Opinião

Pedro Caroba, que tomou o leite de um curral inteiro atopetado de vacas

diario da manha

Lá no ser­tão do Du­ro, mui­ta gen­te dei­tou fa­ma por con­ta de coi­sas inex­pli­cá­veis que fa­zi­am: na área de fei­ti­ço, ha­via Chi­co-Me-Dá e sua mu­lher, mo­ra­do­res nas Bi­cas, Ezi­que, do Ver­da­dei­ro, e Ma­ria Den­tão, do Açu­de; já des­man­cha­do­res de fei­ti­ço, pon­ti­fi­cou Jo­a­quim Pa­ra­gu­aio, no ser­tão de Con­cei­ção, e o ve­lho Se­ve­ri­a­no, mo­ra­dor da bei­ra do Ita­bo­ca; na área de dar re­mé­dio, o mes­mo Se­ve­ri­a­no e Ma­ria Se­gu­ra­da, que as­sis­tia na Ca­be­cei­ra Ver­de, en­tre Con­cei­ção e Tai­pas, e até apa­re­ceu lá pe­lo Du­ro um ca­ma­ra­da que fa­zia pa­pel vi­rar dinjhei­ro e aca­boi ga­nhan­do o no­me de Pe­dro Di­nhei­ro, de quem vou fa­lar um dia des­tes. Só não con­vi­vi com Jo­a­quim Pa­ra­gu­aio, Chi­co-Me-Dá e Ma­ria Den­tão, que não co­nhe­ci e só sei da fa­ma.

Mas, cer­ta vez, en­cos­ta­do no bal­cão da “Ca­sa Pon­to Cer­to”, de meu ir­mão, pa­dri­nho Né­lio, es­cu­tei uma his­tó­ria que ele con­ta­va pa­ra uma pe­que­na pla­teia de fre­gues­es, a pro­pó­si­to de fa­tos mis­te­ri­o­sos, quan­do ele trou­xe a lu­me o cau­so de um su­jei­to che­gan­te por no­me Pe­dro Ca­ro­ba, que fa­zia coi­sas “in­vi­sí­veis”, no di­zer do po­vo. O ci­ta­do fros­tei­ro – pa­dri­nho Né­lio con­ta­va – es­ta­va na bei­ra do cur­ral de um ca­ma­ra­da que ti­ra­va lei­te das va­cas, e, to­do or­gu­lho­so, pro­pa­gan­de­a­va a ga­da­ma de seu pa­trão:

– Va­ca boa de lei­te ta­qui! – en­tu­si­as­ma­va-se com a quan­ti­da­de de lei­te de uma va­ca mi­ran­dei­ra, que, das deze­nas de va­cas pa­ri­das es­pa­lha­das no curral, era a que mais lei­te da­va, sen­do o or­gu­lho do pa­trão.

En­cos­ta­do à cer­ca do cur­ral, en­xa­da ao om­bro, Pe­dro Caro­ba, no­va­to por ali, des­fei­te­a­va:

– Quá! Eu be­bo o lei­te de­la to­di­nho du­ma vez. Es­sas va­cas daqui são de dar lei­te na­da! – e se­guiu pa­ra a ro­ça que em­prei­ta­ra pa­ra ro­çar, pois ele vi­via era de ba­ter pas­to e ou­tros ser­vi­ços de ro­ça.

O va­quei­ro mor­dia-se de rai­va, mas na­da di­zia. E to­do san­to dia Pe­dro pas­sa­va, pro­vo­can­do:

– Eu be­bo o lei­te de qual­quer va­qui­nha des­sas aí!

O va­quei­ro, ti­nho­so de na­tu­re­za, não era de cri­ar ca­los na pa­ci­ência. Com ele, o ne­gó­cio era re­sol­vi­do na ho­ra. Se apare­cia uma no­vi­lha que não apa­nha­va bar­ri­ga, ele não con­ta­va con­ver­sa: bo­ta­va pa­ra aman­sar no car­ro-de-boi, e, com pou­co tem­po, ela co­me­ça­va a en­grossar o úbe­re e lo­go vi­nha bezer­ro. As ma­ni­nhas, con­de­na­das à eter­na pri­va­ção da ma­terni­da­de, não fi­ca­vam ali pas­tan­do de gra­ça, sem dar pro­dução: iam pa­ra o car­ro-de-bois e pa­ra o en­ge­nho mo­er ca­na pa­ra cri­ar cor­po; e quan­do fi­ca­vam era­das, o pa­trão as ven­dia pe­lo pre­ço de boi.

Por cau­sa des­sas ma­no­bras é que o pa­trão gosta­va do vaquei­ro: pro­cu­ra­va dar mai­or pro­du­ção, ele mes­mo ro­ça­va o pasto e na­da fa­zia es­con­di­do do pa­trão.

Mas aque­le che­gan­te, que ca­pi­na­va por em­prei­ta­da nas ro­ças alhei­as, es­ta­va dan­do no va­quei­ro có­ce­gas de fa­zer uma coi­sa. Bem que podia ex­pe­ri­men­tar se o cha­co­tei­ro pro­va­va o que di­zia, mas co­mo o pa­trão não es­ta­va, acha­va me­lhor aguar­dar a sua che­ga­da. Co­nhe­cen­do o ga­do por den­tro e por fo­ra, po­de­ria es­co­lher a de­do uma va­ca pa­ra ti­rar a tei­ma do Ca­ro­ba. E es­ta­va an­sio­so pa­ra que o pa­trão vi­es­se à fa­zen­da, pra pa­gar o fa­rolei­ro na cur­va. Na cer­ta, opi­nio­so co­mo ele só, o pa­trão iria com­prar aque­la bri­ga. E o gar­gan­ta, di­an­te de tan­to lei­te, iria era correr com a se­la.

– Quá! Es­sas va­qui­nhas cur­ra­lei­ras dão lá lei­te na­da! – e pas­sa­va com des­dém, de en­xa­da ao om­bro.

O va­quei­ro fi­ca­va a pon­to de ex­plo­dir. E co­men­ta­va com o com­pa­nhei­ro que o au­xi­li­a­va na ti­ra­ção de lei­te:

– Cur­ra­lei­ra? Pois sim! Ago­ra, fi­ca es­se sa­fa­do, que nem sei de que bu­ra­co saiu, des­fei­te­an­do do ga­do! Su­jei­ti­nho de­sa­fo­ra­do, ra­paz!

Aí, o com­pa­nhei­ro re­dar­gü­iu, di­zen­do que co­nhe­ce­ra o ra­paz di­as atrás, tra­ba­lhan­do na ro­ça de um com­pa­dre; que Pe­dro Ca­ro­ba era um ra­paz mis­terio­so; que não sa­bia de on­de vi­e­ra, mas ti­ve­ra no­ti­cias de que era cheio de is­tú­cias: pe­ga­va pas­sa­rinho com a mão, em­bo­ra o bi­chi­nho se es­for­ças­se pra vo­ar, sem po­der; quan­do ele sal­ta­va uma co­bra, ela endu­re­cia ali mes­mo, além de ou­tras pre­se­pa­das. Di­zi­am, até, que ti­nha par­te com o Cão. E ain­da dis­se:

– …e o da­na­do co­me mui­to mes­mo. Já vi es­se fre­guês toman­do dois li­tros de lei­te no que­bra-je­jum, e nem ca­ra feia fez. Ain­da ou­tro dia, ele chu­pou qua­tro me­lan­cias, e das grandes, dei­xan­do só o ver­de das cas­cas…

O va­quei­ro ar­re­ga­la­va os olhos, até des­cren­do do que ouvia.

– … e o in­te­res­san­te é que ele não uri­nou ne­nhu­ma vez, mas, em com­pen­sa­ção, o meu com­pa­dre, que só chu­pou du­as ta­lha­das, mi­jou a tar­de to­da.

O va­quei­ro fran­ziu as so­bran­ce­lhas, pen­sou um pou­co, mas não se deu por ven­ci­do:

– Que­ro ver o mis­té­rio de­le é em ci­ma do lei­te gor­do des­sas miran­dei­ras aí, ó! – e mos­trou as va­co­nas de ber­ro gros­so.

Cer­to dia, o pa­trão che­gou na fa­zen­da, com o va­quei­ro pro­san­do ani­ma­da­men­te e dan­do no­tí­cias do ga­do da ma­lo­ca fula­na, dos be­zer­ros chu­pa­dos de mor­ce­go e, jus­tamen­te naque­le mo­men­to, fa­la­va da des­fei­ta de Pe­dro Ca­ro­ba. Até fi­cou sem gra­ça quan­do Pe­dro en­trou, e dis­se, mostran­do o ra­paz:

– É es­se aí, pa­trão, o ra­paz do lei­te.

O ho­mem me­diu Pe­dro de ca­be­ça aos pés:

– Vi di­zen­do que vo­cê é ca­paz de be­ber o lei­te de qualquer va­ca da mi­nha fa­zen­da; é ver­da­de?

– Quer di­zer que é, sim se­nhor.

– Qual­quer de­las?

– Até de du­as ou três.

O pa­trão olhou pa­ra os cir­cun­stan­tes com ar de mo­fa:

– Du­as ou três? Cê tá é de pi­lhé­ria!

– Quer apos­tar? – o ra­paz es­ta­va de­ci­di­do.

– Eu pa­go pra ver! – o ho­mem se in­te­res­sou no ti­ra-tei­ma.

– Eu, pa­ra ser fran­co – re­to­mou Pe­dro – be­bo até de mais, pois nes­ta ter­ra va­ca não dá lei­te…

Is­to fe­riu os bri­os do do­no da­que­la ga­da­ma boa de lei­te, e que não ad­mi­tia de­fei­tos em su­as va­cas. Ain­da mais com aque­la de­bocha­ção do ra­paz, que apos­tou que se não be­bes­se o lei­te do cur­ral in­tei­ro pa­ga­ria a apos­ta com um mês de ser­vi­ços na fa­zen­da. Mar­ca­ram pro dia se­guin­te.

De ma­nhã ce­do, quan­do o do­no da fa­zen­da abriu a por­ta, o ra­paz já o es­pera­va, pron­to pa­ra a vi­a­gem: co­ber­ta en­ro­la­da e passa­da ao om­bro, calçando a en­xa­da. Fo­ram pa­ra o cur­ral, on­de lhe foi en­tre­gue uma cu­ia de seus três li­tros ou mais.

O cur­ral ba­tia chi­fres, de tan­ta va­ca. O va­quei­ro e um aju­dan­te, com os re­lhos de ar­re­ar na mão, aguar­da­vam ape­nas a or­dem do pa­trão.

– Só es­tas? – era o ra­paz, de­bru­ça­do na por­tei­ra.

Daí a pou­co, vem o va­quei­ro com a cu­ia bam­be­an­do de tan­to lei­te e a en­tre­ga ao ra­paz, que, an­te os olhos cu­riosos de to­dos, co­me­ça a sor­ver. Daí a pou­co, mal o ní­vel do lei­te des­ceu dois de­dos no bei­ço da cu­ia, o ra­paz afas­tou-a da bo­ca, re­fu­gan­do, co­mo que en­jo­a­do.

– O pa­trão e o va­quei­ro se en­tre­pis­ca­ram, es­pan­ta­dos com aque­la pos­sí­vel de­sis­tên­cia, quan­do Pe­dro bo­tou a cu­ia em ci­ma do mou­rão da por­tei­ra do cur­ral.

– De­sis­tiu?

– De­sis­ti…

– Bem eu dis­se! – pa­trão e va­quei­ro sen­ti­am-se vin­ga­dos, quan­do o ra­paz vol­tou à car­ga, re­cla­man­do que gos­ta­va de lei­te não era be­bi­do, mas co­mi­do com fa­ri­nha.

Pa­ra lhe dar mais cor­da, o pa­trão man­dou vir um li­tro de fari­nha, e Pe­dro Ca­ro­ba re­cla­mou que era pou­ca, que pu­des­se tra­zer lo­go uma quar­ta.

Veio a fa­ri­nha. E o ra­paz pas­sou a de­vo­rar ra­pi­damen­te, à vis­ta dos olha­res des­cren­tes dos cu­ri­o­sos. As va­cas iam sen­do sol­tas, à medi­da que as des­lei­ta­va. E o ra­paz, comen­do o pi­rão de lei­te com fa­ri­nha, sem fa­zer ca­ra feia. Pa­trão, va­quei­ro e uns agre­ga­dos atra­í­dos pe­lo fa­to fi­ca­ram de bo­ca aber­ta, ao ve­rem a úl­ti­ma va­ca passar pe­la por­tei­ra do curral, em di­re­ção à man­ga de pas­to. O sa­co de fari­nha, mur­cho no chão, e o rapaz, aca­ban­do a últi­ma co­lhe­ra­da, ra-pan­do a cu­ia. Ter­mi­nan­do, an­tes de devolver a va­si­lha ao va­quei­ro, ain­da pi­lhe­riou:

– Pen­sei que es­sas va­cas da­qui des­sem lei­te.

Nin­guém dis­se na­da. To­dos se li­mi­ta­ram a se en­treolhar num ges­to de in­cre­du­li­da­de, en­quan­to Pe­dro Ca­ro­ba, com a co­ber­ta en­ro­lada e a en­xa­da ao om­bro, su­miu na entra­da da ve­re­da.

E vol­ta­ram pa­ra ca­sa, mui­to de­sa­co­ro­ço­a­dos, co­mentan­do o ca­so das me­lan­cias e qua­se acre­di­tan­do que, de fa­to, o Pedro Ca­ro­ba ti­nha par­te com o Ca­pe­ta.

E ao da­rem a vol­ta na cer­ca, avis­ta­ram es­pan­ta­dos um mon­te bran­co de qua­se meio me­tro en­tre os ma­ta­pas­tos, jun­to aos fun­dos do cur­ral. Fo­ram ver de per­to: era só pi­rão de lei­te com fa­ri­nha.

É, tem coi­sa que não se sa­be ex­pli­car.

 

(Li­be­ra­to Pó­voa, de­sem­bar­ga­dor apo­sen­ta­do do TJ-TO, mem­bro-fun­da­dor da Aca­de­mia To­can­ti­nen­se de Le­tras e da Aca­de­mia Di­a­no­po­li­na de Le­tras es­cri­tor, ju­ris­ta, his­to­ri­a­dor e ad­vo­ga­do. li­be­ra­to­po­[email protected])

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