O poder da expressão
Diário da Manhã
Publicado em 6 de junho de 2017 às 01:35 | Atualizado há 8 anos
Falar em poder me dá arrepio. O termo parece unicamente associado à política. Política que nos últimos tempos está tão demonizada, porque ela, a cada momento que passa, perde qualquer mínimo padrão de decência e de lógica. Virou um furdunço. Por hoje, eu quero distância dela.
Mas o poder a que faço alusão no título, melhor será se a palavra poder for substituída por força. Então, leia-se a força da expressão.
A expressão, em nós, é tudo. Ainda que não falemos nada, ela é capaz de dizer tudo, no olhar, no gesto, e nas demais formas que o corpo demonstra.
Alegria, tristeza, espanto, medo, surpresa, indignação, raiva, e muito mais, podem ser comunicados sem uma palavra sequer.
Incrível como num diálogo, um sujeito pode falar e o outro responder com o silêncio, apenas manifestando os sentimentos. Coisa do ser humano.
Aqui em casa, tenho uma filha, a Glauce, mestre em provocar situações que se encaixam perfeitamente neste tema. Se o cidadão não estiver esperto de véspera, dá um piripaque só do jeito que ela começa o assunto.
Outro dia, comprei um queijo e o deixei na geladeira para de vez em quando comer um pedaço.
Distraidamente eu via um programa de TV. De repente, ouço a voz da Glaucinha: “Pai!, sabe aquele queijo que o senhor comprou?” Já virei o rosto para o lado dela e em menos de fração de segundo viajei por vários pensamentos e preocupações.
Pronto, comi queijo estragado. Envenenei-me. Vai ver que lá vem uma caganeira daquelas. Até senti a barriga dar um alarme. Meu Deus, o que vai acontecer comigo?
Ao ver a minha cara de espanto, ela, sorrindo, falou: “Calma, não é nada não! É que o senhor está pagando três vezes mais pelo queijo da mesma marca que o Jean compra em outro supermercado”.
Balancei a cabeça sem falar nada, mas no pensamento saiu um: puta que pariu!, me refazendo do susto, porém aliviado.
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)