nômade, sem endereço certo ou ligações definitivas com amigos e parentes, Nasser insistia em eternizar-se unicamente como homem público. De toda sua família inicial, quatro irmãs lhe sobreviveram, assim mesmo por pouco tempo. (Os Nasser pioneiros formaram uma família sob o estigma da morte precoce; morreu a mãe, Abla, aos 34 anos; depois foi a vez de Zacarias, o predileto do velho Miguel, quando mal completara 19, ao atravessar uma boiada em plena cheia do Rio Meia Ponte, arrastado pelas águas; mais tarde foi-se Gabriel, em 1944, aos 52, vitimado pela gripe; quando de sua morte, Miguel tinha pouco mais de 70; Alfredo, aos 60; Maria, a segunda irmã mais velha, faleceu aos 72; Florinda aos 70; Helena, a caçula, morreu aos 68 anos. A exceção foi a primogênita, Ana, que faleceu com bem mais de 90 anos).

Numa análise ligeira, a vida de Nasser subdivide-se em sete períodos distintos, independentes uns dos outros e que só agora foram completamente levantados:

1 – A fase da infância, em Tupaciguara, Caiapônia e Uberlândia.

2 – A juventude, repartida entre São Paulo e Goiás Velho.

3 – Os tempos da maturidade no Rio de Janeiro, capital da República.

4 – Período de Goiânia, quando fundou o Jornal de Notícias, em 1952.

5 – Posterior à doença vem a fase dita “familiar”, em Goiânia.

6 – Segue-se a fase de Brasília, os tempos do Ministério e da política em nível nacional.

7 – Novamente Goiânia, de onde saiu para morrer seis dias depois, num apartamento funcional da SOS no Distrito Federal.

No resumo biográfico que se segue, grande parte das informações foi-nos deixada pelo próprio Nasser, que, no fragor das lutas e debates, via-se obrigado a revelar em seus escritos muitos detalhes importantes de sua vida às vezes para refutar acusações injustas, outras para ilustrar determinadas posições políticas. Conforme se lê em Resposta a um político que também é padre (cujo título original era Resposta a Padre Trindade), Velho, cardíaco e boêmio, Conversa íntima, Apontamentos autobiográficos e Adeus à vida.

Mas a coluna central do esboço que se segue (que é, até hoje, a mais completa e disciplinada biografia de Alfredo Nasser) apoia-se no Dicionário Histórico Biográfico editado pela Fundação Getúlio Vargas, que estampa em duas alentadas páginas, além de sua foto, todos os aspectos de sua carreira de homem público, notadamente no cenário nacional.

É desse amálgama de informações, pesquisas e relatos controversos que resulta o relato quase didático dos principais atos que poderão, no futuro, desvendar os segredos desse homem sereno, que se casou com a política e conseguiu transformá-la em paradigma de bondade, destemor, apostolado humildade, pureza, despojamento pessoal, honradez e solidariedade humana.

Ademar de Barros e Alfredo Nasser
Ademar de Barros e Alfredo Nasser
Nasser – Deputado Federal
Nasser – Deputado Federal

Luiz Augusto Paranhos Sampaio 4

A FUNDAÇÃO DA UNIÃO DEMOCRÁTICA NACIONAL – OPOSIÇÃO

Um ano após a deposição de Getúlio Vargas, em 1945, Nasser se elege suplente de deputado, por Goiás, à Assembleia Nacional Constituinte, pela União Democrática Nacional (UDN). Após a promulgação da nova Carta Constitucional, ele assume na democracia seu primeiro mandato ordinário, para, em janeiro de 1947, aos 42 anos e quase rompido com a UDN, da qual foi um dos fundadores em Goiás, ser eleito senador.

Na realidade, Nasser deveria ter se tornado à época governador: na primeira convenção udenista, em 1946, ele havia sido escolhido por unanimidade candidato oficial do partido na disputa pelo Palácio das Esmeraldas.

Foi quando alguns companheiros, liderados pelo oponente udenista Jales Machado (pai de Otávio Lage), organizaram um pequeno bloco contrário à indicação. Após uma breve luta em que Nasser cedeu às pressões, anulou-se a soberana escolha dos convencionais a pretexto de um argumento que seus oponentes julgaram fundamental: “Nasser não tem dinheiro para sustentar a campanha.”

Para evitar um racha, aceita os termos de um traiçoeiro acordo: nas próximas eleições, em 1950, ele seria o candidato ao Senado ou ao Governo de Goiás – à sua escolha. A conspiração prosseguiu e acabou por guindar à cabeça de chapa da UDN o engenheiro Jerônimo Coimbra Bueno, alheio à política, nulo em administração, mas vencedor no principal quesito para o cargo: milionário.

Ao abrirem-se as urnas, uma surpresa: Nasser fora eleito senador com 40 mil votos a mais do que Coimbra a governador. Um ano antes de chegar ao Senado da República, Nasser havia fundado, em Goiânia, o Jornal do Povo, no qual foi o único redator em sua primeira fase.

Em 1948, por indicação do ministro José Américo, e para substituí-lo, Nasser torna-se membro da Comissão de Finanças do Senado, assumindo a função de relator do Plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte, Energia), o programa de governo do general Eurico Gaspar Dutra apresentado ao Congresso Nacional, em maio daquele ano. No ano seguinte é designado vice-presidente do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (Cedpen), entidade criada em abril do ano anterior para defender o monopólio estatal na exploração das jazidas minerais do País.

Em 1950, os udenistas rompem o pacto e lançam outro estranho à política, mas de grande brilho financeiro: o pecuarista e banqueiro Altamiro de Moura Pacheco.

Num discurso de improviso e inflamado, ao término da convenção, Nasser rompe, de forma dramática, com a UDN: “Meu cérebro parou, esmagado pelo rolo compressor das emoções.” E, parafraseando Rui Barbosa, finaliza: passa fora canalha!”

A coligação pessedistas é a vencedora com Domingos Velasco ao Senado e Pedro Ludovico Teixeira para o governo.

Às vésperas de deixar o Senado, em janeiro de 51, Alfredo Nasser é indicado por Dutra para o Conselho Nacional de Economia (CNE). Submetido à escolha do Congresso, seu nome é aprovado por unanimidade. Nasser permanecerá no cargo até o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 54. Durante os quatro anos que se seguiram à sua saída do poderoso CNE, ele retornou a Goiânia, onde dividia seu tempo entre a Faculdade de Direito de Goiás, na qual foi professor de retórica e oratória, e o Jornal de Notícias, que fundou e dirigiu a partir de 1952. Neste ano é escolhido presidente da regional goiana do Partido Social Progressista (PSP), comandado nacionalmente por Adhemar de Barros. Sempre na oposição, decide aliar-se à UDN, formando o bloco que se convencionou chamar-se de Oposições Coligadas.

Dois anos depois, outra convenção e nova derrota de Nasser como nome favorito para candidato a governador pela coligação UDN-PSP. Majoritários, os udenistas escolhem o deputado federal Galeno Paranhos, dissidente do PSD. Resta-lhe a candidatura ao Senado. As urnas dão vitória aos dois.

No Tribunal Regional Eleitoral (TRE), contudo, são ignoradas as denúncias de fraudes comprovadas. Diploma-se, então, José Ludovico de Almeida (Juca), como governador, e Pedro Ludovico, como senador pelo PSD.

Nasser recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e o processo se arrastou por nove anos. Em 1963, finalmente, o Supremo decide que, realmente Galeno e Nasser haviam sido, de pleno direito, os verdadeiros vencedores. De que adiantava? Aquela derrota deixou-lhe marcas fatais. No próprio dia da eleição, 3 de outubro, Nasser é atendido no hospital com dores no peito. Diagnóstico: infarto agudo do miocárdio. A junta médica que o atendeu proibira-lhe prosseguir na vida pública.

Em 1955, viaja até São Paulo, onde consegue apoio de Adhemar de Barros para montar as oficinas definitivas onde o Jornal de Notícias passa a ser impresso regularmente, todas as segundas-feiras.

Consagrado, afinal, pelos artigos, manifestos e reportagens assinadas, sempre publicados na primeira página do Jornal de Notícias, Nasser elege-se deputado federal, em 1958, com uma verdadeira enchente de votos, a maior dos partidos oposicionistas. Acabara de dar a volta por cima, desta vez em condições que beiravam o impossível, legando um exemplo raro de persistência e luta obstinada, quase física, contra os infortúnios.

Assume o mandato em fevereiro de 1959 e, entre aquele ano e o de 1960, atua como vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal e presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a apurar as acusações de irregularidades, extorsão e suborno, que pesavam contra o Departamento Federal de Segurança Pública.

Foi contrário à Emenda dos Conselheiros, pleiteada por Juscelino Kubitscheck (JK), que propunha a transformação de todos os ex-presidentes da República em senadores vitalícios. A lei não chegou a ser sancionada. Apoiou a transferência de capital federal para Brasília, em 21 de abril de 60, data fixada pela “Lei Emival Caiado”, apresentada ao Congresso Nacional três anos atrás. Em 61 ocupou o cargo de segundo-secretário da Mesa Diretora da Câmara.

Por ocasião da crise aberta pela renúncia do então presidente, Jânio Quadros, em 24 de agosto de 61, Alfredo Nasser assinou, juntamente aos outros parlamentares, uma nota oficial publicada três dias mais tarde. Nela, o grupo firmava posição de prosseguir normalmente na conduta dos trabalhos legislativos, assegurando aos deputados o exercício pleno de suas atividades parlamentares e a intenção de defender as instituições democráticas contra qualquer golpe militar.

 

MINISTRO NASSER

A crise provocada pelo veto dos ministros militares marechal Odílio Denis, da Guerra; almirante Sílvio Heck, da Marinha; e brigadeiro Gabriel Grun Moss, da Aeronáutica – à posse do vice-presidente João Goulart, sucessor constitucional de Quadros, foi solucionada apenas em 2 de setembro, com a adoção do Regime Parlamentarista, proposto pela Emenda Constitucional nº 4.

No dia 7 de setembro daquele ano, Goulart foi empossado. Quatro dias depois, Alfredo Nasser teve seu nome indicado por todos os jornalistas do País para ocupar o Ministério da Justiça e Negócios Interiores, em substituição a Tancredo Neves – elevado ao cargo de primeiro-ministro.

O Congresso Nacional, com o apoio inclusive de Mauro Borges e da bancada pessedistas de Goiás, aprovou, unanimemente, o nome de Nasser. Dia 13 de outubro de 1961, após licenciar-se da Câmara de Deputados, ele é empossado no cargo de ministro.

Nos quase dois anos em que ocupou a Pasta, o ministro Alfredo Nasser lançou a pedra fundamental do Palácio da Justiça, em Brasília; enfrentou e venceu as mais duras crises políticas, com rara diplomacia; criou e organizou, estruturalmente, a Polícia Federal (antes inexistente); tornou-se o primeiro goiano a governar o País, nas vezes em que substituiu o premier Tancredo Neves, quando este viajava ao exterior.

Como membro do Conselho de Ministros, apoiou o reatamento das relações comerciais e diplomáticas do Brasil com a União Soviética, concretizado em novembro de 62 – em continuidade à política externa inaugurada por Jânio Quadros e pelo chanceler Afonso Arinos, seguida por Jango e por seu novo ministro das Relações Exteriores, Francisco Clementino de Santiago Dantas. Dentro dessa orientação, o ministro Nasser preconizava uma maior aproximação com os países do chamado Terceiro Mundo e do bloco socialista, até mesmo por razões econômico-culturais.

Com a renúncia coletiva do gabinete chefiado por Tancredo Neves, em 26 de junho de 62, Alfredo Nasser reassume o mandato na Câmara Federal, sendo substituído interinamente no Ministério da Justiça por Alberto de Resende Rocha – o chefe de gabinete amazonense que ele escolhera tão logo assumiu a Pasta.

Alheio às patrulhas, independente e sábio nos julgamentos, Alfredo Nasser opôs-se às pressões dos socialistas e trabalhistas para que o Parlamento encaminhasse as chamadas Reformas de Base, propostas pelo presidente João Goulart. Foi quando declarou que “as esquerdas não tinham ainda quadros para governar o Brasil e que um golpe encabeçado por elas resultaria numa ditadura de direita”.

 

VELHO, POBRE E ELEITO PELO POVO

Pouco antes, entretanto, Nasser havia retornado para Goiás para disputar uma vaga de deputado federal. Pobre, doente, sem mandato, nem jornal, é desta época sua célebre frase: “Prefiro perder por falta de dinheiro a ganhar por falta de vergonha.”

Quase perdeu, pois não o perdoavam por não ter como ministro, nomeado ninguém no Estado para preencher os cargos da República na reeleição, em outubro de 1962, se decidindo após pela Coligação Democrática, formada por três partidos: UDN, PSP e Partido Democrata Cristão (PDC).

Na Câmara dos Deputados, acompanha com aflição a crise institucional alimentada pelas alas mais radicais da esquerda, com a complacência do presidente Jango. Conforme profetizara, o golpe militar da extrema direita é desfechado em 31 de março de 1964.

Mas a chamada Revolução de Março chega a Goiás montada pelo então governador, Mauro Borges, coronel do Exército e um de seus principais conspiradores. Além disso, ex-aluno e protegido do ditador escolhido, marechal Castelo Branco, o governador goiano lança um manifesto proclamando-se a encarnação da “Revolução no poder”. Seu primeiro ato, nos primeiros dias de abril, foi editar o Ato Institucional nº 1, mandando prender dezenas de pessoas.

Nasser rebela-se. Se o pai de Mauro, o senador Pedro Ludovico, fora o interventor da ditadura getulista, não lhe parecia concebível que, agora, o filho se impusesse como representante e poder supremo de uma nova ditadura em Goiás.

Alfredo Nasser passou, desde então, a lutar tenazmente pelo poder, em Brasília, sem, contudo, contribuir para a deposição de Mauro e a Intervenção Federal – que ele julgava prejudicais ao Estado. Chegou a se encontrar pessoalmente com o governador, exortando-o para que cedesse às imposições do comando militar. Mauro Borges, malgrado as concessões feitas, não conseguiu ser digerido pela “linha dura” dos militares e a intervenção federal consumou-se.

A ÚLTIMA ELEIÇÃO

Convenção de 1965. Nasser novamente acalenta suas antigas esperanças. Acha impossível que, dessa vez, seu nome não seja indicado para disputar o governo de Goiás. Mas o escolhido foi outro, também engenheiro, também moço, também apolítico e também rico, nada menos que Otávio Lage, o filho do companheiro desafeto udenista que, em 1946, o excluíra da sucessão – Jales Machado. Mais uma vez, Alfredo Nasser renuncia e perdoa.

Apesar das crises intensas de angina, ele passa a dirigir a campanha de Lage, atraindo para si os ataques adversários. Eleições ganhas, entretanto, ele é excluído por antecedência da equipe governista que então já se formava, Nasser não era considerado “confiável” para qualquer governo corruptamente normal como seria o de Otávio Lage de Siqueira.

De todos os sonhos, de tantas lutas restam-lhe apenas o mandato de deputado federal e a completa desesperança da política e dos homens. Quase ao final do ano de 1965, sua vida se resume ora a internações hospitalares ora a intensas crises de angústia e depressão.

A Nação mais uma vez reconhece-lhe o mérito, e a Câmara Federal indica seu nome, em outubro, para representa-la na Conferência Internacional da Organização dos Estados Americanos (OEA), a realizar-se em dezembro no Rio de Janeiro.

No dia 17 de novembro daquele ano, enquanto seguia sozinho de Goiânia para Brasília, ele chora pelo caminho segundo testemunhou mais tarde. Entenderia que estava vendo Goiás pela última vez? Quatro dias depois, às 11 horas daquela manhã de domingo, no modesto apartamento funcional que ocupava na Asa Sul, uma última e fulminante crise cardíaca faz calar, definitivamente, a voz revel e inconformada de Alfredo Nasser.

“…Viste passar a sua sombra morena, a suave sombra, companheiro, viste?

Homem de lua de aço, possuía a voz grave, era severa e triste.

Envolto em luz guia, mas caiu.

Desta sorte falou: É a morte! (A morte).

Ainda era sonho o dia…”

Minhas observações finais. Para dar conclusão à brilhante matéria produzida pelo inesquecível jornalista Fabio Nasser Custódio, é de se acrescentar o seguinte: a política tem suas nuances dignas de serem consideradas pelos historiadores que se detiverem a estudar as biografias dos políticos célebres, que, às vezes, no passado se digladiam nas hostes políticas e se distanciam com ódio, ojeriza, e num futuro, se encontram em situações peculiares ou em eventos sociais.

O fato histórico mais relevante do encontro entre Pedro Ludovico Teixeira e Alfredo Nasser – opositores no passado – havia, primeiramente, ocorrido num casamento da alta sociedade na noite em que se realizou o enlace matrimonial do engenheiro Múcio Nascimento, cuja família seguia, politicamente, Dr. Pedro Ludovico Teixeira. Nasser fora convidado para ser o padrinho da noiva Elzi Maia, hoje, colunista do DM, e os dois (Pedro e Nasser) conversaram cordialmente para a admiração dos presentes. Agora, o fato extraordinário que os colocou no mesmo palanque foi a candidatura a senador por Goiás, numa eleição realizada no primeiro domingo de julho de 1961. Referido fato foi narrado pelo acadêmico, jornalista e historiador, Hélio Rocha, no seu livro – Tu és Pedro – uma biografia de Pedro Ludovico Teixeira.

 

(Luiz Augusto Paranhos Sampaio, membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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