Opinião

O trabalho alimenta a economia do manicômio

diario da manha
Foto:divulgação

“Uma relação definida estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas” (Marx, 1979)

Em ensaio que referencia a obra “Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie”, Karl Marx avisa já ter proclamado a críti­ca da jurisprudência e da ciência política. A crítica do direito, da moral, da política inter­ligada à crítica do tratamento especulativo, presente nas relações da economia políti­ca com o Estado cujos resultados derivam da análise empírica. Trata de atestar sobre a crítica positiva, humanista e naturalis­ta com gênese em Feuerbach, seguido pela Fenomenologia e Lógica de Hegel, funda­mental, como a essência do “teólogo crítico que continua a ser um teólogo” (O Capital, p. 62), compelido a certos pressupostos da Filosofia aceitos como de autoridade.

O salário é determinado pela luta ár­dua entre o capitalista e o trabalhador com triunfo do capitalista, remunerando o sustento com o intuito de criar a famí­lia a fim de que a categoria dos trabalha­dores não seja extinta. Fenômeno da so­brevivência, segundo Smith, “um salário compatível com a ‘simple humanité’, ou, vida banal”. “A procura de homens regula necessariamente a produção de homens como de qualquer outra mercadoria”. Par­te dos trabalhadores cai na miséria ou na fome tramada na habilidade do capitalista que condena a categoria à fome e sujeição. Ao diminuir a riqueza da sociedade, nin­guém sofre tão cruelmente com seu declí­nio como o proletariado que, quanto mais deseja ganhar, mais tem de abrir mão do tempo e realizar um trabalho de escra­vo, alienado e abreviado em seu tempo de vida ao sacrificar parte de si mesmo para não ser arrasado como conjunto.

O acúmulo de capital aumenta a divi­são do trabalho, o trabalho particular, au­tomático, o faz ver-se diminuído espiritual e fisicamente. Quando há um decréscimo dos capitalistas a competição por traba­lhadores dificilmente continua a existir. A elevação de salários desperta no trabalha­dor igual ensejo de enriquecer que no ca­pitalista, mas só o pode satisfazer pelo sa­crifício do seu corpo e espírito. Outro fator preponderante é a maior quantidade de produtos que leva à superprodução e cul­mina ou no desemprego ou na redução de salários a níveis miseráveis. Segundo Smi­th, a mais próspera situação da sociedade causa agonia na maioria, a miséria social constitui o objetivo da economia. O tra­balhador recebe para originar uma classe aprisionada, não a humanidade.

O trabalho, longe de ter possibilidade de comprar tudo, deve antes se vender a si mesmo e a sua humanidade, apesar de ser, globalmente, danoso e insalubre. A renda e o lucro são descontos que os sa­lários precisam tolerar. Já a decadência e o empobrecimento do trabalhador é o produto do seu próprio trabalho e da ri­queza produzida por ele. A economia po­lítica não se ocupa do trabalhador no seu tempo livre como homem, mas deixa este aspecto para o direito penal, os médi­cos, a religião, as estatísticas, a política e o manicômio. A maior parte dos homens é subordinada ao trabalho abstrato. O erro dos reformadores é o anseio por ele­var salários e tornar melhor a condição da classe trabalhadora, o que Proudhon considera uma revolução social.

O trabalhador que ganha uma mesma quantia, ao fim de dez anos, fica um terço mais miserável. Uma nação que pretende se desenvolver precisa de tempo livre para criar e usufruir da cultura. A economia política analisa o trabalho abstratamen­te, se o trabalho é vida permutada, todos os dias, por alimento e uma mercadoria da mais miserável espécie, o sistema eco­nômico atual “reduz ao mesmo tempo o preço da remuneração do trabalho, aper­feiçoa o trabalhador e degrada o homem”. O capital é trabalho armazenado, se o hu­mano produz melhorias no manufatura­do, não eleva os salários, quanto maior a contribuição humana numa mercadoria, maior será o lucro do capital. A concorrên­cia constitui a única proteção contra os capitalistas e a concorrência entre os ca­pitalistas faz subir os salários de trabalho e diminuir o lucro.

O grande capital cria para si próprio uma espécie de organização dos instru­mentos de trabalho, onde, de acordo com Marx, “alugar o próprio trabalho é dar iní­cio à escravidão; alugar a matéria do tra­balho é estabelecer a própria liberdade […] o trabalho é o homem, mas a matéria nada tem do homem” (O Capital). As nações são apenas oficinas de produção, o homem é uma máquina para consumir e produzir; a vida humana, um capital; as leis econômi­cas regem de forma cega o mundo. A mi­séria tem gênese, não tanto nos homens, mas do poder das coisas. Para aumentar o produto anual da terra e do trabalho de qualquer nação, o único meio é aumentar, quanto ao número, os trabalhadores pro­dutivos. Quanto maior for a miséria indus­trial, tanto maior a renda.

Os senhores de terras, como todos os outros homens, gostam de colher onde não plantaram e exigem mesmo uma ren­da pelo produto natural da terra. Das três classes produtivas, a dos proprietários agrários é aquela a quem o rendimento não custa nem trabalho nem cuidado ou qualquer planejamento. A renda varia de acordo com a fertilidade natural dos solos, pescarias, minas. A causa dos preços ma­jorados das mercadorias é a taxa alta ou baixa dos salários e dos lucros. Após o ali­mento, as duas maiores necessidades hu­manas são o vestuário e a habitação. O tra­balhador desce até o nível da mercadoria, e de miserabilíssima mercadoria, torna­-se mercadoria mais barata, quanto maior número de bens produz mais poderoso se torna o mundo dos objetos, que ele cria diante de si, mais pobre ele fica na sua vida interior, menos pertence a si próprio.

A economia política oculta alienação na característica do trabalho, o qual pro­duz coisas boas para os ricos e escassez para o trabalhador na forma de palácios e choupanas; beleza e deformidade; inte­ligência e estupidez. O trabalho é exterior ao trabalhador, não constitui a satisfação de uma necessidade, apenas um meio de satisfazer outras necessidades. O homem é criatura genérica, vive da natureza, que é também seu corpo, em constante inter­câmbio com a natureza para não morrer, natureza essa que é independente do espi­ritual e físico do homem. Assim, o salário é um sacrifício do capital (p. 130).

E o pulso, ainda pulsa!

(Antônio Lopes, escritor, filósofo, professor universitário, mestre em Serviço Social e dou­torando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 

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