Opinião

A vaidade na tela: pintura como elemento de crítica aos costumes

diario da manha
foto:divulgação

Ao analisar a história da arte percebemos uma enorme multiplicidade de temas, técnicas e também de funções que cada artista atribuiu à suas obras. Esta infinidade de funções se torna ainda maior em períodos e/ou sociedades em que a linguagem escrita não é predominante – não falo necessariamente de sociedades propriamente ágrafas, mas de períodos em que a grande maioria da população não do­mina a escrita, sendo ela restrita a alguns poucos “inicia­dos”. Em geral, os historiadores consideram as sociedades em que a escrita não é difundida como sociedades orais, constatação que me parece bastante equivocada. Se pen­sarmos com clareza, mais do que orais essas sociedades são também iconográficas; os membros destas sociedades se comunicam tanto pela vocalidade quanto pela articula­ção desta com ícones, signos e gestos.

Deste modo, pensar as sociedades que ainda não se efe­tivaram nos domínios da escrita é também pensar as diver­sas funções que o universo pictórico pode ter. Um exemplo interessante destes usos da imagem é a sua utilização para fins religiosos dentro do cristianismo medieval. O papa Gregório Magno, que teve seu papado entre o final do sé­culo V e início do seguinte, fez um conjunto de reformas li­túrgicas facilitando a expansão do cristianismo entre os pa­gãos . Este papa percebeu que para uma das formas mais contundentes de difundir e ensinar o cristianismo era, além das missas dominicais, através do uso de imagens. É justamente por isso que, indo na contramão do que diz a Bí­blia Sagrada – ver livro do Êxodo 20,1-5 -, Gregório Magno incentiva a produção de imagens.

Para este papa, as imagens tinham basicamente duas grandes funções: gerar comoção no fiel e ao mesmo tempo ensinar as passagens e os exemplos da vida cristã. Na con­cepção de Gregório Magno, a arte tinha assim uma função pedagógica e moral, daí a difusão de obras de arte nas igre­jas, desde o século VII. Esta função pedagógica atribuída às obras de arte pode ser encontrada nos mais diversos perío­dos e espaços, para além das igrejas medievais: seja na arte católica de Hieronymus Bosch ou do protestante do Pieter Bruegel, o Velho, ambos no século XVI; seja na arte euge­nista de Modesto Brocos ou na feminista de Rosana Pauli­no. Através de um exemplo imagético, o artista cria condi­ções de levar o espectador a refletir e aprender sobre “uma lição” presentes em sua obra.

É no escopo desta arte pedagógica que encontramos as va­nitas. As vanitas são um tipo de pinturas de natureza-morta – gênero de pintura surgida ainda na pintura grega, como ates­ta Plínio, o Velho, na sua “História Natural”, mas que se tornou fortemente difundida a partir do barroco, sobretudo o holan­dês. As naturezas-mortas representam, em geral, objetos e se­res inanimados, como alimentos, utensílios domésticos, ins­trumentos musicais, animais empalhados etc.

A especificidade das vanitas é justamente que além dos ele­mentos costumeiros das representações de natureza-morta, ela busca mostrar a frivolidade e a fragilidade da vida humana. Vanitas, em latim, significa algo como futilidade ou vacuida­de, características que podem dar a origem à vaidade humana, valorizando elementos que são vãos e vazios. Para demonstrar essa tolice que ronda a vaidade humana, diversos artistas pin­taram as vanitas de modo a demonstrar a fugacidade da vida e a fragilidade da vaidade humana. Isso pode ser percebido a partir dos temas que são colocados nas obras: frutas apodre­cidas, relógios e ampulhetas, instrumentos musicais, livros e aparelhos científicos, obras de arte, globos terrestres e mapas­-múndi etc. No entanto, o ícone mais característico das vani­tas é, sem dúvida, a caveira humana. Esta aparece como que o atestado da vulnerabilidade da vida humana.

A obra “It’s the end of the world as we know it”, do genial artista irlandês Conor Walton, produzida em 2007 é uma es­pécie de atualização deste tema. A partir de alguns elementos típicos das vanitas – como as frutas, a ampulheta, livros, glo­bo terrestre, obra de arte e a icônica caveira –, o artista dialoga com a tradição destas pinturas comentando, de forma irôni­ca, “o fim do mundo como o conhecemos”.

É interessante notar que o artista utiliza alguns elementos característicos das vanitas, ainda que os modernizando. O qua­dro que compõe a obra de Walton, por exemplo, é apenas uma reprodução impressa do famoso retrato de Dora Maar intitula­do “Mulher chorando”, de Pablo Picasso (1937). Neste sentido, a vaidade associada aos artistas e também aos mecenas e colecio­nadores de arte torna-se ainda mais fragilizada, já que sequer a obra é original. Outra atualização dos ícones das vanitas está globo terrestre que, na obra contemporânea, é inflável – refor­çando a sua fragilidade. Este globo aparece praticamente mur­cho, como que demonstrando ainda mais o seu sentido vazio.

Em primeiro plano estão um par de peras e uma ampu­lheta. As frutas estão bastante iluminadas e que parecem es­tar em seu ponto perfeito de maturação. Diferente das mais clássicas vanitas, a de Walton não apresenta as frutas em seu estado de podridão, mas próximo a isto. É uma questão de pouco tempo para que ela apodreça, por isso o tempo é evo­cado pela presença da ampulheta. O tempo que devora a to­dos – como a sua própria personificação mitológica em Cro­nos – é um dos elementos centrais da obra.

A delicadeza da vida humana frente o tempo é expresso pela caveira humana que aparece no canto superior esquer­do da pintura. Assim como a reprodução do quadro de Pi­casso e o globo terrestre murcho, a vida humana também é esvaziada. O crânio, osso vazio e morto, é o destino de to­dos nós. Nascemos para morrer; vivemos enquanto a mor­te não nos leva e é por isso que nossa existência é vã. Daí a percepção que as vaidades nada mais são que ilusões efê­meras. Como se pode perceber, por mais que o quadro de Walton não pareça ter uma clara filiação religiosa, sua obra apresenta um forte caráter pedagógico – é bom lembrar que a soberba, que também pode ser compreendida como vai­dade, é um dos sete pecados capitais.

Apesar da filiação clara ao discurso das vanitas, um deta­lhe da obra nos chama bastante a atenção e parece ser um pouco distanciada da realidade destes temas clássicos: os li­vros. Não que nas vanitas barrocas não aparecessem livros, mas o que é interessante é o caráter único destes livros. Os títulos são: The End of Nature, The End of Science, The End of Art, The End of History. Se todas as obras falam a respei­to da brevidade das coisas (natureza, ciência, arte e história) é porque parecem se filiar a uma concepção de mundo e de ciência tipicamente pós-moderna, que coloca em xeque as conquistas e a eficácia da razão humana. Com essa constata­ção chegamos a uma dupla interpretação: será que a vaidade está na petulância humana de afirmar o fim das coisas, atra­vés do pensamento (meta) científico, ou será que este pensa­mento pós-moderno é uma ruptura com a vaidade humana que acreditava poder explicar tudo pela razão?

(Prof. Victor Creti Bruzadelli, Mestre em história pela UFG, professor de escolas particulares de Goiânia e apaixo­nado por arte. Possui o Instagram @arteehistoria no qual se­manalmente posta obras de arte e faz análises voltadas para alunos do Ensino Médio. É importante frisar que não estamos falando da Reforma Gregoriana que vai ser empreendida, no século XI, pelo papa Gregório VII)

 

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