Opinião

As mulheres, a educação e o mercado de trabalho

diario da manha

Por Elaine Nicolodi

A paquistanesa Malala Yousafzai, aos 15 anos, foi baleada no caminho para a escola, defendo o direito de meninas à educação. No Brasil, mesmo essa garantia estando prescrita na Constituição Federal de 1988, ainda é preciso analisar se há igualdade ao acesso à educação de qualidade.

É essencial assinalar, primeiramente, que a educação é condição importante para alcançar melhores ocupações no mercado de trabalho. Em pesquisa realizada em 36 países pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2019, no Brasil, o resultado aponta que 25% das mulheres entre 25 e 34 anos têm ensino superior. Apesar disso, a empregabilidade delas é de 82%, ao passo que dos homens é de 89%. Em notícia divulgada num site local, em fevereiro de 2018, aparece que o “desemprego em Goiás é maior entre mulheres negras ou pardas, com até 24 anos e ensino médio incompleto”.

Essa realidade é revelada em pesquisas, na mídia e, também, na ficção, com exemplos de décadas de desigualdade. Na obra A Hora da Estrela, a personagem Macabéa “só tinha até o terceiro ano primário”, conseguira, no máximo, ser datilógrafa. No trabalho, seu chefe a avisara que seria demitida, pois “errava demais na datilografia, além de sujar invariavelmente o papel”, era “incompetente para a vida”.

A personagem Bertoleza, na obra O Cortiço, tinha sobrecarga de trabalho: “às quatro da madrugada estava já na faina […], aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores […]. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão […] ainda encontrava tempo para lavar e consertar”. Ou nas palavras de Machado de Assis: “um homem […] deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas, […] era agora pouco buscada a loja – talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher”.

A desigualdade de gêneros, ainda, prevalece no mercado de trabalho no século XXI. Em reportagem divulgada pela agência de notícias do IBGE, “no grupo de Diretores e gerentes, as mulheres tinham participação de 41,8% e seu rendimento médio (R$ 4.435) correspondia a 71,3% do recebido pelos homens (R$ 6.216)”.

Neste período de pandemia de Covid-19, a taxa de desemprego aumentou, para as mulheres essa situação foi ainda pior, afetando trabalhadoras informais, mulheres chefes de família, que se depararam com os filhos em aulas remotas e a dificuldade de manterem seus trabalhos, aumentando ainda mais a sobrecarga de atividades. Ao ser levado em conta aquelas que têm menos escolaridade e exercem trabalhos domésticos remunerados essa situação se agrava ainda mais.

Afinal de contas, é crucial políticas públicas que promovam uma educação inclusiva, para todos, mas, sem deixar de lado, meninas que vivem em situação de vulnerabilidade social e com dificuldade de acesso à educação básica (de qualidade) e, consequentemente, ao ensino superior no futuro. À vista disso, é inadiável a efetivação de políticas de direito à igualdade nas relações de trabalho.

*Licenciada em Letras pela PUC-Goiás. Doutora em Educação pela UFG. Professora no Centro Universitário Araguaia.

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