Opinião

Transgêneros

diario da manha

A cu­ri­o­si­da­de é atra­í­da pe­lo tí­tu­lo, que tam­bém afu­gen­ta os que têm hor­ror aos te­mas di­fí­ceis. Fa­lar dos trans­gê­ne­ros não os tor­na nem mais e nem me­nos fre­quen­tes. Não al­te­ra a in­ci­dên­cia, mas me­lho­ra a exis­tên­cia de­les, pois o que ma­ta é a ig­no­rân­cia, a in­to­le­rân­cia, o pre­con­cei­to. Quem é trans­gê­ne­ro não se en­ver­go­nha de sê-lo, mas so­fre com per­se­gui­ções e ódi­os, que lhes fe­cham o mer­ca­do de tra­ba­lho, mui­tos de­les sen­do re­mu­ne­ra­dos de ma­nei­ra avil­tan­te.

O se­xo é de­ter­mi­na­do ge­ne­ti­ca­men­te pe­los cro­mos­so­mas XY e XX que de­fi­nem as gô­na­das, sen­do tes­tí­cu­los pa­ra os ho­mens e ová­rios pa­ra as mu­lhe­res. A pre­sen­ça des­sas gô­na­das de­ter­mi­na os ane­xos úte­ro e trom­pas pa­ra mu­lhe­res e epi­dí­di­mo e prós­ta­ta pa­ra ho­mens. Tais acon­te­ci­men­tos em­brio­ná­rios se acom­pa­nham de ge­ni­tá­lia ex­ter­na fe­mi­ni­na ou mas­cu­li­na. Ao nas­cer se tem o me­ni­no e a me­ni­na, que são re­gis­tra­dos com no­mes fe­mi­ni­nos ou mas­cu­li­nos, e, con­for­me a tra­di­ção so­ci­al, são ves­ti­dos e cri­a­dos con­for­me o gê­ne­ro, fi­xan­do-se daí o se­xo psi­co­ló­gi­co e o se­xo so­ci­al. Na pu­ber­da­de sur­gem as ca­rac­te­rís­ti­cas se­xu­ais se­cun­dá­rias, que re­a­fir­mam o se­xo so­ci­al. Mas es­sa du­a­li­da­de é ape­nas apa­ren­te, e o ser e o es­tar são múl­ti­plos e va­ri­á­veis.

A com­ple­xi­da­de do com­por­ta­men­to se­xu­al fo­ge ao sim­plis­mo bi­o­ló­gi­co e re­li­gi­o­so, e mes­mo que a so­ci­e­da­de quei­ra amar­rá-la a cren­ças e a pre­con­cei­tos não con­se­gue al­te­rá-la. As lu­tas da co­mu­ni­da­de LGBT têm por mo­ti­va­ção o exer­cí­cio da ple­na ci­da­da­nia. Uma opi­ni­ão é ape­nas uma opi­ni­ão, não sen­do fa­tor de­fi­ni­dor de com­por­ta­men­tos. A ne­ga­ção, o ódio, as su­po­si­ções só ator­men­tam es­sas pes­so­as, que, num cer­to mo­men­to das su­as exis­tên­cias, che­ga­ram à con­clu­são de es­tar no cor­po er­ra­do.

O te­ma é da al­ça­da da En­do­cri­no­lo­gia, que tra­ta dos hor­mô­ni­os e do in­ter­se­xo, co­mo ge­ni­tá­lia am­bí­gua, her­ma­fro­di­tis­mo e trans­gê­ne­ros. A tran­se­xu­a­li­da­de se ca­rac­te­ri­za pe­la pro­fun­da re­jei­ção pe­lo se­xo ana­tô­mi­co, pois se sen­te do se­xo opos­to. Es­sa iden­ti­fi­ca­ção sur­ge na pri­mei­ra in­fân­cia e au­men­ta de in­ten­si­da­de com o pas­sar dos anos. Tal ca­rac­te­rís­ti­ca já foi con­si­de­ra­da co­mo um her­ma­fro­di­tis­mo psí­qui­co. Ne­nhum tra­ta­men­to psi­co­ló­gi­co é ca­paz de re­ver­ter es­te sen­tir. Não exis­te es­co­lha, a pes­soa ape­nas é, e daí se ini­cia uma ba­ta­lha con­si­go mes­ma, até es­tar cer­ta da sua de­fi­ni­ção. En­tão in­for­ma à fa­mí­lia. A me­ni­na que se sen­te me­ni­no é ho­mem trans, o me­ni­no que se sen­te me­ni­na é mu­lher trans. Quan­to à tran­si­ção le­gal e fí­si­ca pa­ra o gê­ne­ro ao qual se sen­te per­ten­cer é uma de­ci­são.

Os mé­di­cos po­dem não se sen­tir à von­ta­de pa­ra cu­i­dar des­ses pa­ci­en­tes, mas na­da ga­nham em aban­do­ná-los, pois pre­ci­sam de tra­ta­men­tos se­gu­ros, se­jam fí­si­cos, se­jam psi­co­ló­gi­cos na bus­ca da ade­qua­ção. A fa­mí­lia tam­bém pre­ci­sa de su­por­te psi­co­ló­gi­co pa­ra se adap­tar à no­va re­a­li­da­de. Mui­tas de­las não acei­tam a tran­si­ção, e ex­pul­sam o trans­gê­ne­ro de ca­sa. Is­so não mu­da a de­ci­são, ape­nas am­plia a dor por não ser acei­to.

A mu­dan­ça de do­cu­men­ta­ção é sim­ples, bas­ta uma de­cla­ra­ção ver­bal e uma fi­cha lim­pa na jus­ti­ça, ocor­ren­do a tro­ca do no­me, man­ten­do-se o so­bre­no­me. Não é ne­ces­sá­rio re­la­tó­rio mé­di­co e nem ci­rur­gia. Após con­sul­tas en­do­cri­no­ló­gi­cas e psi­qui­á­tri­cas (ape­nas pa­ra con­fir­ma­ção e ques­tões le­gais), exa­mes e ava­li­a­ções ge­ra­is e es­pe­cí­fi­cas, tem iní­cio o uso de hor­mô­ni­os. Quan­to às ci­rur­gi­as ge­ni­tais, nem sem­pre acon­te­cem. Há per­da da fer­ti­li­da­de, a me­nos que se­jam es­to­ca­dos ga­me­tas pa­ra uma pos­te­ri­or fer­ti­li­za­ção. Após a tran­si­ção, os trans­gê­ne­ros se sen­tem mais à von­ta­de, sem o per­ma­nen­te cons­tran­gi­men­to de an­tes.

O te­ma foi as­sun­to do 33º Con­gres­so Bra­si­lei­ro de En­do­cri­no­lo­gia, as­sim co­mo de no­ve­la, mas não é coi­sa de mo­da. O pen­sar trans­gê­ne­ro não ca­be nu­ma lau­da, pois é múl­ti­plo, é gran­de, é com­ple­xo. Sem­pre exis­ti­ram pes­so­as que se sen­ti­am ina­de­qua­das num cor­po e num pa­pel so­ci­al que não eram os seus, com des­con­for­to e bus­ca in­fru­tí­fe­ra por uma iden­ti­da­de so­ci­al. Quei­ram ou não, os trans­gê­ne­ros es­tão à nos­sa vol­ta, à nos­sa fren­te. A me­lho­ra da lei lhes dá di­rei­tos, os de­so­bri­ga à clan­des­ti­ni­da­de e evi­ta a per­da dos seus di­plo­mas e cur­rí­cu­los. Que ca­da um pos­sa ser o que é, agin­do com res­pei­to, pro­mo­ven­do a to­le­rân­cia. Ser ci­vi­li­za­do é pro­te­ger a di­ver­si­da­de, é acei­tar o di­fe­ren­te, é pa­ci­fi­car, é sa­ber aco­lher, é con­vi­ver me­lhor.

 

(Ma­ra Nar­ci­so, mé­di­ca e jor­na­lis­ta)

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