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Depressão: o mal do século na realidade dos militares

diario da manha

Na última semana de agosto, o meio militar sofreu um grande baque. A notícia de que um dos irmãos de farda havia falecido comoveu a todos, mas somente mais tarde veio a confirmação, suicídio – o segundo naquele mês. Junto com o choque e a chegada do mês de setembro, que traz consigo a maior campanha em apoio ao tratamento do suicídio – O setembro amarelo, levantamos o questionamento: como lidar com a depressão no militarismo?

Policiais e bombeiros militares encaram diariamente situações conflituosas e de alto perigo em seu dia-a-dia, contudo, apesar de serem treinados para não demonstrarem suas dores, isto não os transformam em “super-humanos”. Desta forma são expostos ao medo, à ansiedade, à pressão e demais sentimentos diariamente, tornando os números de depressão e outras doenças psicossociais em um dos maiores em instituições públicas.

Segundo uma pesquisa da revista EXAME, em todas as regiões do país, que contam com cerca de 425 mil policiais militares, são altas as taxas de suicídio e de transtornos mentais. Em São Paulo, estado de maior efetivo policial do país, 120 policiais militares cometeram suicídio entre 2012 e 2017.

Números alarmantes, mas pouco divulgados. Isso reforça a ideia utópica de um patrulheiro militar que enfrenta tudo em nome da justiça e não sofre, o que gera um sentimento de isolamento e solidão para aqueles que sofrem desse terrível mal.

Ricardo Batista Nunes, graduado em Polícia e Segurança Pública, afirma que a depressão é uma das principais causas de incapacitação para o trabalho e uma das piores doenças do mundo contemporâneo. “ A Organização Mundial de Saúde (OMS) define depressão como um distúrbio psicológico comum, que apresenta elevado grau de apatia, desinteresse, perda do prazer, tristeza, transtornos relacionado ao apetite e ao sono, e ainda instabilidade a sentimentos ligado a auto estima”.

Como a atuação militar requer demasiado controle mental e uma enorme capacidade para julgar, o policial e bombeiro militar são submetidos a conflitos os quais são necessárias grandes decisões imediatas, que podem posteriormente causar um enorme impacto emocional se não são devidamente tratadas. A revista Vice ressalta os números: no Brasil existem cerca de 410 mil policiais militares e 43,8% daqueles que tentaram suicídio não contaram a ninguém sobre esse desejo.

“Muitos policiais ainda têm receio em procurar e aceitar ajuda especializada. No entanto, esses casos têm diminuído, felizmente estamos vivenciando uma época em que os transtornos mentais são amplamente discutidos, o que diminui o preconceito incentivando a busca por tratamento”. Comenta Dra. Ana Paula, psicóloga da Associação de Subtenentes e Sargentos PM & BM do Estado de Goiás.

E apesar dessa realidade, a Dra. Ana Paula aconselha para que os atingidos pela doença não percam a esperança, pois com o tratamento correto é possível ter uma vida saudável e feliz. “Inúmeras estratégias podem ser adotadas, a avaliação psiquiátrica e possivelmente a prescrição de medicação específica, os acompanhamentos psicológicos além de outras práticas integrativas são muito eficientes nesses casos. O importante é buscar ajuda! Preferencialmente nas fases mais iniciais da doença, o que aumenta o índice de remissão total dos sintomas e melhora a qualidade de vida e a cura”.

Números que só aumentam

Números apontam que o suicídio e a depressão têm aumentado. Foto: reprodução

Por que os dados são tão grandes e continuam crescendo? A resposta, segundo a psicóloga Dra. Ana Paula, vem do fato da profissão, tanto como policial quanto bombeiro, ser exposta a grandes níveis de estresse. “A depressão tem sido cada vez mais frequente em nossa sociedade e estima-se que ainda alcançará números maiores, nas corporações militares infelizmente não é diferente. Normalmente a doença se manifesta de forma episódica, está muito ligada a ansiedade e ao estresse laboral”.

No livro “Por que policiais se matam? ” da pós-doutora em sociologia pela UERJ, Dayse Miranda destaca, entre os problemas apontados, a dificuldade de pedir ajuda e a forma como são tratados quando adoecem. A orientação é procurar ajuda e que os superiores fiquem atentos ao comportamento de seus subordinados e caso encontre algum sintoma, encaminhe-o para um profissional adequado.

SUBTENENTE PM Luis Claudio Coelho de Jesus – Presidente da Assego

Apoio Psicossocial

Na Associação de Subtenentes e Sargentos PM & BM do Estado de Goiás existe o Centro de Referência de Apoio Psicossocial (CRAP/ASSEGO). Um departamento criado especialmente para prestar apoio aos associados e dependes militares que necessitam de apoio social ou psicológico.
Se você está sofrendo desse mal ou conhece alguém que precisa de ajuda, a ASSEGO pode ajudar: (62) 3281-3177.

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